Rui Falcão on March 27th, 2014

Gosto de restaurantes que proporcionam cartas de vinho robustas e exaustivas, cartas dilatadas que permitam escolhas originais, cartas que permitam liberdade para escolher vinhos de todas as proveniências e colheitas, de todos os estilos e feitios, dos mais simples aos mais rebuscados, dos mais consensuais aos mais excêntricos, dos mais extrovertidos aos mais reservados.Rui Falcao - vinho na restauracao

Admiro e valorizo restaurantes cujas cartas de vinho demonstrem diversidade e originalidade na oferta, que permitam uma selecção alargada e cosmopolita. Gosto de cartas de vinho que sejam o resultado de uma escolha atenta e onde se possam encontrar raridades, onde se sinta a excitação da caçada a vinhos pouco comuns ou a colheitas antigas de vinhos inesperados. Fico feliz quando descubro cartas de vinho coerentes e personalizadas pelo sommelier, selecções adequadas que proporcionem harmonizações perfeitas com a cozinha do restaurante, cartas de vinhos que demonstrem respeito pelo vinho permitindo um par de escolhas racionais a par com escolhas de matriz mais passional.

Naturalmente também tenho consciência que o meu entusiasmo e a minha paixão pelo vinho não é, nem pode ser, partilhado por uma imensa maioria. Sei também que os restaurantes com capacidade para oferecer uma garrafeira aprimorada são escassos face aos investimentos necessários e ao retorno financeiro nem sempre mensurável. É a vida! Porém, e este é um erro comum, as cartas de vinhos não têm forçosamente de ser enciclopédicas para conseguirem ser eficazes e criativas.

A um restaurante exige-se simplesmente que a sua carta de vinhos seja legível e suficientemente diversificada na oferta e apropriada à cozinha proposta. Exige-se a indicação de datas de colheita, exige-se que a marcação de preços seja sensata, que a arrumação seja sensata (por regiões, estilos ou outro critério) e que a leitura seja clara. Condições simples e de fácil entendimento mas, infelizmente, ainda tão mal compreendidas pela restauração. Mas é igualmente essencial que a carta de vinhos ofereça um conjunto alargado de vinhos acessíveis democratizando o acesso ao vinho.

Ora é precisamente nesse rol de vinhos acessíveis que a maioria das cartas de vinho peca… por omissão. Quase sempre por falta de imaginação misturado com ignorância, algum laxismo e falta de vontade. Muitos restaurantes chegam mesmo a abdicar desta responsabilidade entregando a responsabilidade da elaboração da carta a terceiros ou, ainda pior, delegando a responsabilidade em distribuidores. Uma fatalidade que implica que a maioria das cartas de vinho sejam pouco imaginativas, repetitivas e sensaboronas.

Acabamos por descobrir os mesmos vinhos espalhados por centenas de restaurantes distribuídos por todo o país, acabamos por encontrar as mesmas propostas no litoral e interior, em restaurantes populares, regionais ou eruditos. Por vezes valorizamos demasiado as cartas de vinhos pela dimensão, pela oferta de vinhos troféu, pela presença de uma ou outra colheita antiga mas esquecemo-nos com frequência que estes vinhos raramente são pedidos. São os vinhos mais acessíveis, a sequência de vinhos mais baratos que melhor definem o apreço pelo vinho por parte do restaurante, que melhor Rui Falcao - vinho na restauracaoevidenciam o respeito para com o cliente.

A crise financeira encarregou-se de agravar o distanciamento entre as sugestões das cartas de vinho e a apetência e disponibilidade dos clientes. Raros são aqueles que se decidem pelos vinhos mais caros, frequentemente cobrados a preços indecorosos. Poucos são aqueles que se deixam seduzir pelos vinhos da gama média/alta, por regra tabelados a preços imorais. E no entanto é possível, e até relativamente simples, apresentar cartas de vinhos económicos com referências originais a vinhos menos badalados, com frequência de regiões alternativas.

Ao contrário daquilo que é aceite de forma mais ou menos universal os bons vinhos, por vezes mesmo os vinhos fascinantes, não são incompatíveis com preços sensatos. Para apresentar uma carta de vinhos inteligente basta imaginação e empenho, fazer os trabalhos de casa, escolher com critério, procurar por entre a multidão de vinhos acessíveis e encantadores que enriquecem o mercado.

Se mesmo a restauração erudita sentiu urgência na adaptação aos tempos económicos modernos oferecendo menus alternativos, arejados, claros, irreverentes e acessíveis… também as cartas de vinho necessitam de terapia idêntica. Reclamam a procura de excelência assente em preços comedidos, a oferta de emoções amparadas na qualidade e irreverência. Uma lista que prometa originalidade, inovação e racionalidade.

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Rui Falcão on March 24th, 2014

A tradução ou adaptação do termo Premier Cru, ou First Growth, para a terminologia portuguesa não é fácil nem axiomática, assentando na ideia de um vinho clássico e de historial largo, cujo valor e qualidade se vaticinem absolutamente inquestionáveis, de reconhecimento garantido e universal, sem máculas, de consistência irrepreensível, com um percurso histórico facilmente fundamentado e Rui Falcao - Bussacoamplamente documentado.

Por outras palavras, um conceito de difícil aplicação à realidade portuguesa, onde não transbordam os exemplos de vinhos com um passado histórico longo e habilitado, que ultrapasse decentemente metade de um século, com uma consistência qualitativa impecável e sem brechas, e onde subsistam um número de garrafas suficiente que autorize provas regulares que permitam aquilatar sobre os predicados do vinho em causa. Condições exigentes que impedem a atribuição do almejado título de Premier Cru à quase plenitude dos vinhos nacionais.

Porém, um vinho português assoma por entre a plebe, reclamando para si, com toda a propriedade, tão cobiçado brasão de nobreza. Que vinho é esse que poderá aspirar a tamanho estatuto de fidalguia? Um vinho discreto mas erudito, um clássico entre os clássicos, um vinho invulgar e desconforme com tudo o que possa representar a rotina e os padrões estabelecidos, o Vinho do Bussaco, o verdadeiro, e eventualmente único, Premier Cru português. Um vinho, infelizmente, pouco conhecido entre os lusitanos, sistematicamente esquecido e ignorado, sem o relevo institucional que o longo historial, e, sobretudo, a incrível qualidade, lhe deveriam proporcionar.

