De quantas vidas dispõe a Fundação Abreu Callado? Quantas vezes poderá a Fundação ressuscitar da morte lenta, ressurgir da decadência, renascer do esquecimento colectivo? As perguntas poderão parecer esotéricas, misteriosas, mesmo enigmáticas. Muitos nem se recordarão da Fundação Abreu Callado. Afinal, quem é, o que faz, e para que serve a Fundação Abreu Callado? De forma telegráfica, é uma fundação benemérita de solidariedade social, com sede em Benavila/Avis, Alto Alentejo, fundada em 1948 por Cosme de Campos Callado, herdeiro único de uma casa agrícola abastada, que, por sua morte, deixou em testamento todos os seus bens à fundação.
Nos anos cinquenta a fundação plantou as primeiras vinhas em Benavila com objectivos bem estabelecidos, como projecto estruturante da actividade, como fórmula de financiamento das actividades sociais a que a fundação está estatutariamente obrigada. Foi assim que nasceram os vinhos Abreu Callado, referência incontornável da grande planície, pioneiros do renascimento vinícola do Alentejo. O sucesso foi retumbante, imediato, e logo os vinhos foram aclamados como um dos pilares do, então ainda imberbe, património vinícola alentejano. Durante décadas, os vinhos da fundação deram cartas pela região. Os vinhos esgotavam em poucas semanas e a área de vinha e a adega cresceram exponencialmente. Infelizmente, com o final da década de oitenta chegou o período de decadência. Falta de investimento, decisões erradas na vinha e na adega, ausência de liderança, abandono das vinhas em proveito das campanhas cerealíferas e o nascimento de dezenas de outro projectos no Alentejo revelaram-se trágicos para os vinhos da fundação. Em pouco tempo, em poucos anos, os vinhos caíram no esquecimento. A década de noventa foi desastrosa, com maus vinhos que arruinaram a imagem da fundação.
No início do milénio temi pela sobrevivência da casa. Os vinhos desapareceram do circuito comercial. Foi então que uma nova direcção tomou posse, fazendo da vinha e do vinho investimentos prioritários. Contrataram um novo enólogo, Frederico Falcão, e investiram na vinha. Por falta de capital a adega teve de esperar um pouco mais e, ainda hoje, precisa de sérias benfeitorias. Mas as sementes estavam lançadas, o trabalho planeado, e, com uma equipa técnica competente os novos vinhos só poderiam melhorar. E que mudança! Assim do nada, do esquecimento total, nasceram três vinhos jovens e irrequietos, vinhos que conseguiram conciliar tradição e modernidade, classicismo e actualidade.
De uma linha de cinco vinhos apresentados, dois ainda precisam de afinamentos diversos. São eles os dois Abreu Callado, branco e tinto, os vinhos base da fundação. Mas foram os três vinhos superiores que despertaram a minha curiosidade, todos tintos, todos da difícil colheita de 2006. Por ordem crescente de qualidade e substrato, são eles o “Cadeira da Moira 2006” (100% Aragonês, 3.500 garrafas a 7€), “Horta da Palha 2006 (100% Touriga Nacional, 5.850 garrafas a 8€) e “Dom Cosme Reserva 2006” (Touriga Nacional e Alicante Bouschet, 7.733 garrafas a 24€). Vinhos profundamente alentejanos no carácter, vinhos com personalidade e um selo de autenticidade genuína. Não são vinhos descaracterizados ou modernaços, sem ligação à terra. São vinhos generosos na entrega, cautelosos no preço, justos na oferta. Três vinhos originais que não o vão decepcionar.
Mas no vinho, tal com na vida, as referências são importantes. A história ensina-nos sobre o passado, e o passado afecta o presente. Nada como poder provar os vinhos de outrora para poder julgar os actuais com convicção. Dito e feito! Na apresentação dos novos vinhos da fundação tive oportunidade de poder revisitar o passado. Depois de provados o Abreu Callado branco 1983, e os Abreu Callado 2001, 1991,1987, 1986, Abreu Callado Reserva Especial 1985 e Abreu Callado Reserva 1980, o sentimento final destilava um sorriso alegria. Em comum os seis vinhos tintos mostraram uma frescura avassaladora, uma intensidade cromática impressionante e uma personalidade surpreendente. Vinhos de carácter, com um estilo diferenciado e autêntico.
Não os quer conhecer?










Descobri hoje este site e não posso deixar de dar os parabéns!
Vou ser visitante habitual.
Não sabia que fundada em 1948, já é das antigas e não derrubável