Como escolher o vinho quando na mesma mesa alguém decidiu pedir ostras como prato de entrada enquanto outros escolheram pratos tão discordantes como foie gras e rins salteados? Como poderá decidir-se por um único vinho para acompanhar a refeição quando o menu proposto se reveza entre uma entrada suave e delicada e um prato principal robusto que obrigam a vinhos distintos?
Mesmo que partilhando a mesa com outro comensal a verdade é que duas garrafas, uma para a entrada e outra para o prato principal, serão certamente excessivas… enquanto a opção de vinho a copo, teoricamente a mais acertada, está frequentemente ausente ou, com uma assiduidade desagradável, é extremamente limitada na escolha e diversidade.
A solução ideal para obviar a tais problemas passa pela utilização e divulgação da meia garrafa, formato pouco utilizado e que infelizmente poucos consideram, tanto no lado da produção como no lado do consumidor. Uma aposta racional, sobretudo no momento actual de desalento económico epidémico, uma aposta lógica que oferece versatilidade e qualidade a um preço muito mais acessível para a maioria dos consumidores.
As meias garrafas possibilitam a experimentação de novos vinhos a custos muito mais acessíveis aliviando ainda o eventual drama social das taxas alcoólicas elevadas que poderiam inibir a condução automóvel, ajudando a atenuar aquela que é uma das maiores dificuldades sentidas pela restauração. Resolve ainda o problema dos casais ou grupos de amigos em que só um bebe e para os quais uma garrafa seria sempre excessiva.
Infelizmente, e tal como a maioria já deverá ter constatado por experiência própria, a lista de oferta de vinhos em meias garrafas na restauração, e fora dela, é francamente insignificante ou mesmo inexistente em muitos restaurantes. As razões para tal facto são diversas e complexas e na verdade a responsabilidade não pode ser inteiramente assacada à restauração. A escolha é limitada e a produção não gosta do formato, por regra, escusando-se a investir neste tipo de garrafas, no formato 375 mililitros.
As razões são múltiplas e entre elas encontra-se o famoso síndrome da “pescadinha de rabo na boca”. Poucos produtores arriscam investir num formato pouco requisitado por consumidores e restauração… enquanto consumidores e restauração não abraçam o formato pela escassez extrema da oferta e pela pouca divulgação do tamanho. E, se formos consequentes, há que entender o lado da produção. Como o formato é pouco requisitado as vidreiras produzem poucas destas garrafas elevando o preço individual de cada meia garrafa, do simples vasilhame, a valores estratosféricos, ao mesmo tempo que as mesmas vidreiras oferecem uma disponibilidade muito limitada de exemplares e de formatos de garrafas, elevando o custo individual de cada garrafa para valores financeiramente menos rentáveis.
Mas as dificuldades e os custos de produção agravam-se ainda com as linhas de enchimento, muitas vezes incompatíveis com este pequeno formato, o que obriga o vinho a ser engarrafado por terceiros ou com custos acrescidos ao enchimento normal. A estas dificuldades há ainda que acrescentar o custo de desenhar e produzir rótulos diferenciados, adaptados à menor dimensão da garrafa. A soma destes custos implica que as meias garrafas apresentem um custo por litro que é cerca de 20% superior ao custo da garrafa tradicional, obrigando a que a restauração cobre valores mais altos pelas meias garrafas… ou que se sujeite a cobrar margens mais ligeiras, circunstância pouco apreciada pela restauração.
Mas os custos são apenas uma das razões a justificar a má vontade da produção face à utilização de meias garrafas. O envelhecimento precoce é a outra grande inquietação sobre o tamanho meia garrafa. Sabe-se por experiência empírica que este formato não permite uma guarda tão longa e previsível como o proporcionado pela garrafa tradicional ou pela garrafa magnum, o que demover alguns produtores de pretender engarrafar os seus melhores vinhos num formato que não assegura as mesmas condições de longevidade da garrafa tradicional.