E no entanto, apesar de tão longos pergaminhos e de tão excelsa qualidade, o celeste Vinho do Bussaco não passa de um mero vinho de mesa, o degrau mais humilde da hierarquia vínica portuguesa, fruto da sua posição fronteiriça entre duas das grandes denominações portuguesas, a Bairrada e o Dão, desfrutando da sua localização física para agregar uvas das duas denominações, procurando justapor o melhor de cada uma das regiões vizinhas. Que o Premier Cru português seja um “vulgar” vinho de mesa é um dos maiores paradoxos e imprevistos em que o mundo do vinho pátrio é fértil…

Para o enorme desconhecimento sobre os vinhos do Bussaco, mas também para a sua inegável magia, concorre a circunstância de os vinhos serem exclusivamente vendidos nos hotéis do grupo Alexandre Almeida, integrados na carta dos restaurantes, com destaque mais que evidente para o belíssimo Palace Hotel do Bussaco, a sua casa, um dos hotéis históricos mais emblemáticos e encantadores da Europa, gizado em estilo neomanuelino como pavilhão de caça para o oceanógrafo rei D. Carlos, vítima do regicídio que viria a marcar o desfecho da monarquia em Portugal.

Os vinhos do Bussaco foram criados por Alexandre de Almeida no início do século passado. Com notável pioneirismo realizou inúmeras viagens de estudo aos hotéis mais emblemáticos da Europa e Estados Unidos, e, fruto da experiência de hotelaria entretanto conquistada, introduziu em Portugal alguns dos conceitos e práticas hoteleiras mais avançadas da época. Entre as suas múltiplas reformas insistiu que o Palace Hotel do Bussaco, enquanto grande hotel de luxo, deveria poder oferecer os seus próprios vinhos, a exemplo do que sucedia em casos idênticos pela Riviera Italiana e pela Côte d’Azur, ter a sua própria adega, constituída por vinhos locais com marca exclusiva da casa como factor de qualificação e distinção.

Numa quadra em que os vinhos de mesa engarrafados continuavam a ser a excepção, mantendo-se o vinho a granel como referência, Alexandre de Almeida projectou e materializou os vinhos do Bussaco, patrocinando o consórcio entre as vinhas da família, plantadas no sopé da Serra do Bussaco, e as uvas compradas a terceiros, escolhidas na Bairrada e Dão, transformando a cave do Palace Hotel do Bussaco na lendária adega da casa onde, continuam a repousar em sereno descanso os grandes vinhos do Bussaco.

Presentemente, apesar de persistir um eremítico exemplar de 1917, as garrafas mais antigas à disposição datam de 1923, embora não estejam acessíveis ao público. Saiba porém que na carta poderá desfrutar ainda hoje de colheitas tão antigas como 1944 nos vinhos brancos e 1945, o ano do final da segunda guerra mundial, nos vinhos tintos, bem como de muitos outros vinhos, brancos e tintos, das décadas de 50,Rui Falcao - Bussaco 60, 70, 80 e 90, até às colheitas mais recentes de 2009, nos brancos, e 2008 nos vinhos tintos.

Será fácil e quase inevitável desconfiar sobre o estado de saúde dos vinhos mais antigos, sobre a qualidade e viabilidade das colheitas mais clássicas, desconfiar sobre o potencial e patamar de envelhecimento de vinhos tão pouco conhecidos e divulgados… mormente dos vinhos brancos, aqueles que, por tradição, levantam maiores incertezas sobre a guarda. Curiosamente, e depois de uma prova vertical nas caves do Palace Hotel do Bussaco, foram precisamente os vinhos brancos que mais me emocionaram e sobressaltaram. Sem qualquer desprimor para os tintos do Bussaco, simplesmente maravilhosos, verdadeiramente assombrosos em colheitas como 1960 ou 1958, os vinhos brancos foram aqueles que me abalaram de forma irreparável.

Raramente se tem ocasião de poder provar, em qualquer parte do mundo, vinhos tão jovens e vibrantes, tão austeros e dignos, tão precisos e rigorosos como os brancos do Bussaco. Entre dois belíssimos vinhos jovens das colheitas de 2001 e 2000, diferentes no estilo mas profundamente fenólicos, minerais e densos, gigantes na estrutura, e as colheitas muito mais anciãs, de 1956 e 1955, os vinhos impressionantes pela frescura e dimensão. O final explosivo e incisivo impressiona em vinhos que se mostram ainda jovens, duros e secos, numa constância, regularidade e continuidade no estilo que raramente os vinhos portugueses conseguem alcançar.

Um ícone dos vinhos portugueses que poderia, e deveria, ser mais utilizado na promoção dos vinhos portugueses.

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Rui Falcão on March 17th, 2014

A certeza há muito que está instalada. Não deverão existir hoje dúvidas existenciais sobre a validade e superioridade da variedade Alvarinho, muito provavelmente a melhor das castas brancas nacionais e, certamente, uma das melhores castas brancas internacionais. O nome Alvarinho ganhou tamanha notoriedade junto dos consumidores nacionais que mesmo num passado recente, numa época onde pouco ou nada se sabia sobre as castas portuguesas, quando poucos ou nenhuns sabiam identificar as castas de cada região, o Alvarinho já era chamado pelo nome. Quando nomes de castas hoje famosas como a Rui Falcao - AlvarinhoTouriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz/Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet, Antão Vaz ou Arinto ainda eram alegres desconhecidas já a maioria tinha ouvido falar do Alvarinho e pedia-o pelo nome.

Num país que sempre privilegiou e continua a privilegiar os vinhos de lote, a mistura de muitas castas na mesma garrafa, o Alvarinho cedo se habitou a reinar sozinho. Num país que se acostumou a nem conhecer as suas castas e se habituou a pedir os vinhos pelo nome da região, o Alvarinho cedo se afirmou como uma excepção. Num país que se esforça por comunicar as suas excentricidades, esta ideia peregrina de fazer vinhos de lote em lugar de vinhos estremes, vinhos de várias castas em lugar de uma só casta como é habitual na maioria dos países produtores, o Alvarinho cedo se destacou pela diferença e originalidade de ser um vinho de uma só casta.

