Por vezes sinto-me invadido por sentimentos espúrios de desânimo e derrota. Por vezes sinto-me desalentado, quebrado e intimidado, descorçoado pera
nte a passividade de tantos no mundo do vinho, esmorecido pela falta de visão colectiva, estarrecido perante os pequenos egocentrismos.
Aparentemente, a história pouco ou nada nos ensinou. Continuamos enclausurados, presos a discussões internas, a lutas de protagonismo, a disputas paroquiais desastrosas. Que percamos meses a discutir entre regiões, sem perder um minuto a pensar como conquistar um universo de adolescentes que calçam ténis Nike, comem hambúrgueres McDonald’s e bebem Coca-Cola, revela uma inadmissível falta de visão. Que percamos anos a dissertar sobre a moral, e factual, impossibilidade de entregar o exclusivo de uma casta a uma região, sem perder um segundo a tentar promover esse nome fora de fronteiras, revela uma intolerável falta de visão.
Perdemos anos de trabalho, horas de discussões, toneladas de argumentos inviáveis, para defender o indefensável. Perdemos oportunidades para afirmar uma região, uma casta, um conceito, um estilo de vinho único. Pretender defender a exclusividade do nome Alvarinho para uma sub-região do Vinho Verde, a sub-região de Monção, cerceando as restantes denominações de origem portuguesas, bem como as restantes sub-regiões do Vinho Verde, a uma praxis escondida, à ilegalidade forçada do nome Alvarinho, traduz uma falta de visão absolutamente intolerável.
Como se o nome de uma casta, mesmo que autóctone, pudesse ser propriedade de uma só região. Como se pudesse ser moralmente defensável o uso privativo e absoluto de uma casta. Como se fosse razoável pretender garantir o usufruto privado sobre o nome de uma casta que, imagine-se, é transfronteiriça.
Depois, inevitavelmente, surgem as caricaturas. Teriam graça se o assunto não fosse tão sério. Assim, na realidade, tal como as coisas são, infelizmente o humor é profundamente negro. Como foi possível intentar embargar o timbre do nome Alvarinho em Ponte de Lima, ao mesmo tempo que a Austrália e Califórnia apresentam os seus primeiros Albariños ao mundo… envoltos em pompa e circunstância!
Provavelmente, se a triste saga da casta Verdelho se repetir, serão os Australianos, para além dos galegos, a solenizar a casta no mundo, a afirmá-la na elite internacional dos vinhos brancos. Isto, claro, ao mesmo tempo que nos entretemos a desafiar a lógica em guerras contraproducentes, com proibições e ciúmes mútuos, com pequenos despiques escusados.
Sim, eu sei, o tom é de profunda desilusão, numa visão tremendista. Mas desacomoda-me que, mais uma vez, estejamos a perder o comboio da história… por escolha própria. Desgosta -me que, mais uma vez, sejam terceiros a anunciar ao mundo as virtudes de uma casta portuguesa/galaica.
Estaremos eternamente condenados a tal fado?
Tags: Vinho, Vinho Verde
Vivemos numa sociedade volúvel, caprichosa e inconstante, uma sociedade governada pelo culto do imediato, pelo efémero, pelo prazer da gratificação instantânea. Uma sociedade de visões curtas, sem perspectivas nem horizontes, uma sociedad
e que prefere premiar emoções fortes e gostos padronizados face a matizes e gradações, a gostos desconhecidos e desusados. Será possível, para quem vive em tal ambiente, sentir desejo, apetência, vontade… e “pachorra” para beber vinhos velhos? Ou, assumindo de vez os tiques da sociedade, aceitamos o fado de consumir apenas vinhos jovens e irrequietos, vinhos imberbes e frenéticos, vinhos explosivos nos aromas, efusivos e comunicativos na alegria da fruta, vinhos voluntariosos… mas curtos na expressão?
Aparentemente, mas não surpreendentemente, os vinhos brancos velhos são uma espécie quase em vias de extinção. Reféns do imediatismo e da gratificação momentânea, perdemos contacto com vinhos extraordinários, vinhos de personalidade forte, com nuances e matizes que só o tempo pode conferir, com a complexidade e o rendilhado que o tempo de estágio se encarrega de acrescentar. Vinhos difíceis que exigem compreensão e curiosidade intelectual, vinhos ténues e delicados que obrigam a apreciações mais aprofundadas. Vinhos que exigem tempo, estudo, dedicação, vinhos que demandam atenção e concentração. Vinhos exigentes!
Sim, é certo que os vinhos velhos comportam riscos, inconvenientes, dúvidas e incertezas. As desilusões são muitas, provavelmente superiores às exultações, e, por inerência, a decepção e o desapontamento preenchem amiúde a alma. Mas é também inegável o regozijo de beber um vinho com idade, um vinho com história, um vinho que consiga envelhecer com nobreza e carácter.