Uma preocupação natural mas que será porventura excessiva. Num mundo em que tudo é efémero e onde a juventude é valorizada até aos limites do razoável quantas garrafas são hoje guardadas durante os anos suficientes para se poder perceber uma diferença assinalável de evolução? E quantos restaurantes estarão hoje dispostos a investir na construção de uma lista de vinhos ampla e com exemplares envelhecidos, sabendo-se que a restauração trabalha cada vez mais quase sem stocks obrigando a rotações rápidas e a volumes insignificantes?
Infelizmente, e enquanto a realidade económica e a racionalidade aconselham ao uso e proliferação da meia garrafa, continuamos a desdenhar o formato e a olhar para ele com alguma sobranceria, como se a meia garrafa fosse um sinal de pobreza ou de tacanhez, como se a meia garrafa representasse um sinal de capitulação. O mundo do vinho continua preso a demasiados dogmas!
Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 6 de Abril de 2013
As caixas de correio são constantemente submersas por dezenas de notícias sem sentido e sem qualquer interesse, , para além de mensagens de promoção não solicitadas, notícias feitas à conveniência de agências de comunicação que se entretêm a lançar comunicados de imprensa sobre todos os temas possíveis que a humanidade consiga imaginar. Entre as dezenas de mensagens diárias recebidas em cada conta de email por vezes encontramos algumas verdadeiras pérolas, no bom e no mau sentido da palavra.
Entre as notícias mais frescas a deixar-me em tal estado de espírito conta-se a referência a uma vinha francesa de pouco menos de meio hectare que terá recentemente recebido honras de património de estado, tendo-lhe
sido atribuída a classificação oficial de monumento histórico. A pequena parcela de vinha de que não se sabe bem a idade, mas que se suspeita ter sido plantada algures entre os anos 1800 e 1830, está sita na denominação de origem relativamente obscura de Saint-Mont, na região de Gers, no sudoeste francês, uma faixa vinícola pouco valorizada localizada já perto da orla dos Pirenéus, um pouco a norte da denominação Madiran.
O que torna esta vinha tão especial é, para além da sua idade mais que respeitável, o facto de ter resistido à filoxera permanecendo ainda hoje em pé-franco, sem o recurso habitual a um porta-enxerto de vinha americana, bem como a forma invulgar e quase caótica como está plantada, sem direcção certa e sem alinhamentos artificiais, seguindo o contorno do relevo de forma absolutamente natural. Encontrar uma vinha realmente velha em França, sem compasso nem lógica aparente na condução, plantada em pé-franco, é algo que só por si poderia ser tema de relato… mas que dificilmente seria argumento suficiente para a elevar à condição de monumento histórico.
O que verdadeiramente singulariza esta vinha francesa é a forma como as diferentes castas foram plantadas numa estranha harmonia que aceitou misturar as diferentes variedades, combinando castas brancas e tintas na mesma parcela, evidenciando algumas castas antigas das quais muitas nem se lhe conhecem o nome. Com a parcimónia e o entusiasmo que caracterizam este tipo de notícias as fontes dividem-se quanto ao número de castas presentes nesta parcela, com os números a variar entre um pouco mais de uma vintena e mais de uma centena de castas, dividindo-se ainda no número de castas desconhecidas presentes nesta vinha, variando as estimativas entre as sete e uma trintena de castas.
Sim, é algo que nos soa familiar e que para nós portugueses dificilmente seria tema de conversa e muito menos de celebrações oficiais. Afinal, o que mais temos são vinhas velhas e muito velhas, a maioria das quais misturadas numa saudável anarquia que as protege dos humores da natureza e das variações climáticas anuais. E no entanto, quem sabe se por excesso de proximidade, não conseguimos perceber o tesouro que temos entre mãos, a sorte que nos foi passada pelos antepassados, a fortuna que herdámos e que tanto gostamos de desbaratar.
Quando vemos uma vinha francesa ser elevada a património histórico, quando vemos uma vinha austríaca de características semelhantes, embora de idade muito mais comedida, ver os seus vinhos vendidos a preços elevados, não deveria ser difícil compreender o imenso potencial de que dispomos um pouco por todo o país. Sobretudo no Douro, mas também um pouco pelo Dão, Bairrada, Beiras e Alentejo espalham-se vinhas velhas misturadas onde raramente conseguimos identificar todas as variedades e onde poderemos encontrar castas desconhecidas e clones há muito perdidos na viticultura moderna.