Num país que há muito se habituou a menorizar os vinhos brancos amordaçando-os sob a condição de vinhos de segunda, num país que continua a recusar pagar mais de três a cinco euros por vinhos brancos ao mesmo tempo que não se importa de pagar o dobro por um vinho tinto, o Alvarinho desde cedo se apresentou como a excepção, a cedência à evidência de qualidade e exclusividade. De forma mais ou menos segura e consistente o nome Alvarinho foi sendo paulatinamente consagrado como a referência de facto nos vinhos brancos nacionais logrando uma respeitabilidade e honorabilidade sem paralelo com as demais castas brancas portuguesas.

Tamanha projecção mediática e financeira só poderia ter como consequência natural a propagação da casta por todo o território nacional, alargando o seu raio de acção do seu Minho natural para a pluralidade do espaço territorial luso. Apesar de relativamente recente no tempo o movimento aparece como imparável e tem recrudescido em intensidade ao longo dos últimos anos, período durante o qual a área plantada tem aumentado de forma sistemática. São poucas as regiões de Portugal onde não se encontra pelo menos uma parcela experimental plantada com a casta Alvarinho e são cada vez menos os produtores e viticultores que conseguem manter-se alheados à atracção fatal do Alvarinho.

Poderíamos seguramente ponderar sobre os locais onde algumas das vinhas foram plantadas, questionar sobre se a escolha do local para a casta será a mais correcta, reflectir sobre uma eventual cedência a modas e a experimentalismos inconsequentes. Mas a realidade material é que a casta actualmente está plantada por todo o território nacional, mas também na Galiza e em outras partes do mundo, e está presente de forma ostensiva e clara em cada vez mais rótulos e contra-rótulos. Sobre isto não há nada a fazer ou sequer a lamentar.

Como não poderia deixar de ser, alguns dos Alvarinhos das novas regiões são bons, outros medianos, outros francamente desinteressantes. Como não podia deixar de ser alguns dos Alvarinhos recentes são vendidos a preços consentâneos com o prestígio da casta, enquanto outros são propostos a preços escandalosamente baratos com o risco latente de vir a deflacionar o valor da casta. Um eventual problema porque o nome Alvarinho tem tendência para sair menorizado e potencialmente desvalorizado, mas também porque os pequenos produtores da região original, os produtores da sub-região de Monção e Melgaço, incapazes de competir pelo preço, ficam com um problema entre mãos de difícil resolução.

Chegados a este ponto, e salvo prova futura que contrarie a tese, não é difícil afirmar que os melhores vinhos Alvarinho nasceram e continuam a nascer na sub-região de Monção e Melgaço. Parece-me Rui Falcão - Alvarinhofrancamente claro que a região reúne uma série de condições naturais que consagram qualidades excepcionais à casta proporcionando vinhos extraordinários que não conseguem ser replicados em nenhuma outra parte do território. O que é ao mesmo tempo uma benesse e uma espécie de maldição. Se o prestígio do nome Alvarinho foi construído à custa da qualidade ímpar dos vinhos Alvarinho de Monção e Melgaço, a verdade é que esses mesmos produtores podem sair agora directamente prejudicados pelos riscos da banalização do nome Alvarinho.

Que fazer então? Pretender proibir a utilização do nome da casta fora da região ou fora de Portugal é uma aspiração impossível e de realização impraticável por força das leis nacionais e internacionais. Restringir o uso de uma casta a uma região é algo que está fora do alcance de qualquer país ou região. Na verdade a dificuldade actual assenta precisamente no apego à utilização do nome da casta em detrimento da utilização e promoção do nome da região ou da sub-região. Se os produtores locais tivessem começado por insistir no nome da sub-região, Monção e Melgaço, em lugar do nome da casta os problemas actuais não existiriam.

Se é possível, e desejável, proteger o nome de uma região, tal como o fizeram o Vinho do Porto, Vinho Verde, Alentejo e demais regiões, não é legalmente possível proteger o nome de uma casta e restringir o seu uso, como tantas regiões internacionais o sabem por experiência própria. Mais que trabalhar na quimera de monopólio da casta a sub-região de Monção e Melgaço deveria esforçar-se no reforço do nome da sub-região mostrando aquilo que a diferencia, mostrando a Portugal e ao mundo que é capaz de produzir alguns dos melhores vinhos brancos do mundo. Porque a realidade é esta, tal como a região da Borgonha é maior que a casta Chardonnay também a região de Monção e Melgaço é maior que a casta Alvarinho.

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Rui Falcão on March 11th, 2014

Sejamos directos nas considerações. Por que razão alguém em Inglaterra, Alemanha ou Brasil se daria ao trabalho de comprar um Syrah do Douro, um Merlot da Bairrada, um Chardonnay do Tejo ou um Cabernet Sauvignon do Algarve? Por que razão um canadiano, suíço ou norueguês escolheria um vinho português de uma casta internacional quando os vinhos portugueses brilham precisamente pela Rui Falcãooriginalidade e carácter das variedades portuguesas… e os consumidores desses países têm acesso a vinhos de todo o mundo, a maioria dos quais é elaborada com alguma destas variedades internacionais?

Quando uma garrafeira ou supermercado belga exibe prateleiras repletas de vinhos de todos os países do mundo, a quase totalidade dos quais elaborados com uma das cinco grandes castas internacionais, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Syrah, Merlot ou Cabernet Sauvignon, o que poderá conduzir alguém à prateleira onde estão expostos os vinhos portugueses? Quando um consumidor irlandês entra num supermercado e vê centenas de vinhos de países do novo mundo, filas a perder de vista recheadas de vinhos da Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile, Argentina ou Califórnia produzidos com uma destas cinco castas internacionais o que o levará a escolher um vinho português?

Quando um dinamarquês olha para a brochura de um supermercado e descobre dezenas de rótulos de vinhos de países clássicos e emergentes, vinhos de países como a Roménia, Bulgária, Croácia, Brasil ou China, onde mais uma vez constam as mesmas cinco ou seis castas internacionais, o que o poderá levar a experimentar um vinho português… para além do eventual factor preço que nunca foi uma boa forma de promoção de um país?