Poucos acreditam, mas os vinhos brancos, portugueses incluídos, podem envelhecer com garbo e fidalguia. O caso mais notável, apesar de quase ignorado, é o dos Alvarinhos do Minho, vinhos com uma capacidade notável de progressão em garrafa. Afortunadamente tive ensejo de provar, por diversas vezes, vários destes vinhos com mais de década e meia, sempre com resultados surpreendentes. Vinhos ainda frescos e vibrantes, por vezes inacreditavelmente frutados, vinhos de viço e fulgor arrebatadores. Igualmente primorosos podem ser os brancos da casta Encruzado do Dão, espantosos na irrequietude, no descaramento e longevidade. Uma recente prova vertical, comemorativa do centenário da denominação Dão, permitiu comprovar e evidenciar a teoria.
Então, porque não arriscar? Porque não investir provando um momento de história? Receio de quê? É que o sentimento de incerteza também pode ser uma virtude…
Tags: Dão, Vinho, Vinho Verde
O fenómeno é recorrente e consequente, quase instintivo para quem vive o vinho de forma apaixonada, congénito para quem se embrenha e empenha diariamente nas singularidades e peculiaridades do vinho. Fazer um vinho, o seu vinho, é o sonho natural de qualquer enólogo. Poder exp
ressar livremente a sua sensibilidade, os seus amores e fantasias, numa veia criativa, num movimento de afirmação pessoal, é o sonho último de todo e qualquer enólogo… independentemente do que o politicamente correcto imponha como discurso oficial. É difícil, muito difícil, resistir à sedução fatal do vinho, ao apelo da criação pura e dura, à livre expressão de convicções, à locução das crenças pessoais, à alegoria da eternidade. O sentimento de liberdade criativa, o inebriamento artístico de poder oferecer uma interpretação única da natureza, compensam as muitas dores de cabeça intrínsecas a tal empreitada.
Igualmente inequívoco, embora aparentemente menos natural, é o desejo íntimo que a larga maioria de críticos e jornalistas/escritores de vinho acalenta, resguardado nas profundezas da alma, de um dia fazer o seu vinho. Poucos se atreverão a confessá-lo, poucos terão a ousadia de o mencionar publicamente, poucos o assumirão de forma explícita. Porquê? Talvez porque, por alguma razão obscura omnipresente nos países latinos, sentimos invariavelmente vergonha em expor sentimentos, pudor em transpor fronteiras bem circunscritas, decoro na vontade de cambiar de campo. Se são relativamente comuns os exemplos anglo-saxónicos de conversões de crítico a produtor, só excepcionalmente reconhecemos a mesma aventura nos países de cultura latina. E no entanto, nada é mais natural que a exteriorização deste desejo cuidadosamente escondido.
Depois de anos de divulgação da mensagem teórica, depois de infinitos artigos de opinião a exprimir intenções e convicções, depois de incontáveis prelecções sobre o futuro do vinho, depois de incalculáveis dissertações sobre o rumo certo a tomar, os desafios e as oportunidades, é apropriado que alguém sinta o chamamento da terra, o clamor do exemplo. Depois de milhares e milhares de vinhos provados, depois de ter capturado os desafios e anseios do mercado, depois de finalmente saber o que se pretende da vida, a transição e o desejo de extravasar fronteiras são naturais.
James Halliday será, porventura, o exemplo mais gritante da familiaridade natural entre a crítica, a escrita e a produção. É, seguramente, um dos autores mais prolíficos e prestigiados do planeta… o que não o impediu, bem pelo contrário, de continuar a exercer direito e de estabelecer, primeiro a Brokenwood Winery, e, posteriormente, a célebre Coldstream Hills, produtor exemplo para muitas gerações.
Mas é no Reino Unido, metrópole do jornalismo e crítica de vinhos, que se descobrem mais e melhores ensinamentos. Robert Joseph, co-fundador da revista Wine e do celebérrimo Wine Challenge, o maior concurso de vinhos internacional, é o exemplo mais fresco da tendência, com os seus vinhos bordaleses e regionais do Pays d’Oc a invadir as prateleiras dos supermercados ingleses e norte-americanos. Hugh Johnson, certamente o autor mais reverenciado e considerado do mundo do vinho, para além de actual co-proprietário do produtor húngaro Royal Tokaji Company, foi director de produção do Château Latour, em Bordéus, durante alguns anos. Richard Mayson, autor especialmente chegado a Portugal, é co-proprietário dos vinhos Pedra Basta, radicados na Serra de São Mamede, Portalegre, fruto da sua longa ligação com Portugal. Até Charles Metcalfe, amigo pessoal e ilustre especialista dos vinhos portugueses, encetou, ainda que de forma quase recreativa, uma passageira ligação à produção portuguesa. Ou melhor, sob o pretexto da reunião e apresentação magna dos vinhos da associação Independent Wine Growers (IWA), em Londres, criou um lote único e arrojado de um branco amparado nos vinhos de Alves de Sousa, Luis Pato, Casa de Cello, Quinta do Ameal, Quinta da Covela e Quinta dos Roques, aferrolhado com uma rolha esmagadora na dimensão.