Numa época em que somos quase diariamente atormentados com o alegado problema do aquecimento global, quem sabe se parte da resposta não estará presente nestes clones e castas caídas em desuso, habilitados com a experiência de mais de um século de vida de adaptação contínua a climas extremados e inclementes? Não, não será muito difícil perceber a relevância destas vinhas que em outros países são consagradas como património
nacional.
Ora o que andamos nós a fazer com este património de riqueza incalculável e de valorização fácil que nos foi deixado pelas gerações anteriores? Bom, salvo as devidas mas infelizmente raras excepções, temo-nos entretido a destruí-lo sem critério, arrancando muitas das vinhas velhas misturadas e sem serem misturadas, substituindo as vinhas velhas por castas populares e da moda, algumas das quais de origem estrangeira. Dando sinais de mais um tique de provincianismo e de presunção de um falso modernismo, que no fundo não revelam mais que uma total falta de rectitude, vamos desprezando e paulatinamente destruindo o que demorou séculos a ser feito e conservado, incapazes de compreender a sumptuosidade, raridade e rentabilidade do que temos em mão.
Com aparente alegria vamos arrancando vinhas centenárias da casta Baga para plantar vinhas novas com a casta francesa Merlot que nunca provou nada em Portugal e que será mais uma entre tantas, vamos arrancando vinhas velhas no Dão para plantar mais um talhão de Touriga Nacional, como se precisámos de espaço para plantar mais Touriga Nacional, vamos arrancando vinhas velhíssimas e misturadas no Douro para plantar Touriga Nacional, Touriga Franca e uns pés de Cabernet Sauvignon e Syrah, porque sem as castas estrangeiras o duo das Tourigas não seria o mesmo, vamos arrancando vinhas velhas e misturadas em Portalegre e Reguengos para mais uma parcela de Alicante Bouschet e Syrah, eventualmente com um cantinho reservado para uns quantos pés de Touriga Nacional. Estranho país, este…
Tags: Vinho
As notícias são pouco animadoras. Na verdade, e infelizmente, as notícias económicas têm sido sistematicamente pouco animadoras ao longo da vida de quase uma geração, com ou sem crise, com ou sem a angústia que tem vindo a sufocar Portugal ao longo da última década. Mesmo antes de a crise financeira se ter tornado tão perceptível, mesmo ainda antes de termos sentido a crise directamente e em toda a sua plenitude, já ela começava a denunciar os primeiros indícios da depressão moral e material em que vivemos presentemente.
Não há dúvida, as notícias são pouco animadoras e manda a tradição que as notícias incómodas não devam ser anunciadas, que devemos entreter o espírito com pensamentos venturosos e positivos. Infelizmente os números são reais, mensuráveis, fiáveis e, apesar de pouco animadores, foram recentemente divulgados ao sector do vinho durante o seminário anual patrocinado conjuntamente pela CAP (Confederação dos Agricultores de Portugal) e pela APED (Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição), seminário que divulga em primeira mão o resultado dos estudos Nielsen, empresa líder em estudos e informações de mercado.
E são precisamente esses números que intimidam, a informação e análise fria e desapaixonada da impressionante quantidade de informação apresentada, o noticiário sobre as percentagens de cada região, as quotas de mercado, os crescimentos e as desacelerações, números capazes de causar fortes dores de cabeça ao sector, números susceptíveis de desanimar mesmo os mais optimistas. Que os tempos são de crise já todos os sabemos e, infelizmente, já todos o sentimos, mas a crueza e dimensão dos números ainda consegue espantar o sector.
Primeiro dado perturbador, a falência quase generalizada da restauração, a bancarrota corrente e próxima da maioria dos canais de restauração, sejam eles restaurantes de autor, restaurantes regionais, restaurantes familiares, pastelarias, tascas ou simples pronto a comer, restaurantes de prato do dia e almoço de pé. O único sector da restauração que se permite resistir minimamente é o mundo da fast-food, ramo que vive alheado do consumo do vinho e avesso ao seu uso, e que, consequentemente, não proporciona qualquer consolo a quem produz vinho.
