Qual é a terceira variedade mais plantada no estado da Califórnia, a pátria de facto dos vinhos norte americanos? A resposta não será imediata mas sem surpresa podemos ficar a saber que as duas castas mais plantadas no estado são o Cabernet Sauvignon e o Chardonnay, respectivamente. Nada que a maioria não suspeitasse.

Rui Falcao - RubiredVoltemos então a essa terceira variedade para desvendar a sua identidade. As maiores probabilidades de acerto cairão muito naturalmente entre os suspeitos do costume, entre as omnipresentes Merlot, Syrah, Pinot Noir ou Sauvignon Blanc. Ou seja, aquelas que habitualmente surgem nos contra-rótulos dos vinhos californianos dependendo de uma inspiração mais bordalesa, mais influenciada pelas Côtes du Rhône ou mais virada para os vinhos do estilo borgonhês. Qual será então a terceira variedade mais plantada na Califórnia? Como se depreende pelo texto não será nenhuma destas castas clássicas mas sim uma variedade praticamente desconhecida, a Rubired.

Para assombro geral a terceira variedade mais plantada na Califórnia é a Rubired, uma casta desconhecida para o grande público e mesmo para a maioria dos profissionais. Uma variedade que não só não surge em nenhum contra-rótulo oficial como ainda uma casta que emerge envolta sob um manto de mistério, camuflada do público e da imprensa. E não, o Rubired não é uma uva de mesa mas infelizmente uma uva destinada ao mundo do vinho. Infelizmente porque a Rubired resulta do cruzamento de duas castas tintas sendo pois uma variedade construída pelo homem, desenhada por Harold Olmo com o propósito concreto de acrescentar cor aos vinhos tintos.

A sua origem é ligeiramente confusa e complexa mas de forma simplista é uma casta híbrida que nasceu do cruzamento forçado de várias variedades, algumas delas de origem não Vinífera… com essa particularidade tão curiosa de incluir na sua génese uma casta portuguesas que nos é tão querida. A base do Rubired é consequência do cruzamento directo entre o Alicante Ganzin e o Tinto Cão, a portuguesíssima casta do Douro. Se o Tinto Cão tem mais que provas dadas já o Alicante Ganzin tem uma proveniência menos habitual redundando da mestiçagem entre o Aramon Rupestris Ganzin e o Alicante Bouschet, outra das castas tão familiares e apreciadas em Portugal. Para complicar as coisas posso acrescentar que a Aramon Rupestris Ganzin é um hibridismo entre dois tipos de Aramon, de Vitis Vinífera e Vitis Rupestris, e que o Alicante Bouschet é um cruzamento entre as variedades Petit Bouschet e Grenache. Se procurássemos por maior detalhe, poderíamos ainda complicar um pouco mais a ascendência deste Rubired tão obscuro já que o Petit Bouschet é também ele um cruzamento, desta vez entre as castas Aramon e Teinturier du Cher.

Apesar de a Rubired nunca ter sido aplicada em vinhos comerciais chegaram a ser produzidos ensaios académicos para averiguar sobre os seus possíveis predicados na elaboração de vinhos varietais. Segundo todos os estudos realizados a casta proporciona vinhos de cor intensa e profunda mas sem qualquer expressão, sem aroma, corpo ou estrutura que justifiquem a sua utilização. Palavras e descritores pouco animadores para aquela que é a terceira casta mais plantada da Califórnia…e que poucos conhecem ou reconhecem.

O que nos conduz direitos à pergunta fatal – para que serve então a casta Rubired e porque é tão plantada na Califórnia? Surpreendentemente a resposta aponta para uma espécie de xarope feito com as uvas da casta, um aditivo enológico de concentrado das uvas Rubired. Um produto enológico que é vendido sob nomes como Mega Purple ou 8000 Purple, marcas comerciais de concentrados de Rubired destinados a acentuar a cor dos vinhos tintos californianos mais baratos proporcionando uma cor preta retinta que estes vinhos nunca teriam de forma natural.

A sua utilização é pois como colorante activo, corante tão potente que a maioria dos enólogos californianos que admitem o seu uso recomendam doses que não devem ultrapassar os 0,05% a 0,1% do lote… sob pena de tornar o vinho demasiado viscoso e imbebível. Por ser um concentrado de uva Mega Purple e amigos acrescentam igualmente açúcar e glicerina ao lote ajudando a camuflar notas vegetais de uvas menos maduras e ajudando ainda a mascarar eventuais contaminações com Brett. Uma “solução mágica” que advém de um dos maiores equívocos que insistimos em manter, a expectativa de que os vinhos tintos de cor mais carregada sejam melhores e mais concentrados que os vinhos tintos de cor mais pálida.

Sob esse erro de avaliação excessos são cometidos, como estes aditivos corantes tão bem o demonstram. Porque, sejamos claros, um produtor que não consiga obter vinhos de cor “suficientemente escura”  naRui Falcao - Rubired maioria das regiões de clima quente ou moderado estará muito provavelmente a fazer qualquer coisa de errado. O grande problema é que uma cor “suficientemente escura” deixou de ser o padrão mínimo aceitável exigindo-se agora cores pretas retintas em todos os vinhos, de todas as castas, de todas as colheitas. Tonalidades irrealistas que só poderão ser alcançados, sobretudo nos vinhos de maior volume, com recurso a expedientes deste tipo. Tendo em conta que estes concentrados são produzidos tendo como base uma casta híbrida o seu uso é, pelo menos teoricamente, ilegal na Europa.

Tivessem os californianos tido ocasião de aprender algo com as lições do passado, nomeadamente com a história dos vinhos portugueses, e saberiam que o principal condicionante histórico que conduziu à criação do Douro, a região demarcada e regulamentada mais antiga do mundo, assentou na urgência em regularizar e fiscalizar as muitas adulterações impostas ao vinho, sobretudo na definição da cor, com a adição frequente de baga de sabugueiro, um corante natural que adulterava o vinho fino da época. A história repete-se…

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3 Responses to “Preto mais preto, não há”

  1. avatar Renato Rodrigues da Silva says:

    Muito bom texto – parabéns !!

    Mas uma pergunta: a casta portuguesa Vinhão também não seria utilizada para isso ?

    Abs
    Renato

  2. avatar Rui Falcão says:

    Renato, obrigado pelas palavras simpáticas.
    O Vinhão é um caso absolutamente distinto do Rubired. Não só por ser uma variedade de génese natural, ao contrário do Rubired que foi “fabricada” em laboratório, mas também por ser da espécie Vitis Vinífera ao contrário do Rubired que é um híbrido entre Vitis Vinífera e Vitis Rupestris. Mas também porque existem centenas de vinhos elaborados com Vinhão (ou Sousão como é chamado Douro e Sousón como é conhecida na Galiza), incluindo muitos vinhos varietais, ao contrário do Rubired que entra sempre às escondidas e dificilmente ultrapassa os 0,1% do corte.
    A outra grande diferença é que o Vinhão não é uma variedade tintureira ao contrário do Rubired. Tem muita matéria corante na casca mas a polpa não tem cor como é habitual nas uvas tintas.
    Abraço,

  3. avatar José Silva says:

    O vinhão não é uma casta tintureira. Mas porque será que, algumas pessoas ligadas ao vinhos verdes, continuam a afirmar que é?

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