No mundo mediterrânico as vozes são mais baixas, os sussurros mais familiares, os comentários mais difusos. Poucos exemplos sobram para além de Victor de la Serna, homem grande do jornalismo vinícola espanhol, autor dos belíssimos Finca Sandoval, na esquecida Manchuela.
Tal desiderato seria possível, desejável, e facilmente aceite em terras lusas?
Tags: Vinho
Sem aviso prévio, sem advertência preliminar, o convite tombou na minha caixa de correio. Ali pespegado, em letras bem vistosas, repousava um convite para uma visita de trabalho à Grécia, ao norte da Grécia. As amizades e conhecimentos antigos, a cumplicidade com um escanção e dois enólogos gregos de nomeada, os contactos longos com o “ICEP” grego, depois de dois convites anter
iores frustrados por incompatibilidades de datas, ajudavam a explicar o primeiro convite. Primeiro convite sim, porque, depois de decifrar as intenções, descobri que, afinal, tinha recebido, não um, mas sim dois convites. Um convite para membro do júri do concurso internacional de Salónica, três dias de prova seguidos de outros três dias de visita guiada às regiões de Goumenissa e Naoussa… e um segundo convite, ainda mais aliciante pela oportunidade rara, uma convocação directa de Nico Manessis para uma prova pioneira e revolucionária de vinhos gregos originais, vinhos insólitos e estranhos, produções raríssimas de castas perdidas, microvinificações experimentais. Mas este segundo convite, e respectiva aventura, fica guardada para segundas núpcias, para um outro texto a editar em data próxima.
Por ora interessa-me discutir a perspicácia grega e as boas práticas de um país que, tal como Portugal, assenta a sua identidade nas castas próprias. Sim, é verdade que lá, tal como cá, os inevitáveis Syrah, Merlot, Chardonnay e quejandos, também se popularizaram e aparecem reiteradamente nos rótulos. Também lá, tal como cá, grassou a moda e o desejo da “internacionalização”, a aposta na modernidade dos lotes entre castas nativas e castas internacionais. O movimento era inevitável, fruto da época e das circunstâncias. Mas, também lá, tal como cá, produtores e líderes de opinião perceberam a inevitabilidade de um regresso às origens, a necessidade de afirmação e diferenciação nacional, a urgência em oferecer alternativas únicas e genuínas. E, também lá, tal como cá, o caminho está facilitado por uma colecção incrível de castas autóctones, de terroir diferenciados, de apelos exóticos, de paisagens deslumbrantes. Também lá, tal como cá, apareceu uma nova geração de enólogos e produtores, uma geração desejosa de mostrar trabalho, mais preparada tecnicamente, mais cosmopolita, uma geração que viajou e alargou horizontes, que fala fluentemente inglês, que tem o mundo como horizonte. Sim, os paralelismos entre os dois países são fáceis, os pontos de convergência próximos. Até a dificuldade em afirmar as suas castas, inerente a dois países periféricos, as mesmas castas que os diferenciam do resto do mundo. Sim, porque oferecer castas diferentes, de nomes impronunciáveis, castas de carácter e gostos alternativos, castas que fogem aos padrões pré-formatados, é uma dificuldade e embaraço extra.
Porque, goste-se ou não, não é nada intuitivo, para quem tem o gosto moldado pelas referências internacionais, perceber e identificar os sabores e paladares das castas indígenas gregas… ou portuguesas. Porque não é nada fácil, para quem tem como referência natural as castas internacionais, perceber os padrões qualitativos das castas de nomes exóticos, perceber o que cada casta, e região, podem e devem oferecer, perceber o que esperar de cada denominação.
E é aqui que os gregos se diferenciam notoriamente do caminho traçado por Portugal. É neste particular que os gregos decidiram uma aproximação alternativa, um
a abordagem potencialmente dispendiosa, potencialmente ineficaz no curto prazo… mas inteligente e garante de resultados dramáticos a médio/longo prazo. Que práticas diferenciam a promoção grega da praxis portuguesa? A explicação e divulgação rigorosa das suas castas e regiões, mostrando, de forma prática e intensiva, com o recurso a vinhos de cada casta e região, o que esperar de cada uma delas. Mergulhar o forasteiro no mundo das castas gregas, discutir as melhores, com exemplos práticos, bem reveladores das múltiplas facetas que podem adquirir, exemplificar e doutrinar. Preparar o palato para as diferentes identidades gregas, educar sobre nomes, proveniências, aromas, sabores, particularidades.
Foi o que me aconteceu. Cheguei, tal como solicitado pela organização, um dia antes do primeiro evento, para uma longa jornada educativa sobre as principais castas gregas. Durante um dia, aprendi a identificar as castas fundamentais, a compreender os manigâncias de cada uma, a perceber a diversidade regional, a inteirar-me da história de cada casta e denominação. Durante um dia, numa viagem louca comandada pelo professor Stefanos Koundouras, provei dezenas e dezenas de vinhos, numa viagem lúdica pelo património ampelográfico grego, numa jornada esclarecedora sobre o potencial de cada região. Assentei sobretudo arraiais nas castas Assyrtiko, Athiri, Vilana, Moschofilero, Roditis, Lagorthi, Savatiano, Malagousia, Mandiliaria, Aghiorghitiko, Xinomavro, Mavrodaphni e Moscatel. Diferentes tipos de fermentação, estágios com e sem madeira, diferentes solos, diversas regiões, tudo foi mostrado, discutido, explicado até à exaustão. Nomes que antes me eram apenas vagamente familiares, explorados em experiências avulso, sem sistematização e sem método, passaram, num ápice, a velhos conhecidos.