A resposta mais provável é a lista de castas única dos vinhos portugueses, um perfil e estilo diferenciados da mediania internacional, a originalidade que caracteriza a maioria dos vinhos portugueses face à concorrência internacional. Só mesmo a singularidade, a diferença e a autenticidade poderão levar os consumidores europeus e americanos a escolher um vinho português em detrimento de um vinho de outro país. Só por milagre ou por engano, como quando os produtores portugueses baptizam os seus vinhos com nomes estrangeiros para lhes mascarar a origem, alguém em Londres, Sidney ou Tóquio irá comprar um Cabernet Sauvignon luso quando dispõe de tantas alternativas apelativas e fiáveis.

Por muito custe ouvir a temível realidade perante vinhos que se assemelhem, perante vinhos equivalente na escolha de castas e preço, a maioria optará por comprar vinhos do novo mundo, entendidos pela maioria como sendo mais seguros, consistentes, gulosos e fáceis de entender. Existem razões históricas para esta percepção entendidas pelo pragmatismo e maior liberdade que existe nos países do novo mundo em oposição ao espartilho legislativo que bloqueia a maioria dos países produtores do velho continente.

Enquanto a Europa vive sob o primado das regiões, sob uma divisão em denominações de origem, os países do novo mundo estão livres desta noção e de quase todos os constrangimentos o conceito acarreta. A consequência prática é que cada produtor pode ir comprar uvas onde bem lhe apetecer, estejam estas na vinha ao lado da adega ou a mais de setecentos quilómetros de distância, esbatendo o conceito de maus anos agrícolas e assegurando uma consistência de qualidade muito apreciados pela maioria dos consumidores. Uma consistência que se aproxima o vinho da artificialidade mas que também lhe acrescenta previsibilidade e segurança, conceitos que a maioria dos consumidores valoriza.Rui Falcão

Ora se as atenções dos consumidores estão focadas tendencialmente nos vinhos do novo mundo como poderão os vinhos portugueses competir com eles usando as mesmas armas sem disporem dos mesmos argumentos legislativos e da mesma capacidade de sedução? O que levaria um alemão a preferir um Merlot português a um Merlot chileno quando tem a certeza que o segundo será sempre bom e sem flutuações de qualidade de uma colheita para a outra? O que levaria o mesmo alemão a escolher um Syrah português em detrimento de um Syrah australiano quando ele não associa a casta a Portugal?

Por que razão então alguns produtores nacionais insistem em produzir vinhos de castas internacionais quando sabem que o seu potencial de comercialização estará restringido, na melhor das hipóteses, ao mercado interno português? Por que razão alguns produtores perdem tempo a produzir vinhos varietais de castas internacionais quando sabem à partida que os países do novo mundo conseguirão sempre produzir mais barato que na Europa, partindo derrotados ainda antes de entrar em jogo? Pior, por que razão sendo Portugal um dos países mais ricos em variedades autóctones, a maioria das quais conhecemos mal e ainda não estudámos em profundidade, privilegiamos as variedades de terceiros, as castas internacionais que todos utilizam, desbaratando assim uma das maiores vantagens competitivas dos vinhos portugueses?

Não há nada de errado em querer aproveitar algumas das castas estrangeiras que se adaptaram bem em Portugal, usando-as sobretudo em lotes. Não há nada de errado em tirar partido das mais-valias que estas possam acrescentar aos vinhos. Mas será um absurdo acreditar que a salvação poderá chegar na forma de mais um Chardonnay ou Syrah atirado ao mundo.

Estaremos mesmo à espera de conquistar o mundo com vinhos portugueses iguais a tantos outros do mundo?

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Rui Falcão on March 5th, 2014

Crise é uma palavra que não sai do léxico do dia-a-dia, uma palavra que teima em não abandonar as conversas. Por ora ainda não encontrámos forma de a conseguir contornar, de fintar os receios, compromissos e reveses que anuncia, de esconder o medo que a palavra inspira. A vida económica não atravessa o melhor momento e o mundo do vinho reflecte esta triste realidade patente na quebra deRui Falcão vendas, na obrigação da diminuição de preços, na dificuldade em escoar stocks que alguns dos produtores acumulam de forma descontrolada.

Muitos produtores continuam sem saber onde encontrar espaço por entre as cubas ainda cheias de vinhos das vindimas anteriores, oferecendo sinais claros de uma realidade adversa que muitos teimam em desvalorizar. A vida não está fácil e para combater ou adiar o fado alinham-se diferentes estratégias, das mais originais às mais previsíveis, das mais ingénuas às mais sofisticadas, das mais dispendiosas às mais frugais. Independentemente da estratégia adoptada o percurso não será fácil e alguns ficarão pelo caminho.

Porém, e se quisermos ser intelectualmente honestos, a crise pouco veio acrescentar a um sector que já apresentava sintomas de alienação da realidade ainda antes do descalabro financeiro que assolou a Europa. Em pouco mais de uma década passámos “do oito para o oitenta”. Fomos inundados por marcas novas, por novos rostos, novos produtores e novas regiões, com dezenas de nomes de castas anteriormente desconhecidas. Quisemos prosperar e assimilar numa só década o que outros países fomentaram e planearam durante meio século.

De uma só assentada as prateleiras de grandes superfícies, supermercados e garrafeiras encheram-se com centenas de novas referências ao mesmo tempo que as cartas dos restaurantes engordavam com as centenas de rótulos originais que chegavam de todos os cantos do país. Deixámos de pedir um Bairrada ou um Dão genérico para passar a pedir um vinho pelo nome do produtor ou do rótulo, querendo saber mais sobre a data de colheita, sobre o nome do enólogo, sobre as castas presentes e sobre as possíveis harmonizações com a refeição.

Um excesso de informação vivido num intervalo de tempo muito curto de assimilação quase impossível. Fomos inundados por centenas de novos produtores, dezenas de novidades mensais, prateleiras repletas por milhares de rótulos, numa fuga para a frente caótica onde o factor novidade se converteu numa necessidade incondicional, no santo graal que fazia mover enófilos, produtores, distribuição, restauração e garrafeiras.

Durante um pequeno período de tempo chegava-se ao restaurante ou garrafeira e só se perguntava pelas novidades, pelos vinhos e projectos novos esquecendo as marcas clássicas e os produtores de referência, sujeitando os rótulos clássicos a uma sorte ingrata. O que poderá ajudar a explicar a necessidade sentida por tantos produtores de diversificar a sua oferta ao máximo decompondo a produção em dezenas de rótulos e referências, embaraçando os consumidores com a exibição de milhares e milhares de rótulos nas prateleiras.