O fracasso da restauração, do canal Horeca (hotelaria/restaurante/café), carrega consigo duas realidades amargas. Por um lado a existência de falências económicas, reais ou iminentes, implica que a restauração se irá mostrar incapaz de pagar as suas contas, de saldar as suas dívidas junto dos fornecedores, provocando crises de tesouraria e liquidez junto da produção, para não referir a quebra de exposição das marcas de vinho junto do consumidor. Por outro lado o fracasso do canal Horeca representa um afunilar dos canais de distribuição, devolvendo o controlo quase total da distribuição para as cadeias de distribuição moderna, para os hipermercados, supermercados gigantes e supermercados, estreitando a independência da produção, refém de três ou quatro cadeias de distribuição.
Os números são aterradores e merecedores de reflexão profunda, sobretudo quando se descobre que as grandes cadeias de distribuição, hipermercados e supermercados, representam hoje cerca de 80% do mercado total de vinhos em Portugal, concentrando sob as suas asas um poder infinito que rege todo o sector. Um dado ainda mais assustador quando se descobre que as grandes cadeias de distribuição têm vindo a diminuir de forma sistemática o número de referências disponíveis nas prateleiras, concentrando-se em meia dúzia de regiões e/ou marcas que lhes oferecem garantias de um retorno fácil e imediato.
A principal consequência do imenso poder negocial e contratual que as grandes superfícies detêm ao saber-se donas de quatro quintos do mercado de vinhos, é a deflação extrema de preços junto da produção e a concentração de activos junto de faixas de preço que, de forma clara e em bom português, representam a falência de todo o sector primário, desde o viticultor que vê as suas uvas vendidas a preços de miséria até ao produtor que se vê obrigado a comprar uvas a preços indecorosos e a vender vinhos a preços absurdos e de miséria, preços que raramente conseguem pagar as despesas da adega e dos secos, da garrafa, rolha e rótulo, quanto mais de impostos, margens, salários e… lucro.
Vale a pena parar para pensar quando se descobre que as marcas brancas das grandes cadeias de distribuição representam já cerca de 14% do mercado global de vinho em Portugal. Mas vale ainda mais parar para pensar quando se espreita a segmentação de vendas de vinho de uma das principais cadeias de supermercados e se descobre que o patamar da garrafa de vinho vendida abaixo de um euro representa 17% das vendas e que o patamar de preço no intervalo entre um e menos de dois euros representa 43% das vendas dessa grande superfície, quase metade do vinho vendido pela cadeia de supermercados.
Ou seja, o vinho comercializado a preço de prateleira com valores inferiores a dois euros, até ao patamar de 1,99€, representa quase dois terços do vinho vendido para esta grande cadeia de supermercados. Como é possível para um produtor de vinho sobreviver com estes preços depois de descontados os muitos impostos, o preço das uvas e/ou o preço de plantar e manter uma vinha, o preço da amortização da adega, o preço dos salários, o preço dos custos de produção, o preço dos custos de promoção, o preço de garrafas, rolhas e rótulos, o preço de engarrafar, o preço das barricas, o preço das análises e, sobretudo, quando ainda tem de pagar às grandes superfícies para poder participar em feiras, pagar quebras, pagar folhetos… para ser informado mais tarde que os vinhos que não foram vendidos terão de ser levantados, instituindo na prática, a prática de vendas à consignação?
Tags: Vinho
Reportagem do jornal da tarde da SIC sobre a Essência do Vinho 2013 e a incrível prova “Vinhos de Porto de sonho“, presumivelmente irrepetível, onde tive o enorme prazer e privilégio de apresentar os seis magníficos Wine & Soul 5G, Niepoort VV, Scion, Andresen Colheita 1910, Wiese & Krohn Colheita 1863 e Tributa, todos eles classificados com a pontuação máxima de 20 valores. Muito provavelmente a prova do ano…
O país está claramente na moda. Não só é já a segunda maior potência económica do planeta, e aparentemente com vontade e capacidade para dentro de mais uma ou duas décadas se transformar na maior potência económica internacional, como é a economia que cresce mais rapidamente neste mundo global, a que desfruta das vantagens inerentes a dispor do maior mercado interno do planeta com um apetite voraz pelo consumo material. E é também uma sociedade que, apesar de se manter misteriosa e quase impenetrável para o modelo social ocidental, revela alguma tendência para a aculturação aos gostos e padrões culturais ocidentais, aparentemente ávida por apropriar-se e ajustar-se a alguns dos hábitos essenciais do ocidente.