Em pouco mais de um dia, ganhei experiência de causa que me permite compreender o que esperar de cada variedade, o que esperar de cada região, definir balizas e pontos de referência. As pontes foram lançadas, as portas da compreensão escancaradas. Depois, depende apenas do interesse despertado, depende apenas da vontade pessoal, prosseguir esse caminho do conhecimento. Afinal, que melhor forma de introduzir e promover uma país vinícola? Uma abordagem alternativa que Portugal faria bem em adoptar e adaptar à realidade nacional.
Prova cega, a verdade da prova. Prova cega, a única prova verdadeiramente justa. Prova cega, para a defesa intransigente da verdade! A lengalenga é convincente, de fácil digestão, e, visivelmente, incontestável na argumentação. Porque a ver rótulos todos somos especi
alistas, porque a ver rótulos todos somos influenciáveis, porque a ver rótulos as simpatias e antipatias são fatais, porque a ver rótulos os preconceitos são inevitáveis. Aparentemente a argumentação é tão sólida, o raciocínio tão evidente, que o tema tem pouco para oferecer. Mas… e se a praxis não comprovar a tese? E se a realidade escapar à ditadura do politicamente correcto? E se, afinal, a prova cega não for irrepreensível? E se a prova cega encerrar falácias, erros e vícios de forma?
Sim, a prova cega apresenta inúmeras virtudes, é inegável. É mesmo indispensável em condições concretas, nas avaliações prosaicas dos concursos institucionais de vinho. Sem o recurso à prova cega, os concursos de vinho pouco mais seriam que uma caricatura grotesca, uma pura perda de tempo. E sim, a prova cega pode também ser didáctica, educativa e lúdica, proporcionando divertidos momentos de satisfação, num exercício de adivinhação que parece comprazer alguns egos mais avantajados.
Mas, e há sempre um mas, a prova cega também encerra numerosos defeitos, imperfeições várias que lhe atenuam o encanto teórico. Porque favorece sempre os vinhos mais potentes e expressivos, os mais explosivos e entusiásticos, os mais aromáticos, os mais evidentes, os mais redondos, mais maduros e exuberantes. Em prova cega, os vinhos mais subtis, mais delicados e delgados, mais graciosos e ténues serão sempre preteridos, incompreendidos, esquecidos face ao apelo da verbosidade da fruta, potência e açúcar. É inevitável!
Mais, em prova cega, reféns da sua condição humana, todos os provadores se sentem inseguros, testados, examinados, nervosos pela sensação do desconhecido, inquietos pelo receio de cometer equívocos imperdoáveis. Quanto maior a experiência, quanto maior a responsabilidade, quanto maior o prestígio, maior será também o receio… por haver mais a perder! Assim, em prova cega, por se sentirem intimidados, os provadores resguardam-se continuamente em valores intermédios, esquivando-se ao risco, sem se comprometer com os extremos da escala. Premeia-se assim a vulgaridade, pelo temor que os provadores sentem de fazer má figura, nivelando pela mediania todos os vinhos presentes.
A prova cega, por juntar vinhos com ciclos de vida distintos, vinhos de evolução rápida com vinhos de longo curso, patrocina arbitrariedades consideráveis. Os vinhos mais simples, mais prontos, mais imediatos, são, forçosamente promovidos, lesando os vinhos que necessitam de tempo em garrafa, vinhos mais austeros na fase juvenil. Os vinhos de guarda, os clássicos intemporais, dificilmente poderão ser apreciados e valorizados em prova cega.
E, finalmente, o principal vício de forma, a ausência de contexto, condição inerente à prova cega. Despojado do seu contexto, despido do enquadramento histórico, destituído da cultura, do homem e da vinha, o vinho perde identidade, perde sentido, transformando-se num mero líquido asséptico. Os vinhos menos vulgares, com maior personalidade e temperamento, mais originais, são especialmente prejudicados pelos dogmas da prova cega. Imaginar um Barolo ou Barbaresco fora do contexto, desgovernado no meio de uma prova cega, na companhia de vinhos carnudos e comunicativos, é um destempero absoluto. Porque para apreciar verdadeiramente um vinho é indispensável percebê-lo e conhecer o seu enquadramento.
Prova cega? Parece-me tema demasiado valorizado, concessão envergonhada ao politicamente correcto!