Rui FalcãoPara além das dificuldades acrescidas pela presença de incontáveis rótulos nas prateleiras a inspiração para escolher nomes de vinhos raramente transbordou. Por isso num panorama já saturado a maioria dos vinhos portugueses continuou a ser rotulado como “Quinta”, “Herdade” ou “Monte” de qualquer coisa, dificultando ainda mais a memorização de marcas. Pior, num ápice observámos que ano após ano muitos produtores descontinuavam alguns rótulos para logo erguerem novas marcas, muitas vezes com um perfil quase idêntico ao anterior. Outros preferiram subdividir os vinhos em dezenas de referências distintas… com casos pontuais de alguns produtores a achegar ao extremo absoluto de oferecer 25 rótulos distintos numa desarrumação impossível de acompanhar mesmo pelos profissionais.

Para complicar a vida ao consumidor surgiram dezenas de segmentações qualitativas, tornando impossível a arrumação qualitativa dentro do mesmo produtor. Chega-se ao cúmulo de consagrar sob o mesmo rótulo genérico vinhos distintos divididos sob os qualificativos Reserva, Grande Reserva, Reserva Especial, Premium, Top Premium e Grande Escolha. Entre tantos predicados de qualidade mais ou menos equiparáveis e de hierarquização difícil de apurar quais as melhores referências do produtor? E como será possível memorizar tantas referências qualitativas… quando as prateleiras já transbordam com rótulos de tantos outros produtores?

Será possível continuar neste caminho da multiplicação de rótulos por produtor durante muito mais tempo?

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Rui Falcão on February 24th, 2014

Não será certamente necessário recordar à maioria dos portugueses a severa crise económica que assola a Europa de forma mais ou menos generalizada, crise que em Portugal ganhou uma intensidade e fervor ainda menos recomendáveis que as cíclicas crises anteriores a que já nos tínhamos acostumado. Há quase cinco anos que o vocábulo e as suas consequências nos acompanham no dia-a-dia, há quase Rui Falcaocinco anos que não se fala de outra palavra, há quase cinco anos que se sentem os efeitos directos corrosivos de uma crise que teima em prolongar-se no tempo sem abrandar na violência.

As consequências da crise afectam a maioria da população e tardam em aligeirar os seus efeitos imediatos, tanto materiais como emocionais. A crise expõe não só as fragilidades directas, visíveis de forma enfática nas elevadas taxas de desemprego e no fraco rendimento disponível das famílias portuguesas, como as fraquezas indirectas mensuradas no sentimento depressivo generalizado e de aparente prostração face ao futuro imediato. Pior que a sensação de crise é a falta de vislumbre de um futuro mais esperançoso, a ausência de perspectivas de uma melhoria palpável a curto ou mesmo a médio prazo.

Ou, talvez reformulando esta visão mais pessimista, a anterior sensação de impotência face ao futuro já que estas percepções colectivas mudam num piscar de olhos e fomos recentemente invadidos por um curioso sentimento de euforia proporcionado pelos números mais frescos do crescimento económico… mesmo que pigmeus. A taxa de desemprego diminuiu, as taxas de juros internacionais aliviaram e, tão depressa como nos deprimimos com as primeiras notícias da crise, parecemos estar agora a sofrer de um súbito júbilo colectivo pelas promessas de recuperação económica. Nem mesmo o saudável chamar à realidade de uma recuperação ainda incerta e muito dilatada no tempo parece ensaiar abrandar este novo cenário cor-de-rosa.

Não sei se animados por este ideal de recobro iminente, embalados por sonhos de uma recuperação económica que por ora só se sente no papel, começa a sentir-se um novo ânimo a soprar no enfraquecido mundo do vinho. Um ânimo que mais que sustentado em crescimentos de vendas excepcionais assenta na simples confiança, ou esperança da retoma, na expectativa de que os ventos económicos estejam em mudança e que a bonança se apreste a arribar à costa. O mundo do vinho, ou pelo menos uma parte do universo da produção de vinho, parece acreditar piamente na retoma económica imediata… pelo menos a atentar em algumas das propostas que têm surgido ao longo dos últimos dois ou três meses.

É que só mesmo uma fé inquebrantável numa recuperação económica instantânea poderia pretender explicar a manifesta inflação de preços que teve lugar ao longo dos últimos meses. Se nos anos imediatamente anteriores aos primeiros sintomas da crise os preços elevados se tinham transformado numa rotina desequilibrada desenvolvendo um modelo exótico onde cada produtor aspirava a ter o vinho mais caro de Portugal, a crise conseguiu trazer algum bom senso ao mercado eliminando muitos dos preços mais absurdos e imorais. Podemos quase afirmar que o mercado renegou os excessos do passado para logo acrescentar um novo excesso, desta vez em sentido contrário, repudiando os preços obscenos do passado para começar a forçar preços demasiado baixos e incompatíveis com a salubridade económica da produção.

As loucuras do passado tinham aparentemente sido esquecidas, os excessos de voluntarismo de alguns vinhos, no preço e nas embalagens sumptuosas, tinham sido banidos e a ambição desmedida tinha sido repudiada. Estávamos de regresso à normalidade do mercado e à tirania dos vinhos abaixo da fronteira dos 5€… ou mesmo abaixo do patamar dos 2€, importância a que quase metade dos vinhos nacionais é vendida nas grandes superfícies.

Eis porém que quase sem se dar conta, de forma sorrateira e sem muito alarido, os preços dos vinhos portugueses voltam agora a disparar de forma estranhamente entusiástica, pelo menos em muitos dos vinhos “especiais” que têm sido propostos recentemente. Vinhos exclusivos, tal como no passado, de produção limitada, das melhores uvas ou das melhores parcelas de vinha de cada produtor, envelhecidos durante anos nas melhores barricas de carvalho francês, provenientes de vinhas velhas de rendimentos baixíssimos… e demais atributos que os produtores comunicam. Vindos do nada, por vezes de produtores já com créditos firmados, por vezes de rótulos novos de produtores já afamados, por vezes de produtores jovens e sem qualquer histórico ratificado, a verdade é que a lista de vinhos muito caros, por vezes obscenamente caros, desabrochou novamente.Rui Falcao

Num ápice a lista de vinhos acima dos 50€ voltou a ser povoada por novas referências, barreira logo superada por vinhos mais próximos dos 80€… fronteira que não tardou a ser ultrapassada por vinhos com preços acima dos 100€. Inevitavelmente há já quem ultrapasse o limite dos 125€ e até quem proponha vinhos por valores perto dos 250€, sempre em vinhos jovens e sem o esforço e o custo financeiro que os longos anos de estágio em cave implicam. Numa análise precipitada até poderia parecer que as consequências da crise já tinham ultrapassadas ou volatilizadas por completo.