Sempre que surge o nome China logo os olhos da maioria dos empresários se enche de um pequeno mas perceptível brilho de esperança e ilusão, imaginando o país como um terreiro fértil para os seus produtos, como uma dádiva do céu que é obrigatório explorar para conquistar volume e facturação. Hoje todos querem estar presentes na China, todos querem penetrar no mercado local, todos querem uma fatia, mesmo que pequena, do imenso potencial de um país que enriquece ao quadruplo ou quíntuplo do crescimento das economias europeias e norte-americanas.
Se a premissa é válida para a maioria das actividades económicas, ela ganha uma expressão ainda maior quando se fala sobre o mercado do luxo, sobre os produtos tradicionais, sobre os fundamentos da cultura ocidental, sobre os marcos identitários de uma civilização. Ora o vinho situa-se de forma confortável em todos estas frentes, em todos estes campos, afirmando-se como uma das identidades essenciais do mundo ocidental, sobretudo da Europa, apelando aos valores fundamentais da nossa civilização, desde a ideia de sofisticação no seu consumo até às raízes da agricultura, desde o pilar religioso inerente ao vinho até ao conceito de secularidade no seu consumo.
Conhecendo-se a voracidade do mercado interno chinês por este mundo dos vinhos que lhes parece tão novo, sobretudo dos vinhos europeus e com os franceses a ocupar quase por inteiro as primeiras carruagens, as carruagens do prestígio, é plausível e inteligível que todos queiram apostar com o peito aberto neste mercado, revivendo o conceito já ultrapassado da árvore das patacas. A China irá transformar-se num dos maiores mercados mundiais do vinho num futuro muito próximo, e como tal, naturalmente, todos querem estar presentes, todos querem um quinhão dos despojos, todos ambicionam vender os seus vinhos para lá da grande muralha.
O que infelizmente poucos percebem é que a China, muito mais que uma promessa, será, infelizmente, uma das ameaças mais sérias para o mundo do vinho, pelo menos tal como hoje o conhecemos e concebemos. Mais que um manancial de fortunas e quotas de mercado a China será uma dor de cabeça para o mundo ocidental e para o equilíbrio de poderes instituído.
A ideia parece alarmista e desproporcionada? Talvez, mas a ideia que um país instruído como o Reino Unido, a placa giratória do vinho no mundo e um dos mais informados do planeta, viria a ser dominado por um país como a Austrália, de que nem se sabia que fazia vinho, destronando a França que anteriormente reinava com uma quota de mercado que superava os 50% também parecia alarmista e fantasiosa no início da década de oitenta. Tal como teria parecido delirante afiançar que o mundo do vinho passaria a ser segmentado em função do nome da casta em detrimento das regiões, que a maioria dos consumidores do mundo bebessem um Cabernet Sauvignon ou um Touriga Nacional em lugar de um Bordéus, de um Rioja ou de um Bairrada.
O que sim, é certo, é que quase sem se dar por isso a China é já o sexto maior produtor mundial de vinho e, ainda mais extraordinário, o quinto maior mercado de vinho, consumindo um pouco mais do triplo que o país por ora produz. Talvez por isso ainda seja relativamente raro encontrar vinhos chineses na Europa e Estados Unidos, tal a sofreguidão e sede reveladas pelo mercado local. Não se caia na tentação de acreditar que os vinhos chineses, coitados, serão simplesmente imbebíveis, coisas que só os locais conseguiriam beber. Porque a verdade é que nas duas últimas edições do Decanter World Wines Awards, um dos concursos de maior reputação internacional e onde alguns dos críticos e enólogos mais reconhecidos na praça examinam em prova cega vinhos do mundo inteiro, foram premiados dois vinhos chineses como o melhor vinho em prova das castas bordalesas acima e abicho das dez libras.