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Ainda me recordo do sentimento de pasmo e admiração que experimentei quando iniciei, algures em 2001, a leitura do “Roteiro dos vinhos portugueses 2002”, o guia de vinhos de José Salvador. Espanto por ler ali estatelado, logo nas primeiras páginas, no capítulo
de apresentação, a notícia de que este seria o penúltimo guia de sua autoria. Surpresa por descobrir algum cansaço e desmotivação nas suas palavras, à mistura com algum desencanto, perplexidade pela sua confissão de que o jornalismo vínico seria uma profissão de desgaste rápido.
Pois se nesse momento eu investia uma generosa parte do meu tempo livre, e dos meus recursos, no estudo do vinho, um estudo prático e teórico, acalentando a expectativa de em breve lhe poder seguir os passos… como seria possível que alguém como José Salvador quisesse desistir de tal ofício? Se eu me encontrava na antecâmara de poder publicar um guia de vinhos, de expressar as minhas considerações e paixões, como seria possível que outros quisessem renunciar?
Oito anos depois, seis guias editados depois, começo a perceber alguma da fadiga propalada por José Salvador. Editar um guia de vinhos, realizar tamanha empreitada, não é tarefa ligeira. Nem tudo são rosas. Já nem falo de toda a logística envolvida, do espaço necessário (e obviamente inexistente) para as centenas de caixas recebidas, dos milhares de garrafas espalhadas por todas as divisões da casa, dos milhares de fichas técnicas arquivadas. Já nem falo dos milhares de notas de prova que têm de ser escritas, e posteriormente revistas, dos milhares de vezes que tenho de lavar copos, dos milhares de garrafas que têm de ser abertas, dos milhares de litros que são despejados pela pia.
Já não falo das dezenas de horas a abrir caixas de cartão, das dezenas de horas a tentar identificar garrafas enviadas sem rótulo e sem qualquer identificação, das centenas de quilos de cartão a reciclar, das dezenas de garrafas despejadas diariamente no vidrão, da abstinência total, durante meses, de aromas intensos e de qualquer alimento que possa influir com a prova do vinho. Já não falo do prejuízo familiar, do meu sumiço durante quase quatro meses, da desagradável coincidência das provas ocorrerem durante o Verão, período tradicional de férias familiares. Já não falo das centenas de garrafas que se apresentam duas, três, quatro semanas, depois de terminado o prazo limite para a recepção de amostras.
Não, para além de todas as dificuldades logísticas, penosas mas suportáveis, está a dificuldade de julgar o trabalho de um ano no curto espaço de tempo em que medeia uma prova! Uma responsabilidade descomunal que pesa sobre as minhas costas, sempre com a eterna incerteza de conseguir ser incondicionalmente frio e analítico.
Tanto queixume pode deixar transparecer algum princípio de desmotivação e cansaço, algum abatimento, alguma quebra face ao investimento em tempo e à disponibilidade exigida. Nada de mais desacertado. Não me posso, nem me quero, queixar! Afinal, tenho a sorte de poder fazer o que gosto, como gosto, com paixão e empenho, assumindo as minhas convicções pessoais. Tenho a fortuna de poder manifestar de forma clara e desassombrada as minhas crenças e certezas, mas também as minhas incertezas e perplexidades.
E, sobretudo, a preparação de um guia de vinhos oferece-me a oportunidade rara de poder provar, de forma metódica e sistemática, a quase totalidade da produção portuguesa… e um leque bastante representativo da produção estrangeira. Permite-me avaliar as virtudes e debilidades de cada colheita, analisar a evolução de cada produtor, dissecar o andamento de cada denominação, detectar e antecipar estilos, tendências e consistências.
Sim, apesar de extenuante, escrever um guia de vinhos é uma ventura assombrosa, uma lição de humildade, um hino à diversidade, um verdadeiro mergulho de cabeça na grande aventura do vinho. Como todas os grandes cometimentos da vida, é uma empreitada dura e intransigente… mas emocionalmente recompensadora!
Tags: Guia vinhos, Vinho
Até que extremo, até que ponto, até que hipérbole pode chegar um produtor? Como determinar e delimitar os limites para a extravagância humana? Onde estabelecer a fronteira entre excentricidade, capricho, originalidade… e simplesmente a fantasia e o desvario? A resposta não é fácil nem axiomática, e, muito provavelmente, nem sequer conjecturável. Mas a tese filosófica, essa é mais que oportuna sempre que falamos, conhecemos,
provamos e bebemos os vinhos Movia, de Ales Kristancic, o produtor mais reconhecido deste jovem país, e, porventura, o mais exótico e extravagante produtor da Eslovénia… e da Europa!
Esloveno por nascimento, esloveno por civilização, esloveno por opção, mas raiano e transfronteiriço pela terra, pela vinha, pela cultura. O acaso fez com que, depois das inúmeras e dilacerantes hostilidades europeias, as vinhas da família, as de sempre, acabassem espraiadas pelos dois lados da fronteira, divididas entre Itália e Jugoslávia, fragmentadas entre Friuli e a Eslovénia, repartidas entre o mundo ocidental e a cortina de ferro. Ditosamente, as cumplicidades locais, regionais e culturais entre dois povos que já foram iguais, revelaram-se mais fortes que a divisão política e administrativa determinada pelas capitais. Ales Kristancic poderia ter optado pela nacionalidade italiana, mas sempre se sentiu esloveno de coração. Todos os dias, de forma natural, no trilho das gerações passadas, cruzava, e continua a cruzar, a linha de fronteira, sempre dentro da sua propriedade, das suas vinhas. O rótulo é esloveno, a alma é eslovena, mas as vinhas, essas, são transfronteiriças!