Até parece que nada foi aprendido com os erros de um passado demasiado recente para poder ser esquecido e para que tão poucos lhe prestem a atenção devida. A especulação de preços, a subida imparável de preços que raramente tinha correspondência directa com a qualidade, foi um dos factores primordiais para o avanço da crise no sector e para as graves dificuldades que alguns produtores de vinho atravessaram e atravessam. Se é difícil defender qualquer juízo de justiça em preços abaixo da barreira dos 3€ valores que colocam a produção de vinho no limiar da sobrevivência, também é difícil justificar a introdução recente de tantos vinhos propostos a preços indecorosos e pouco compatíveis com a qualidade efectiva e com a realidade económica de Portugal. Um pouco de bom senso não seria mal visto.

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Rui Falcão on February 7th, 2014

A prestigiada revista Wine – Essência do Vinho, revista e empresa produtora de eventos da qual sou colaborador directo, atribuíu esta semana os prémios ”Melhores do ano 2013″, galardões outorgados a doze personalidades da gastronomia e do vinho.

A cerimónia decorreu na cidade do Porto e condecorou na área da gastronomia Pedro Licínio como o melhor “Sommelier do Ano” (Hotel Ritz em Lisboa), Vitor Matos como “Chefe de Cozinha do Ano” (restaurante Largo do Paço – Casa da Calçada, em Amarante), Il Gallo d’Oro como o “Restaurante Gastronómico do Ano” (hotel The Cliff Bay, no Funchal) e o restaurante DOP, no Porto, como “Restaurante com Melhor Serviço de Vinhos”. A estes prémios há que juntar o galardão de “Destino Gastronómico do Ano”, entregue à cidade do Porto, enquanto o prestigiado prémio personalidade do ano na gastronomia foi entregue a José Quitério (jornal Expresso), o decano dos críticos gastronómicos portugueses.

Na categoria vinhos os premiados foram a Quinta do Noval com o Quinta do Noval Nacional Vintage 2011, considerado como o “Melhor Vinho do Ano” (Vinho do Porto). A casa Barbeito foi eleita como o “Melhor Produtor do Ano” (Vinho Madeira), enquanto a Muxagat, de Mateus Nicolau de Almeida, foi considerada como o “Produtor Revelação do Ano” (Douro). Francisco Albuquerque foi contemplado com o cobiçado prémio de “Enólogo do Ano” (Madeira Wine Company). A WINE decidiu distinguir este ano pela primeira vez a “Personalidade do Ano no Brasil”, nomeação que recaiu em Manuel Chicau (distribuidora “Adega Alentejana”).

Para finalizar um dos prémios mais importantes da noite, a distinção de personalidade do ano no vinho, galardão que foi atribuído a Paul Symington (família Symington).

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Rui Falcão on February 5th, 2014

A vivência urbana é habitualmente classificada como stressante e cáustica, uma vida repleta de perigos e ameaças que obriga a uma existência angustiada e pouco saudável. Acreditamos que a vida no campo permite uma existência mais calma e saudável, mais relaxada e harmoniosa, longe dos riscos a que as grandes cidades obrigam. Se nas cidades o pequeno e o grande crime fervilham nos meios rurais abunda Rui Falcaoa paz e a concórdia que une os seus habitantes. Se nas grandes cidades a maioria se atropela no campo leva-se uma vida mais tranquila e estável.

Talvez por isso o mundo do vinho seja habitualmente apresentado como um espaço pacífico e harmonioso onde a vida é vivida de uma forma tranquila e sem os perigos e riscos que a maioria das cidades encerra. Uma percepção que, infelizmente, começa a ser contrariada por uma sequência de actos de vandalismo e terrorismo que atingem alguns produtores europeus de pequena e média dimensão. A tranquilidade da vida campestre e da produção de vinhos começa a ser posta em causa perante os actos de sabotagem perpetrados por um pequeno grupo de delinquentes.

O último a sofrer as consequências dessa delinquência foi o respeitado e reconhecido Jacques Selosse, pequeno produtor de culto da região de Champagne que em poucos anos conseguiu elevar-se ao patamar mais alto entre os apreciadores de Champanhe. Apesar de os seus champanhes não serem verdadeiramente consensuais para uma imensa maioria de apaixonados os vinhos de Jacques Selosse personificam a autenticidade do terroir, a verdade sem maquilhagens, a identidade de um estilo mais oxidado que conseguiu fazer escola.

Inserido em Champagne, numa região onde a maioria dos produtores é medida aos milhões de garrafas, Jacques Selosse é um produtor muito pequeno que faz parte desse grupo raro de pequenos produtores que produz vinhos exclusivamente de vinhas próprias. Talvez isso ajude a explicar, pela qualidade ímpar e pela produção ínfima, que os seus vinhos sejam avidamente disputados por enófilos de todo o mundo… e vendidos a preços que, mesmo para a realidade da região, podem ser considerados pesados.

Uma realidade que ajuda a compreender que Jacques Selosse tenha sido vítima de um assalto invulgar, um ataque directo à sua adega de onde foram roubados vinhos engarrafados num valor superior a 300 mil euros. Uma operação arriscada e logisticamente complicada que obrigou ao transporte das muitas caixas de garrafas em mais de um camião TIR, roubando garrafas da gama base Initial até ao Substance Blanc de Blancs, um champanhe caro que sai da adega a preços pouco superiores a 100€ para vir a ser vendido ao consumidor por preços próximos dos 270€.

Mais sinistro que o já de si intimidante roubo das garrafas foi saber que junto com as garrafas foram igualmente roubados cerca de16 mil rótulos e 12 mil gargantilhas que muito provavelmente irão ser usadas em garrafas contrafeitas que poderão ajudar a desvirtuar a marca.