Ou seja, os vinhos chineses já não são uns coitadinhos a tratar de forma paternalista e com algum humor, mas sim vinhos que conseguem introduzir-se entre os melhores do mundo em determinadas categorias, sempre nas variedades distas internacionais como o Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Chardonnay e Sauvignon Blanc. A área de vinha instalada e as parcerias internacionais com alguns dos grandes grupos europeus duplicam a cada ano, beneficiando da cumplicidade de um governo central que apoia e incentiva o consumo de vinho, afastando dessa forma a utilização de cereais em bebidas destiladas num país que tem dificuldade em alimentar uma população imensa.
Por isso não será difícil diagnosticar que em breve, muito em breve, a China se irá transformar não só no maior mercado de vinhos mundial… como também no maior produtor mundial E não será também difícil prognosticar que muito em breve a China passará de simples importador a exportador de vinhos, inundando alguns dos principais mercados com vinhos baratos, muito baratos, produzidos numa escala que não conseguimos compreender e ainda menos alcançar.
Quem se dedicou nestes últimos anos a produzir vinhos de variedades estrangeiras, das mesmas castas internacionais que os chineses adoptaram, deverá agora sentir alguma angústia…
Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 19 de Janeiro de 2013
Tags: Vinho
Uma reportagem sobre a prova “Vinhos de Porto de sonho“, prova realizada durante a Essência do Vinho 2013 onde tive o privilégio de apresentar os seis magníficos Wine & Soul 5G, Niepoort VV, Scion, Andresen Colheita 1910, Wiese & Krohn Colheita 1863 e Tributa, todos eles classificados com a pontuação máxima de 20 valores.
O Guia de Vinhos Rui Falcão 2012 em boa companhia na publicidade institucional da importadora brasileira Premium Wines…
Tags: Guia vinhos, Vinho
Os fluentes em chinês serão seguramente capazes de ler a primeira página do meu artigo sobre a vindima 2012 e o potencial dos vinhos do ano no Alentejo, Douro, Vinho do Porto e Vinho da Madeira, publicado na edição de Janeiro/Fevereiro da revista chinesa Winepress.

Os preconceitos geram sempre equívocos e estorvos, erros de julgamento e desacertos de análise. Os preconceitos assentam em juízos de valor precipitados, em reflexões formados na má-fé ou na simples ignorância, vivendo mais da paixão ou do bairrismo que da racionalidade ou do pensamento analítico. Os preconceitos toldam a visão e encobrem o discernimento, ensombrando o juízo e o critério.
Infelizmente os preconceitos abarcam toda a sociedade de forma transversal, são intrínsecos ao ser humano, são um facto indelével e inevitável da condição humana. Os preconceitos abundam e alargam-se a todos os
campos do saber, embora em nenhum deles se propaguem e perpetuem de forma tão exuberante como nos domínios do ócio e do prazer, nos universos que se alimentam da palavra “paixão”, nos sectores que preenchem os nossos momentos de lazer, nos espaços que vivem torneados pela crítica e que ocupam lugares onde a ciência e a exactidão são encarados com alguma relatividade.
É na literatura, na música, na cinefilia, nos desportos, na gastronomia e no universo do vinho, nos terreiros onde a crítica joga um papel decisivo na formação de opinião, que o preconceito mais se desenvolveu e onde ganha maior jurisdição. O vinho é campo fértil para os preconceitos, para os juízos feitos e as tomadas de opinião definitivas, terreno fértil para a facilidade com que se instituem dogmas. São muitas as convicções e as frases feitas que pululam no meio, certezas absolutas que de tão repetidas acabam por se converter em verdades únicas que poucos arriscam questionar.
Entre as muitas “verdades” corrosivas que circulam no meio conta-se o preconceito cáustico lançado sobre os vinhos alentejanos, identificando-os como sendo fáceis, quentes, simples, de taninos suaves e sedosos, vinhos de vida curta que deverão ser bebidos jovens e no mais curto espaço de tempo possível, beneficiando deles enquanto adolescentes e exuberantes. Uma descrição falaciosa que poderá ser aplicada a qualquer região portuguesa, desde que justaposta aos vinhos do segmento mais acessível.
