Sem aviso prévio, sem advertência preliminar, o convite tombou na minha caixa de correio. Ali pespegado, em letras bem vistosas, repousava um convite para uma visita de trabalho à Grécia, ao norte da Grécia. As amizades e conhecimentos antigos, a cumplicidade com um escanção e dois enólogos gregos de nomeada, os contactos longos com o “ICEP” grego, depois de dois convites anter
iores frustrados por incompatibilidades de datas, ajudavam a explicar o primeiro convite. Primeiro convite sim, porque, depois de decifrar as intenções, descobri que, afinal, tinha recebido, não um, mas sim dois convites. Um convite para membro do júri do concurso internacional de Salónica, três dias de prova seguidos de outros três dias de visita guiada às regiões de Goumenissa e Naoussa… e um segundo convite, ainda mais aliciante pela oportunidade rara, uma convocação directa de Nico Manessis para uma prova pioneira e revolucionária de vinhos gregos originais, vinhos insólitos e estranhos, produções raríssimas de castas perdidas, microvinificações experimentais. Mas este segundo convite, e respectiva aventura, fica guardada para segundas núpcias, para um outro texto a editar em data próxima.
Por ora interessa-me discutir a perspicácia grega e as boas práticas de um país que, tal como Portugal, assenta a sua identidade nas castas próprias. Sim, é verdade que lá, tal como cá, os inevitáveis Syrah, Merlot, Chardonnay e quejandos, também se popularizaram e aparecem reiteradamente nos rótulos. Também lá, tal como cá, grassou a moda e o desejo da “internacionalização”, a aposta na modernidade dos lotes entre castas nativas e castas internacionais. O movimento era inevitável, fruto da época e das circunstâncias. Mas, também lá, tal como cá, produtores e líderes de opinião perceberam a inevitabilidade de um regresso às origens, a necessidade de afirmação e diferenciação nacional, a urgência em oferecer alternativas únicas e genuínas. E, também lá, tal como cá, o caminho está facilitado por uma colecção incrível de castas autóctones, de terroir diferenciados, de apelos exóticos, de paisagens deslumbrantes. Também lá, tal como cá, apareceu uma nova geração de enólogos e produtores, uma geração desejosa de mostrar trabalho, mais preparada tecnicamente, mais cosmopolita, uma geração que viajou e alargou horizontes, que fala fluentemente inglês, que tem o mundo como horizonte. Sim, os paralelismos entre os dois países são fáceis, os pontos de convergência próximos. Até a dificuldade em afirmar as suas castas, inerente a dois países periféricos, as mesmas castas que os diferenciam do resto do mundo. Sim, porque oferecer castas diferentes, de nomes impronunciáveis, castas de carácter e gostos alternativos, castas que fogem aos padrões pré-formatados, é uma dificuldade e embaraço extra.
Porque, goste-se ou não, não é nada intuitivo, para quem tem o gosto moldado pelas referências internacionais, perceber e identificar os sabores e paladares das castas indígenas gregas… ou portuguesas. Porque não é nada fácil, para quem tem como referência natural as castas internacionais, perceber os padrões qualitativos das castas de nomes exóticos, perceber o que cada casta, e região, podem e devem oferecer, perceber o que esperar de cada denominação.
E é aqui que os gregos se diferenciam notoriamente do caminho traçado por Portugal. É neste particular que os gregos decidiram uma aproximação alternativa, um
a abordagem potencialmente dispendiosa, potencialmente ineficaz no curto prazo… mas inteligente e garante de resultados dramáticos a médio/longo prazo. Que práticas diferenciam a promoção grega da praxis portuguesa? A explicação e divulgação rigorosa das suas castas e regiões, mostrando, de forma prática e intensiva, com o recurso a vinhos de cada casta e região, o que esperar de cada uma delas. Mergulhar o forasteiro no mundo das castas gregas, discutir as melhores, com exemplos práticos, bem reveladores das múltiplas facetas que podem adquirir, exemplificar e doutrinar. Preparar o palato para as diferentes identidades gregas, educar sobre nomes, proveniências, aromas, sabores, particularidades.
Foi o que me aconteceu. Cheguei, tal como solicitado pela organização, um dia antes do primeiro evento, para uma longa jornada educativa sobre as principais castas gregas. Durante um dia, aprendi a identificar as castas fundamentais, a compreender os manigâncias de cada uma, a perceber a diversidade regional, a inteirar-me da história de cada casta e denominação. Durante um dia, numa viagem louca comandada pelo professor Stefanos Koundouras, provei dezenas e dezenas de vinhos, numa viagem lúdica pelo património ampelográfico grego, numa jornada esclarecedora sobre o potencial de cada região. Assentei sobretudo arraiais nas castas Assyrtiko, Athiri, Vilana, Moschofilero, Roditis, Lagorthi, Savatiano, Malagousia, Mandiliaria, Aghiorghitiko, Xinomavro, Mavrodaphni e Moscatel. Diferentes tipos de fermentação, estágios com e sem madeira, diferentes solos, diversas regiões, tudo foi mostrado, discutido, explicado até à exaustão. Nomes que antes me eram apenas vagamente familiares, explorados em experiências avulso, sem sistematização e sem método, passaram, num ápice, a velhos conhecidos.