Só por si, esta originalidade já seria motivo suficiente para despertar a atenção, para olhar com deferência para um homem que manteve uma vivência entre dois mundos, entre dois blocos, produzindo um vinho entre dois regimes, duas ideologias, duas vontades, transpondo ousadamente uma linha de fronteira quase proibida. Mas Ales Kristancic é muito mais que uma curiosa história de fronteira. O seu encanto, o seu magnetismo, resultam das convicções singulares, da sua imensa extravagância, da inovação, e, simultaneamente, da simplicidade que imprime aos seus vinhos. Biodinâmico de coração, respeitoso para com a terra, gosta de levar o conceito ao extremo, num regresso radical e quase fundamentalista ao passado, às raízes, ao berço do vinho na sua forma mais primitiva. Os seus vinhos têm tudo para ser um desastre… mas estão longe de o ser!
São vinhos complicados e duros, criados para os excêntricos, para os freaks do vinho, para quem gosta de viver no fio da navalha, para os alternativos. Não o escondo, sou um desses apaixonados, mas tenho plena consciência que, para uma larga maioria, os seus vinhos serão intragáveis e intratáveis. Tudo é estranho, tudo é inimitável, tudo é discrepante da normalidade vínica. Este ano tive a doce oportunidade de poder provar a família inteira dos vinhos Movia, entre muitos outros vinhos eslovenos, num
conhecimento alargado de colheitas actuais e passadas. Basta-me referir dois deles, o branco Movia Lunar 2006 e o espumante Movia Puro rosé Brut 2001, para poderem de imediato aferir sobre a peculiaridade e loucura do criador. Comecemos pelo Lunar 2006, um branco fermentado em enormes talhas de barro. A cor dourada profunda é explicada pela prática enológica inusitada e insólita de colocar as uvas na talha, tapar, esperar que o peso das uvas seja suficiente para esmagar os bagos, esperar dois a três anos, quase sem realizar qualquer operação… e no fim engarrafar o líquido que escorre pelo fundo! Mais natural e primitivo é difícil. Parece uma receita segura para o desastre… mas, inesperadamente, o vinho é notável!
Será este Lunar, edificado de acordo com as fases da lua, suficientemente esclarecedor sobre a filosofia da casa e o extremismo não intervencionista de Ales Kristancic? Não? Então talvez deva avançar para o espumante Puro rosé Bruto 2001, comercializado… sem dégorgement, ainda com as borras da segunda fermentação livres e flutuantes na garrafa… num Bruto natural, natural, natural! Mais natural é impossível! Abrir a garrafa implica uma operação complexa, a realizar, forçosamente, dentro de um recipiente coberto com água gelada. Implica também que a garrafa seja guardada com o gargalo virado para baixo, numa tentativa caseira de emular as condições de cave, concentrando as leveduras junto do “pescoço” da garrafa.
Demasiado radical? Demasiado excêntrico? Demasiados demasiado? Assumo que não são vinhos fáceis, mas, apesar da generosa dose de loucura, são vinhos rigorosos, seguros e repletos de carácter. Não o escondo, eu gosto…
Há dias assim, dias de absoluta perfeição, de deleite, de prazer infinito. Dias marcantes, dias que nunca terminam, dias que deixam cravada, no peito e na memória, uma marca perpétua e indelével. Dias de meditação, de ponderação, dias de recolhimento e agradecimen
to. Dias de profundo misticismo, dias de evocação do divino, dias de graças pela genialidade do homem, pela intemporalidade da obra humana. Dias de louvor ao céu e à terra!
Não escondo que já provei, melhor, que já bebi, muitos vinhos extraordinários ao longo da minha vida. Ser jornalista de vinhos profissional, crítico de vinhos a tempo inteiro, apaixonado pelo vinho, partidário e amante de vinhos estrambólicos e excêntricos, representa uma ventura imensa. Sim, já provei muitos vinhos interessantes, de muitas proveniências, de muitos estilos, incluindo os pouco convencionais. Vinhos de colheitas recentes e colheitas antigas, centenários ou ainda a terminarem a fermentação, vinhos intensos e vinhos já decadentes, suaves e ásperos, delicados e brutais.
Mas nada, absolutamente nada da minha experiência precedente podia preparar-me para o grande dia, o dia em que experimentei uma das maiores satisfações da minha vida de enófilo – o dia em que provei, e bebi, um Madeira Terrantez de 1715. Sim, a data não é um lapso, nem um deslize da caneta e reafirmo-a para que não quedem dúvidas, 1715! Face a tamanha responsabilidade, os restantes vinhos em prova, um Listrão do Porto Santo de 1957, um Carcavelos de 1912 e um Boal de 1896, mais pareciam vinhos frívolos e levianos, triviais, a servir de entretém para o prato principal.