Uma parte substancial da crítica nacional e da enofilia que se julga mais exigente olha para os vinhos alentejanos com um misto de complacência e sobranceria, encarando-os com a superioridade moral que costuma embalar o preconceito, assumindo-os como simplesmente legítimos e esforçados mas sem as qualidades naturais e os predicados que outras regiões encerram. Olham para os vinhos alentejanos de forma enviesada aceitando-os entre a gama baixa e média mas afastando-os dos lugares cimeiros, aceitando-os como líderes de venda para as massas mas incapazes de possuir armas para lutar contra a elite dos vinhos nacionais. Olham para os vinhos alentejanos presos a estereótipos do passado ou a circunstâncias que raramente têm fundamento, colando-lhes uma imagem de simplicidade e veludo que raramente é ratificada pela realidade.
Uma visão que carece inteiramente de fundamento, assentando arraiais no preconceito e desconhecimento. Um visão que a prática se encarrega de facilmente desmontar. Se há algo que hoje caracteriza a maioria dos vinhos alentejanos mais ambiciosos é a sua estrutura, a austeridade e dureza de taninos, a firmeza da frescura e acidez, a solidez e volume da boca, termos que poucos associam ao Alentejo e que concedem facilmente a outras denominações nacionais. Se olharmos para a maioria dos vinhos alentejanos de topo actuais iremos encontrar vinhos sólidos e fechados, por vezes ríspidos e severos, vinhos vigorosos e com um enorme potencial de envelhecimento em garrafa.
Não será uma novidade da região em termos absolutos, como se comprova pelos casos dos vinhos velhos do Mouchão ou da Quinta do Carmo, mas é uma tendência que tem vindo a ser reforçada ao longo desta última
década e meia. Quem provar vinhos como o T de Terrugem das Caves Aliança, Conde d’Ervideira Private Selection, Tinto da Ânfora Grande Escolha da Bacalhôa, Solar do Lobo Grande Escolha, Herdade das Servas Vinhas Velhas, Ícone da Sogrape, Cortes de Cima Reserva, Marias da Malhadinha, Monte dos Cabaços Reserva, Grande Rocim, Dona Maria Reserva, Zambujeiro, Quinta do Mouro Rótulo Dourado, Mouchão Tonel 3-4 entre tantos outros vinhos alentejanos irá rapidamente descobrir o que significam descritivos como taninos vivos e duros, volume, corpo cheio, frescura, estrutura e capacidade de envelhecimento.
Mesmo os vinhos de recorte mais suave e delicado entre o conjunto de vinhos mais ambiciosos do Alentejo, rótulos como o Marquês de Borba Reserva, Esporão Private Selection, Herdade dos Grous Reserva, J da José Maria da Fonseca, Terrenus Reserva, Pêra Manca, Adega de Borba Reserva, Inevitável, Herdade de São Miguel Reserva, Herdade do Perdigão Reserva, Monte da Penha Gerações, Paulo Laureano Dolium, Tinto da Talha Grande Escolha, Outeiro de Terra d’Alter, Tapada de Coelheiros entre muitos outros, não escondem um lado sóbrio e robusto, revelador de viço e firmeza, solidez e frescura, atributos que o preconceito quer fazer descolar do Alentejo com frequência.
Um dos exemplos mais recentes de vinhos alentejanos vigorosos e poderosos, vinhos severos e carregados de personalidade é o colossal Torre do Esporão, um tinto austero e notável, sociável mas intransigente, um pequeno monstro superiormente domesticado que se anuncia como um dos argumentos mais persuasivos contra os preconceitos ingénuos.
Já o escrevi no passado, os vinhos portugueses sofrem de uma falta de imagem explícita que os afasta das listas de escolhas óbvias e intuitivas da maioria dos enófilos internacionais. Sim, é verdade que em alguns mercados mais ou menos isolados, nomeadamente no caso paradigmático dos países lusófonos, onde existe uma proximidade cultural e emocional que possibilita que Portugal possua uma imagem positiva e atraente, uma imagem de país clássico e ligado às tradições, gozando desse agradável e raro privilégio de poder contar com a empatia antecipada do consumidor, com uma simpatia natural que se manifesta desde o primeiro instante, quando o vinho ainda está na prateleira da garrafeira ou supermercado.