Poderia até ser um caso isolado mas a verdade é que o terrorismo vinícola começa a ganhar fôlego. Que o diga Gianfranco Soldera, o criador do grande vinho homónimo, o enorme Brunello di Montacilno que ficou celebrizado precisamente pelo apelido do proprietário, Soldera. Um dia ao entrar na adega Gianfranco Soldera encontrou um mar de vinho derramado pelo chão. Alguém entrou na adega Soldera durante a noite para se entreter a abrir as torneiras dos depósitos onde envelheciam os grandes vinhos da casa. De uma só vez foram despejados um pouco mais de 62 mil litros de vinho, o equivalente a aproximadamente 84 mil garrafas, destruindo por inteiro as colheitas dos anos 2007, 2008, 2009, 2010, 2011 e 2012 que se encontravam em estágio nas cubas.

Um prejuízo avaliado em dez milhões de euros que implicou a destruição quase completa de seis colheitas seguidas de um vinho de culto. Soube-se mais tarde que o culpado, e posteriormente condenado, era um ex-empregado da casa que actuou por represália quando o proprietário não lhe autorizou a dormir na adega. Em Espanha, na região de Priorato, seguiu-se uma vingança e sabotagem quase idêntica, Rui Falcaoembora aqui os requintais de sadismo e malvadez tenham atingido proporções ainda mais cruéis e doentias.

O prejudicado foi o pequeníssimo produtor Terroir al Limit, uma pequena operação do conhecido enólogo e produtor sul-africano Eben Sadie no Priorato em colaboração com Dominik Huber e Jaume Sabaté. Vinhos vertiginosos e extremados que aparentemente incomodaram o suficiente para quem um dia a região alguém tenha assaltado e vandalizado a adega, divertindo-se a abrir as torneiras de todas as cubas espalhando o vinho pelo chão da adega. Não satisfeitos com o acto os assaltantes introduziram lixívia em várias barricas cheias de vinho arruinando assim a quase totalidade dos vinhos da adega.

Infelizmente, esta é apenas uma das muitas histórias de vandalismo e terrorismo vínico que tomaram de assalto as adegas de alguns países europeus. Esperemos que o desvario não chegue a atingir as nossas fronteiras.

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Rui Falcão on January 27th, 2014

As cervejas conhecidas como Trappist, cervejas artesanais de origem conventual, são reconhecidas nacional e internacionalmente como cervejas sofisticadas, cervejas com história e origem determinada. A produção está restrita às abadias da ordem Cisterciense continuando a ser supervisionadas por frades da congregação, estando hoje reduzidas à produção em seis abadias belgas (Chimay, Orval, Rochefort, Rui Falcao - TrappistWestmalle, Westvleteren e Achel) e uma abadia holandesa (Koningshoeven). As cervejas Trappist demonstram de forma eloquente a ligação histórica entre as diferentes ordens religiosas do centro da Europa e a produção de cerveja e outras bebidas alcoólicas.

Na verdade estas ligações são mais evidentes no vinho, sobretudo nos países do sul da Europa, evidenciadas pela celebração eucarística do corpo e sangue de Cristo através do vinho. Ligações simultaneamente religiosas e culturais que influenciaram a forma como as diferentes civilizações ocidentais se ligam ao vinho.

O que nem todos saberão é que existe uma vida para além das cervejas Trappist e que algumas ordens religiosas europeias perpetuam a tradição de produzir e comercializar vinhos de abadia. Existem vinhos de abadia para todos os gostos e feitios produzidos um pouco por toda a velha Europa. Por vezes são elaborados em mosteiros com um passado esplendoroso, por vezes em mosteiros de origem mais recente ou mais modesta, por vezes em abadias tradicionalistas, por vezes em abadias mais liberais. Por vezes em ordens fechadas sobre si próprias, algumas delas de clausura, por vezes em ordens abertas à comunidade. Por vezes em conventos de ordens religiosas masculinas, por vezes em conventos de ordens religiosas femininas.

A abadia Beneditina de Santa Hildegarda, sita em Rüdesheim, na famosa região vinícola de Rheingau, será um dos conventos mais famosos. Descendente de uma família nobre alemã, Hildegarda nasceu no castelo de Böckekheim em 1098. Foi entregue muito cedo aos cuidados de um convento de freiras beneditinas, como era costume na época, tendo assumido a chefia do convento em 1136. Dotada de personalidade forte Hildegarda terá sentido o chamamento do Espírito Santo relatando algumas das suas revelações… dedicando uma atenção especial ao vinho como elemento purificador do sangue.

A sua obra inspirou uma nova ordem religiosa, as Irmãs de Santa Hildegarda, as mesmas que governam a Abadia de Santa Hildegarda num dos locais mais turísticos da Alemanha vinícola. Os sete hectares de vinhas, situadas no monopólio de Rüdesheimer Klosterlay, no coração de Rheingau, compreendem seis hectares de Riesling e um hectare de Spätburgunder (Pinot Noir) que permitem uma produção de 18.000 garrafas ano. Tudo é decidido e preparado na abadia pelas oitenta irmãs beneditinas, da viticultura à enologia, do marketing à comercialização, dos trabalhos na vinha ao enchimento e rotulagem das garrafas.

Mas este relato que pode ser alargado a outros conventos situados em diferentes países europeus. Entre eles conta-se a abadia italiana de Novacella, no Alto Adige, na região a que os austríacos já se habituaram a chamar Tirol do Sul. Construída por membros da ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em 1142 a Abadia de Novacella orgulha-se de possuir as vinhas e adega situadas mais a norte em Itália, financiando a maioria do seu trabalho pastoral com a venda à porta da adega dos seus vinhos elaborados com as castas Gewürztraminer, Silvaner e Müller Thurgau. Da mesma ordem religiosa mas desta vez já na vizinha Áustria, situa-se o Mosteiro de Klosterneuburg, mosteiro fundado em 1113 que se dedica há mais de 900 anos ao estudo e ensino tanto da viticultura como da produção de vinho,Rui Falcao - Trappist reclamando para si o título de produtor de vinho mais antigo de toda a Áustria. Curiosamente o mosteiro é um dos maiores proprietários de vinha na Áustria possuindo 110 hectares de vinha, um autêntico latifúndio num país que se celebrizou pelo tamanho muito pequeno das parcelas de vinha.

