Crise é uma palavra que não sai do léxico do dia-a-dia, uma palavra que teima em não abandonar as conversas. Por ora ainda não encontrámos forma de a conseguir contornar, de fintar os receios, compromissos e reveses que anuncia, de esconder o medo que a palavra inspira. A vida económica não atravessa o melhor momento e o mundo do vinho reflecte esta triste realidade patente na quebra deRui Falcão vendas, na obrigação da diminuição de preços, na dificuldade em escoar stocks que alguns dos produtores acumulam de forma descontrolada.

Muitos produtores continuam sem saber onde encontrar espaço por entre as cubas ainda cheias de vinhos das vindimas anteriores, oferecendo sinais claros de uma realidade adversa que muitos teimam em desvalorizar. A vida não está fácil e para combater ou adiar o fado alinham-se diferentes estratégias, das mais originais às mais previsíveis, das mais ingénuas às mais sofisticadas, das mais dispendiosas às mais frugais. Independentemente da estratégia adoptada o percurso não será fácil e alguns ficarão pelo caminho.

Porém, e se quisermos ser intelectualmente honestos, a crise pouco veio acrescentar a um sector que já apresentava sintomas de alienação da realidade ainda antes do descalabro financeiro que assolou a Europa. Em pouco mais de uma década passámos “do oito para o oitenta”. Fomos inundados por marcas novas, por novos rostos, novos produtores e novas regiões, com dezenas de nomes de castas anteriormente desconhecidas. Quisemos prosperar e assimilar numa só década o que outros países fomentaram e planearam durante meio século.

De uma só assentada as prateleiras de grandes superfícies, supermercados e garrafeiras encheram-se com centenas de novas referências ao mesmo tempo que as cartas dos restaurantes engordavam com as centenas de rótulos originais que chegavam de todos os cantos do país. Deixámos de pedir um Bairrada ou um Dão genérico para passar a pedir um vinho pelo nome do produtor ou do rótulo, querendo saber mais sobre a data de colheita, sobre o nome do enólogo, sobre as castas presentes e sobre as possíveis harmonizações com a refeição.

Um excesso de informação vivido num intervalo de tempo muito curto de assimilação quase impossível. Fomos inundados por centenas de novos produtores, dezenas de novidades mensais, prateleiras repletas por milhares de rótulos, numa fuga para a frente caótica onde o factor novidade se converteu numa necessidade incondicional, no santo graal que fazia mover enófilos, produtores, distribuição, restauração e garrafeiras.

Durante um pequeno período de tempo chegava-se ao restaurante ou garrafeira e só se perguntava pelas novidades, pelos vinhos e projectos novos esquecendo as marcas clássicas e os produtores de referência, sujeitando os rótulos clássicos a uma sorte ingrata. O que poderá ajudar a explicar a necessidade sentida por tantos produtores de diversificar a sua oferta ao máximo decompondo a produção em dezenas de rótulos e referências, embaraçando os consumidores com a exibição de milhares e milhares de rótulos nas prateleiras.

Rui FalcãoPara além das dificuldades acrescidas pela presença de incontáveis rótulos nas prateleiras a inspiração para escolher nomes de vinhos raramente transbordou. Por isso num panorama já saturado a maioria dos vinhos portugueses continuou a ser rotulado como “Quinta”, “Herdade” ou “Monte” de qualquer coisa, dificultando ainda mais a memorização de marcas. Pior, num ápice observámos que ano após ano muitos produtores descontinuavam alguns rótulos para logo erguerem novas marcas, muitas vezes com um perfil quase idêntico ao anterior. Outros preferiram subdividir os vinhos em dezenas de referências distintas… com casos pontuais de alguns produtores a achegar ao extremo absoluto de oferecer 25 rótulos distintos numa desarrumação impossível de acompanhar mesmo pelos profissionais.

Para complicar a vida ao consumidor surgiram dezenas de segmentações qualitativas, tornando impossível a arrumação qualitativa dentro do mesmo produtor. Chega-se ao cúmulo de consagrar sob o mesmo rótulo genérico vinhos distintos divididos sob os qualificativos Reserva, Grande Reserva, Reserva Especial, Premium, Top Premium e Grande Escolha. Entre tantos predicados de qualidade mais ou menos equiparáveis e de hierarquização difícil de apurar quais as melhores referências do produtor? E como será possível memorizar tantas referências qualitativas… quando as prateleiras já transbordam com rótulos de tantos outros produtores?

Será possível continuar neste caminho da multiplicação de rótulos por produtor durante muito mais tempo?

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4 Responses to “Rótulos confusos”

  1. avatar André says:

    Boa tarde,
    Excelente artigo, aliás como sempre.
    Por acaso dei por mim a pensar isto mesmo à uns tempos atrás.
    Geralmente compro vinho nas grandes superfícies comerciais, claro que sempre que posso visitar uma quinta, prefiro comprar lá, conhecer o produtor as caves etc…
    Mas confesso que simplesmente ignoro mais de 95% das marcas que existem, como afirmou e bem, é impossível ter em conta todas as marcas existentes e ainda as novas que saem quase mensalmente.
    Simplesmente fixo algumas marcas de cada tipo de vinho e escolho sempre nessa base ignorando o resto. Por vezes compro algo diferente, normalmente influenciado por alguma revista de vinho da especialidade, mas normalmente tenho o meu porto seguro e por ai me fico.

    Continue com o excelente trabalho.

  2. avatar Jorge Garanito says:

    Subscrevo pois é uma realidade!! E não é um nem dois produtores…
    Veja-se a Adega Cooperativa de Borba…mas alguém percebe aquela confusão de rótulos? Põe cortiça tira cortiça…eu sei lá! Mas melhor é mesmo a GlobalWines com o seu Cabriz, ele é Escolha ele é Reserva ele é Colheita Selecionada, e ele é simplesmente Cabriz, e pelo mesmo caminho vai o Monte da Cal…outra marca do grupo de entre tantas….enfim, acho que deveriam ser criadas regras para que um vinho apresentasse designações de Reserva ou Grande Reserva etc., mas tipificadas como e aí os consumidores saíriam esclarecidos!!!

  3. avatar EDUARDO RIJO says:

    Bom dia muitos parabens pela lucidez do artigo, mas penso que

    sobre este assunto o proprio mercado ira esclarecer toda esta

    confusão completamente desregulada , nos proximos 4 /5 anos que

    virão , a situação está descontrolada pois urge medidas rapidas

    que os legisladores da area terão controlar sob pena de haver

    graves danos para produtores/distribuidores etc. bem haja

  4. Rui Falcao,
    seus artigos sao sempre excelentes e nos colocam a pensar.
    Acho que normalização nao funcionaria aqui. Os produtores tem de ter o bom senso necessário para rotular seus vinhos de acordo com o que oferecem de verdade. Um vinho reserva tem que ser diferente de um não-reserva e o rótulo também.
    Acho que Portugal, com seus excelentes vinhos, deveria mirar para novos mercados. Veja a China, o maior consumidor de vinho tinto do mundo.
    Recentemente me mudei para a América Central e aqui a oferta de vinhos portugueses é ínfima. Nao se conhece vinho português a nao ser vinho do Porto. Já os vinhos espanhóis estão aqui em quantidades enormes, assim como os da América Latina.
    Sucesso sempre!

    Alessandra Esteves
    http://www.damadovinho.com.br
    Alessandra Esteves recently posted..Serra Gaúcha: dicas de viagem à Gramado e bons vinhos!My Profile

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