Primeiro a garrafa, bojuda, desequilibrada, rude e imperfeita, vidro escurecido e grosseiro. A rolha quase desfeita, felizmente ainda preservada pelo lacre já estalado, desgastada pelo tempo, ofereceu pouco resistência ao saca-rolhas de lâminas. O vinho, esse, deixou-nos perdidos em expectativas, num grito contido de ansiedade. Afinal, foram quase trezentos anos de história, primeiro cheirados… e depois bebidos. Quando provamos vinhos destes, com tamanha carga histórica e emocional, somos compelidos a pequenos esforços mentais que nos possam situar no tempo e na história. Deste, confesso que só fui capaz de recordar que ainda faltavam cinquenta e quatro anos para que o imperador Napoleão viesse a nascer…
Incrivelmente, e porque não confessá-lo, inesperadamente, o vinho apresentou-se simplesmente… magnífico! Não escondo que acalentava poucas esperanças de encontrar qualquer sopro de vida neste Terrantez, pouco mais para além do prazer egoísta de ter uma recordação para agasalhar. Mas, ao meu cinismo crítico, o Terrantez respondeu com uma cor aloirada, aqui e ali tingida por evidentes reflexos esverdeados. As notas de torrefacção, potenciadas pela discreta e suave volátil, típica dos Madeira envelhecidos, adubadas pela ténue presença de amêndoas torradas, marcaram a primeira hora de vida. Fresco, vivo, hesitante entre o regozijo da doçura e a veemência da acidez mordaz, terminou sério, profundamente longo para tamanha idade.
Que homens fizeram este vinho? Quantas gerações foram privadas do prazer de abrir esta garrafa para que alguém, quase trezentos anos depois, pudesse aqui relatar esta história? Quantos vinhos, para além do Madeira, poderiam sobreviver a três séculos de cativeiro?
No vinho, como em todas as realidades da vida, os melhores, os mais desejados e valorizados, são quase invariavelmente escassos e inacessíveis, difíceis de encontrar, por vezes insuportáveis no esforço financeiro a que obrigam. Por regra são vinhos de produções limitadas, de custos de pr
odução relevantes, vinhos de mimos extremados e cuidados redobrados. Vinhos para ocasiões especiais, para celebrar os grandes acontecimentos da vida, vinhos de êxtase. Não são vinhos do quotidiano, e não estão acessíveis à maioria.
Esta escolha, a dos vinhos que encerram a melhor relação qualidade/preço, será, porventura, o inventário mais importante para os leitores. É aqui que podem encontrar os vinhos mais interessantes do mercado, aqueles que, de acordo com o meu critério, melhor satisfação e alegria são capazes de proporcionar. São sempre vinhos generosos na qualidade, em muitos casos disponíveis nas grandes superfícies, vendidos a preços aliciantes face ao prazer proporcionado. São o Santo Graal de todos os enófilos, a discussão mais relevante para todos os apaixonados.
Os vinhos são apresentados pela ordem alfabética das regiões e, dentro de cada região, pela ordem alfabética dos nomes comerciais.
VINHOS NACIONAIS:
· Solar dos Lobos Colheita Seleccionada 2006 (Alentejo) – O desafio de oferecer complexidade, serenidade e frescura abaixo dos 5€. A elegância floral, a nobreza da fruta, a aristocracia a preços justos.
· Quinta de Saes Reserva Estágio Prolongado 2006 (Dão) – Elegância, dimensão, carácter e profundidade, num vinho poderoso mas ajuizado. O triunfo da razão, a vitória da harmonia.
· Vallado 2007 (Douro) – A generosidade do Douro, a fruta farta, a alegria e o prazer das emoções fortes. O mestre absoluto da consistência, da proporção certa entre entusiasmo e contenção.
· Crasto 2007 (Douro) – Fruta, elegância e prestígio reunidas sobre um só tecto. A confirmação que os grandes volumes são compatíveis com a mais alta qualidade. Um vinho esplendoroso, uma pedrada no charco. Afinal, o Douro pode conciliar volume e qualidade!
· Castello d’Alba Reserva branco 2007 (Douro) – Um branco que merece destaque por si próprio, inacreditável e imbatível na relação qualidade/preço. O branco mais democrático de Portugal, a qualidade ao alcance de todos.
· Arenae Colares Malvasia 2006 (Estremadura) – O artesanato não tem de ser caro nem privilégio de uma minoria. Os vinhos singulares também podem ser extraordinários e acessíveis.
· Grand’Arte Alicante Bouschet 2006 (Estremadura) – O prazer da gratificação imediata, a certeza da conquista, a empatia imediata. O tinto consensual, de aprovação certeira.
· Catarina 2007 (Setúbal) – Frescura, complexidade, riqueza aromática, profundidade e frescura, eis os ingredientes do Catarina. Imbatível no prazer proporcionado.