Também em França, na abadia de Sainte Madeleine du Barroux, na região da Provence, a congregação de monges beneditinos produz um vinho tinto e um vinho rosé com as castas Syrah, Grenache e Cinsault. Poderá até parecer estranho mas os dois vinhos são comercializados unicamente através do site Internet da abadia ou directamente à porta da adega. Até mesmo na moderna Califórnia, em Vina, vamos encontrar uma abadia Cisterciense fundada por monges que se auto intitulam trapistas propondo um grupo alargado de vinhos que são comercializados genericamente e ironicamente sob o nome Poor Souls

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Rui Falcão on January 23rd, 2014

O percurso de vida de qualquer amante do vinho só poderá estar verdadeiramente completo depois de uma visita à região alemã de Mosel, aquela que melhor transmite a sensação de leveza, elegância, tensão, frescura e delicadeza. Uma das poucas regiões do mundo capaz de mostrar vinhos que se mostram simultaneamente delicados, etéreos, vigorosos e poderosos.Rui Falcao - Mosel

A indiscutível qualidade e originalidade dos vinhos de Mosel junta-se uma paisagem deslumbrante, austera mas harmoniosa, de uma sobriedade e monumentalidade quase indescritíveis. Apesar das muitas diferenças que as separam só o Douro se lhe pode comparar na grandiosidade da natureza e na homília do esforço do homem, na beleza e magnificência do horizonte e na conquista à mão de um território hostil.

Mosel, tal como no Douro, ganhou o nome do rio que a atravessa e que tornou possível o milagre do vinho. Numa paisagem tingida pelos meandros do rio Mosela, o grande obreiro do prodígio dos vinhos de Mosel, a vinha não seria viável sem o socorro das águas calmas do rio. As vinhas de Mosel situam-se muito acima do limite norte europeu de viabilidade da videira e são capazes de florescer graças a um feliz quadro de casualidades e pequenos milagres que permitiram o sucesso do vinho em paragens tão estremadas.

O vale profundo e tortuoso que o rio Mosela foi criando ao longo de séculos protege as vinhas dos ventos frios e ameaçadores que chegam do norte permitindo que a vinha prospere nas encostas vertiginosas, proporcionando assim dezenas de exposições diferentes graças às constantes mudanças de direcção do rio Mosela. Os solos xistosos soltos e profundos, muito semelhantes ao Douro, absorvem e concentram o calor produzido ao longo do dia para logo o libertar suavemente durante as noites frias. O rio Mosela funciona como espelho de água reflectindo os raios solares pelas vinhas das encostas mais escarpadas.

Finalmente, e em mais numa sucessão de analogias com o Douro, as vinhas velhas e muito velhas abundam, algumas delas ainda em pé-franco. Tal como no Douro a mecanização dos trabalhos na vinha é impossível em encostas tão íngremes, e tal como no Douro existe uma dependência económica quase absoluta da vinha e uma enorme fragmentação da terra dividida em explorações muito pequenas e fragmentadas. As afinidades culturais completam-se com a vinha mais velha disposta em socalcos e patamares, tão ao jeito do Douro, enquanto a maioria das vinhas jovens estão plantadas ao alto, por vezes em inclinações quase impossíveis.

Nenhuma outra região do mundo possui vinhas tão improváveis como em Mosel, com inclinações que chegam a atingir o patamar dos 80º, mais parecidas com paredes de escalada que vinhas onde alguém se disponha a podar, sulfatar ou vindimar com um cesto pesado às costas. As encostas são tão íngremes que nas vinhas de maior pendente os trabalhadores são obrigados a vestir um arnês que fica preso por cordas face ao perigo de queda. Para ajudar os trabalhadores a subir e descer com os cestos de uvas foram construídos centenas de pequenos funiculares monocarril que avançam pelas vinhas acima como se estivessem numa montanha russa.

Porém, e ao contrário do Douro, o protagonismo em Mosel está reservado para uma só variedade, o Riesling. A casta respeita e espelha o terroir de forma fiel e os estilos são dramaticamente diferentes consoante a vinha onde nasceram. Por isso o nome da vinha, bem como o nome da vila mais próxima, é fundamental para a descodificação dos vinhos. Uma informação importante que ajuda a identificar cada vinho e o potencial de qualidade já que muitas vinhas têm nomes idênticos diferenciadas apenas pelo nome da vila. O exemplo perfeito deste paradigma são as dezenas de vinhas identificadas como Sonnenuhr (relógio de sol), reconhecidas por rótulos tão famosos como Zeltinger Sonnenuhr, Wehlener Sonnenuhr ou Brauneberger Juffer Sonnenuhr, vinhas identificadas pelos enormes relógios de sol suspensos nas encostas que estão localizadas nas vilas de Zeltingen, Wehlen e Brauneberg. Cada vinha possui um perfil e estilo perfeitamente definidos que podem variar entre a elegância suprema de Wehlener Sonnenuhr e a opulência barroca e energia extrema dos vinhos de Erdener Prälat.

Rui Falcao - MoselAté os nomes das vinhas declaram algo contando histórias bizarras sobre a sua origem e os seus predicados, animadas por vezes de nomes deliciosos. Veja-se por exemplo a vinha de Erdener Prälat (o bispado de Erden), Erdener Treppchen (escadas íngremes de Erden, nome que ganhou face ao declive pronunciado da vinha em socalcos), Graacher Himmelreich (o reino dos céus de Graach), Bernkasteler Doktor (o doutor de Bernkastel, em referência ao facto de um bispo ter sido alegadamente curado de uma longa doença após ter bebido um vinho oriundo desta vinha) ou Ürziger Würzgarten (o jardim especiado de Ürzig, por os vinhos serem especialmente especiados no aroma com uma gama incrível de frutos tropicais e notas citrinas).

A maioria dos vinhos tem graduações alcoólicas muito baixas, por vezes com pouco mais de 7º, o que não impede que os vinhos de Mosel estejam entre os vinhos de mair capacidade de guarda, sendo comuns os exemplos de vinhos com mais de setenta anos de vida. Tudo isto numa região onde segundo a lógica da natureza a vinha nem deveria ser capaz de sobreviver.

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