Não será certamente necessário recordar à maioria dos portugueses a severa crise económica que assola a Europa de forma mais ou menos generalizada, crise que em Portugal ganhou uma intensidade e fervor ainda menos recomendáveis que as cíclicas crises anteriores a que já nos tínhamos acostumado. Há quase cinco anos que o vocábulo e as suas consequências nos acompanham no dia-a-dia, há quase Rui Falcaocinco anos que não se fala de outra palavra, há quase cinco anos que se sentem os efeitos directos corrosivos de uma crise que teima em prolongar-se no tempo sem abrandar na violência.

As consequências da crise afectam a maioria da população e tardam em aligeirar os seus efeitos imediatos, tanto materiais como emocionais. A crise expõe não só as fragilidades directas, visíveis de forma enfática nas elevadas taxas de desemprego e no fraco rendimento disponível das famílias portuguesas, como as fraquezas indirectas mensuradas no sentimento depressivo generalizado e de aparente prostração face ao futuro imediato. Pior que a sensação de crise é a falta de vislumbre de um futuro mais esperançoso, a ausência de perspectivas de uma melhoria palpável a curto ou mesmo a médio prazo.

Ou, talvez reformulando esta visão mais pessimista, a anterior sensação de impotência face ao futuro já que estas percepções colectivas mudam num piscar de olhos e fomos recentemente invadidos por um curioso sentimento de euforia proporcionado pelos números mais frescos do crescimento económico… mesmo que pigmeus. A taxa de desemprego diminuiu, as taxas de juros internacionais aliviaram e, tão depressa como nos deprimimos com as primeiras notícias da crise, parecemos estar agora a sofrer de um súbito júbilo colectivo pelas promessas de recuperação económica. Nem mesmo o saudável chamar à realidade de uma recuperação ainda incerta e muito dilatada no tempo parece ensaiar abrandar este novo cenário cor-de-rosa.

Não sei se animados por este ideal de recobro iminente, embalados por sonhos de uma recuperação económica que por ora só se sente no papel, começa a sentir-se um novo ânimo a soprar no enfraquecido mundo do vinho. Um ânimo que mais que sustentado em crescimentos de vendas excepcionais assenta na simples confiança, ou esperança da retoma, na expectativa de que os ventos económicos estejam em mudança e que a bonança se apreste a arribar à costa. O mundo do vinho, ou pelo menos uma parte do universo da produção de vinho, parece acreditar piamente na retoma económica imediata… pelo menos a atentar em algumas das propostas que têm surgido ao longo dos últimos dois ou três meses.

É que só mesmo uma fé inquebrantável numa recuperação económica instantânea poderia pretender explicar a manifesta inflação de preços que teve lugar ao longo dos últimos meses. Se nos anos imediatamente anteriores aos primeiros sintomas da crise os preços elevados se tinham transformado numa rotina desequilibrada desenvolvendo um modelo exótico onde cada produtor aspirava a ter o vinho mais caro de Portugal, a crise conseguiu trazer algum bom senso ao mercado eliminando muitos dos preços mais absurdos e imorais. Podemos quase afirmar que o mercado renegou os excessos do passado para logo acrescentar um novo excesso, desta vez em sentido contrário, repudiando os preços obscenos do passado para começar a forçar preços demasiado baixos e incompatíveis com a salubridade económica da produção.

As loucuras do passado tinham aparentemente sido esquecidas, os excessos de voluntarismo de alguns vinhos, no preço e nas embalagens sumptuosas, tinham sido banidos e a ambição desmedida tinha sido repudiada. Estávamos de regresso à normalidade do mercado e à tirania dos vinhos abaixo da fronteira dos 5€… ou mesmo abaixo do patamar dos 2€, importância a que quase metade dos vinhos nacionais é vendida nas grandes superfícies.

Eis porém que quase sem se dar conta, de forma sorrateira e sem muito alarido, os preços dos vinhos portugueses voltam agora a disparar de forma estranhamente entusiástica, pelo menos em muitos dos vinhos “especiais” que têm sido propostos recentemente. Vinhos exclusivos, tal como no passado, de produção limitada, das melhores uvas ou das melhores parcelas de vinha de cada produtor, envelhecidos durante anos nas melhores barricas de carvalho francês, provenientes de vinhas velhas de rendimentos baixíssimos… e demais atributos que os produtores comunicam. Vindos do nada, por vezes de produtores já com créditos firmados, por vezes de rótulos novos de produtores já afamados, por vezes de produtores jovens e sem qualquer histórico ratificado, a verdade é que a lista de vinhos muito caros, por vezes obscenamente caros, desabrochou novamente.Rui Falcao

Num ápice a lista de vinhos acima dos 50€ voltou a ser povoada por novas referências, barreira logo superada por vinhos mais próximos dos 80€… fronteira que não tardou a ser ultrapassada por vinhos com preços acima dos 100€. Inevitavelmente há já quem ultrapasse o limite dos 125€ e até quem proponha vinhos por valores perto dos 250€, sempre em vinhos jovens e sem o esforço e o custo financeiro que os longos anos de estágio em cave implicam. Numa análise precipitada até poderia parecer que as consequências da crise já tinham ultrapassadas ou volatilizadas por completo.

Até parece que nada foi aprendido com os erros de um passado demasiado recente para poder ser esquecido e para que tão poucos lhe prestem a atenção devida. A especulação de preços, a subida imparável de preços que raramente tinha correspondência directa com a qualidade, foi um dos factores primordiais para o avanço da crise no sector e para as graves dificuldades que alguns produtores de vinho atravessaram e atravessam. Se é difícil defender qualquer juízo de justiça em preços abaixo da barreira dos 3€ valores que colocam a produção de vinho no limiar da sobrevivência, também é difícil justificar a introdução recente de tantos vinhos propostos a preços indecorosos e pouco compatíveis com a qualidade efectiva e com a realidade económica de Portugal. Um pouco de bom senso não seria mal visto.

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2 Responses to “A loucura dos preços”

  1. Ainda vamos pagar muito caro esta subida vertiginosa do preço dos vinhos… sem dúvida que vamos.

  2. avatar EDUARDO RIJO says:

    Bom dia considero que o mercado dos vinhos neste momento consome

    apenas 2 segmentos o baixo e o alto pelo que este ultimo será

    residual ,apenas em nichos de mercado, o segmento medio está a consumir

    vinhos que habitualmente estavam destinados ao segmento baixo

    acredito que esta situação poderá alterar nos proximos anos para

    a normalidade , assim que a conjectura financeira começar a aliviar nos bolsos dos consumidares , no entanto existem produtores a tentar a sua sorte com preços altos de referencias

    sem historia mas o proprio mercado ira selecionar o trigo do joio , os consumidores cada vez se encontram melhor informados

    marcando presença em workshop vinicos , provas etc.

    apraz-me dizer que temos cada vez mais consumidores mais esclarecidos . bem haja

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