· Muralhas de Monção 2007 (Vinho Verde) – O milagre da qualidade com a garantia de quantidade, vendido a um preço invencível. O refúgio seguro, a certeza da consistência, o prazer da frescura. Impressionante!
· Niepoort LBV 2004 (Porto) – Afinal o Vinho do Porto de excelsa qualidade também pode ser acessível ao comum dos mortais. A porta de acesso judiciosa ao mundo maravilhoso do Vinho do Porto!
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Janeiro é época de balanço, quadra em que, de forma mais ou menos consciente, passamos em revisão o trabalho de um ano. É a estação onde nos sentimos compelidos a seleccionar e eleger os melhores momentos do ano, os instantes qu
e mais nos marcaram, os que deixaram maiores e melhores memórias. Imbuído desse espírito cheguei à organização desta lista muito pessoal, a lista dos dez vinhos que mais me impressionaram ao longo deste ano de 2008. De entre as mais de 5000 referências provadas ao longo do ano, um ano intenso de provas, estes dez foram os vinhos que mais me emocionaram e comoveram.
Porquê apenas dez vinhos? Porque é um número redondo, de fácil apreensão, um modelo com que estamos familiarizados, a base da civilização ocidental. Afinal, não foi por acaso que a humanidade se baseou num sistema decimal. Poderiam ser muitos mais, porque o leque de escolha é vasto, mas o crivo da selecção permitiu apenas a inclusão destes dez vinhos. É uma escolha pessoal e íntima, o espelho fiel do estilo de vinhos que mais me emocionam e comovem. É aqui que assumo o meu gosto pessoal e que desapego o meu gosto individual da tentativa de crítica fria e analítica que qualifica as minhas apreciações.
Não é certamente acaso que este ano a lista dos dez melhores dispense apenas uma referência a vinhos fortificados e que os vinhos brancos desfrutem de uma representação desproporcional face à sua relevância quantitativa e qualitativa. São as condicionantes da natureza, impróprias para declarações de fortificados em 2006, pouco generosas para com os tintos de 2006, os vinhos que chegam agora às prateleiras. Por oposição, assomam agora aos escaparates os brancos de 2007, ano excepcional, quase divino para alguns brancos portugueses.
Os vinhos são apresentados pela ordem alfabética das regiões e, dentro de cada região, pela ordem alfabética dos nomes comerciais, sem qualquer tipo de ordenação qualitativa.
VINHOS NACIONAIS:
· Quinta do Mouro Rótulo Dourado 2005 (Alentejo) – A brutalidade e rusticidade afinal também podem redundar em elegância e harmonia. Virilidade, frescura e delicadeza são os três paradigmas deste tinto tremendo. Afinal o Alentejo pode ser fresco, monumental e duradouro!
· Vinha Othon 2006 (Dão) – A austeridade e sobriedade são reconhecidas como virtude. A sensação de intemporalidade pode ser terrivelmente sedutora. Uma aparente delicadeza pode encobrir uma têmpera invulgar. O charme indiscutível de um vinho discreto, conservador e elegante.
· Guru 2007 (Douro) – Potência e amplitude são qualificativos conciliáveis com os predicados elegância e harmonia. A precisão e o rigor matemáticos podem coabitar com a noção de infinito. O Douro pode ser fresco!
· Maritávora Reserva branco 2007 (Douro) – Mineralidade e frescura levadas ao extremo absoluto. A exaltação de uma vinha centenária, a teimosia de uma família, o arrebatamento da grande paisagem duriense. Pureza e cristalinidade. Um branco triunfal!
· Poeira 2006 (Douro) – O equilíbrio quase perfeito entre força e contenção. A virilidade temperada pela poesia. Melodia e cadência rítmica irrepreensíveis, fugas e contra fugas temperadas por pequenos desvios líricos. Engenho e inspiração!
· Robustus 2004 (Douro) – A defesa de uma convicção, a certeza do saber empírico, a vontade de encontrar alternativas, a paciência de saber esperar. A imagem mais desafogada e dramática do Douro. Majestoso e impetuoso.
· Quinta da Lagoalva de Cima Syrah 2005 (Ribatejo) – O primeiro poiso da casta Syrah, a maturidade de um projecto, a libertação definitiva de um espartilho regional. Amplitude, frescura e contenção. O bom filho a casa retorna!
· Covela Escolha branco 2007 (Vinho Verde) – Terra e homem em concordância plena. A enunciação clara de um terroir único, um grito de rebeldia e afirmação, a firmeza de princípios. Mistério, subtilezas, nuances, frescura, acutilância. Um branco incomparável.
· Soalheiro Primeiras Vinhas 2007 (Vinho Verde) – Frescura, intensidade, equilíbrio e harmonia. A expressão máxima da elegância, ritmo e harmonia. O charme discreto da alta-costura. A exaltação da quase perfeição. Apoteótico!
· Barbeito Malvasia 30 Anos Lote Especial (Madeira) – Exotismo e complexidade, monumentalidade e sumptuosidade. Equilíbrios impossíveis que redundam em êxtase pura. A magia de uma casta, a confirmação definitiva de uma casa. Arrebatador!
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