Em pouco mais de um dia, ganhei experiência de causa que me permite compreender o que esperar de cada variedade, o que esperar de cada região, definir balizas e pontos de referência. As pontes foram lançadas, as portas da compreensão escancaradas. Depois, depende apenas do interesse despertado, depende apenas da vontade pessoal, prosseguir esse caminho do conhecimento. Afinal, que melhor forma de introduzir e promover uma país vinícola? Uma abordagem alternativa que Portugal faria bem em adoptar e adaptar à realidade nacional.










Caro Rui:
Realmente essa é uma excelente forma de apresentar o produto aos críticos de outros países. Acima de tudo, não cai no marasmo da falta de originalidade que graça no nosso país. Isto já para não falar em incongruências difíceis de engolir que vemos cada vez que uma comitiva se faz deslocar a um país estrangeiro a fim de promover o nosso precioso líquido. Mas ao contrário de outras questões, acho que a culpa é principalmente dos produtores que continuam relutantes em unir-se e constantemente à espera que o pai estado faça tudo por eles! Deixa-nos sem moral para afirmar que o trabalho é mal feito!
Fico então, ansiosamente, á espera da descrição desses vinhos “originais, vinhos insólitos e estranhos”.
Abraço
Hugo Mendes
Como enófilo, começo a despertar para outros mundos. Provavelmente este acordar tardio se deveu ao facto de viver num país produtor. Para bem ou para o mal, a nossa realidade não deve ser muito diferente da espanhola, francesa, italiana…
“Viajando para outro locais”, um pouco mais a norte da Grécia, tenho reparado que as coisas tem andado animadas para os lados a Hungria, com produtores (não consigo pronunciar os seus nomes)que tem investido em vinhos feitos a partir de castas “nacionais” e que têm aguçado o meu apetite por eles.
Rui qual a tua opinião sobre a Hungria, Bulgaria e Roménia (não há muito tempo bebi um Merlot de 2004 saído da Transilvânia)?
Um abração
Rui,
É certo que os países produtores, pela própria natureza das coisas, soem ser mais fechados e conservadores, alheios às propostas exteriores. É uma realidade mais ou menos incontornável que atinge muito especialmente os países de educação mediterrânica… pois o fenómeno é relativamente diluído nos mercados germânicos.
Mal conheço os vinhos romenos. Tenho tido experiências avulsas, sem qualquer sistematização. Não devo ter provado mais de vinte vinhos romenos. Como tal, não estou habilitado a avançar com comentários. Os vinhos húngaros, esses conheço bem melhor, mas tenho-me centrado sobretudo nos Tokaji, raramente caminhando muito para além dessa denominação. Tive algumas experiências razoáveis (na dimensão) na Hungria, algumas visitas a produtores, mas sempre demasiado dispersas e inconsequentes. Os únicos vinhos húngaros que posso afirmar conhecer razoavelmente, são os vinhos do Weninger, em Balf, vinhos com os quais consigo estabelecer uma empatia sincera. Não sei se só pelos vinhos em si, se também pelo Franz Weninger (filho), por quem tenho muita consideração, se pela predominância nas vinhas da casta Kekfrankos (Blaufrankisch), uma das minhas castas preferidas.
Finalmente a Bulgária, país que visitei profundamente este ano, e onde sofri uma forte imersão na “movida” vinícola búlgara. Fui convidado a visitar o país, na companhia do Steven Spurrier, e tive oportunidade de provar muitas centenas de vinhos. Eu ia dizer de todas as formas e feitios, mas isso não corresponde à verdade porque, na realidade, a quase totalidade era elaborada com Cabernet Sauvignon, aqui e ali temperados pelo Merlot, e, muito raramente, pela Syrah e/ou Cabernet Franc. E claro, nos brancos dominava por inteiro o Chardonnay. Provei as coisas mais incríveis de que tenho memória. A média geral dos brancos foi francamente desanimadora, a dos tintos… bem, digamos que… mediana! Mas, escondidos no meio de tanta vulgaridade, descobri quatro tintos muito curiosos, carregados de personalidade, daqueles que acabam por justificar a viagem. Ainda há muito, muito, por fazer, mas percebe-se uma vontade colectiva de mudar, arriscar, uma intenção genuína em aprender.
Mas estão ainda muito longe da maturidade grega, país a que vou voltar dentro de duas semanas para mais uma intensa viagem “educativa”…
Abraço,