Em função dos diferentes mercados, de uma maior proximidade ou afastamento geográfico em relação a Portugal, da existência de uma maior afinidade cultural ou de uma ligação menos afectiva, da presença de uma maior aposta de comunicação e formação ou de algum alheamento comercial e institucional, os vinhos portugueses debatem-se com a eterna dificuldade de amargarem com uma ausência de imagem ou, nos piores casos, de uma imagem muito pouco lisonjeira.
Enquanto no primeiro caso, quando os vinhos nacionais vivem sob a anestesia e entorpecimento do anonimato, o problema pode ser facilmente corrigido com um investimento sério na formação e comunicação, no segundo caso, quando a percepção é negativa e a imagem pouco abonatória, a resolução será sempre delicada e financeiramente pesada, obrigando a investimentos dolorosos e dilatados no tempo. É muito mais fácil criar e implementar uma imagem positiva ou simplesmente razoável a partir do nada que tentar reverter uma valoração que à partida nos é claramente desfavorável. É muito mais fácil partir do zero que perder anos e proveitos a tentar simplesmente regressar ao ponto zero.
Se durante anos pouco se fez para combater esta triste realidade há que reconhecer que Portugal tem hoje, finalmente, uma política activa de afirmação internacional. Se durante anos os esforços foram maioritariamente casuísticos e fruto de boas vontades ocasionais, resultado de esforços e iniciativas individuais, existe hoje uma estratégia pensada, organizada, coerente e adaptada a cada um dos mercados identificados como sendo prioritários. Se durante anos a aposta na promoção se revelou inconsistente no tempo, na mensagem e na lista de alvos escolhidos, alternando de acordo com os humores e as ocasiões, introduzindo uma comunicação aleatória tanto na identificação dos mercados prioritários como nos conteúdos, hoje percebe-se uma mensagem perfeitamente racionalizada nos objectivos e na forma de os alcançar.
Concorde-se ou discorde-se com a estratégia finalmente acordada, a verdade é que Portugal acolheu por fim um plano e uma mensagem coerente, consistente nos conteúdos e na sua execução ao longo dos anos, coerente, consistente e com uma visão de médio a longo prazo. Como em todas as decisões políticas, como em todos os planos estratégicos do mundo, haverá quem se identifique com os grandes princípios e quem não se reveja nos objectivos adoptados. Nada de mais saudável e natural. Mas independentemente dos gostos pessoais, das teorias particulares e das conveniências individuais de cada agente do sector do vinho, a verdade é que foi estabelecido um código de actuação e uma lista de mercados prioritários, um mapa de objectivos mensuráveis, um modelo integrado de promoção e formação, um orçamento transparente e uma lista de propósitos que é clara e que é passível de ser fiscalizada no cumprimento dos objectivos e na apuração de responsabilidades.
Uma política clara e precisa de promoção de uma das montras mais emblemáticas de Portugal, o vinho, um dos poucos produtos do depauperado sector primário português que soma casos de sucesso. Uma promoção que
será no entanto muito mais eficaz e racional nos objectivos se estiver associada a uma promoção conjunta com os dois grandes vinhos generosos de Portugal, os representantes Vinho do Porto e Vinho da Madeira, os dois vinhos de maior prestígio de Portugal. Se por um lado os vinhos portugueses sofrem de alguma desconsideração internacional e de uma penosa falta de imagem global, estes dois vinhos generosos situam-se entre os grandes do mundo, entre a elite dos vinhos internacionais, entre o que de melhor se faz no mundo e é reconhecido como tal.
Dissociar a imagem dos vinhos portugueses destes dois grandes vinhos generosos, dissociar a imagem dos vinhos do Alentejo, Bairrada ou Vinho Verde da grandeza real e reconhecida do Vinho do Porto e do Vinho da Madeira seria um erro fatal e de difícil compreensão. Apresentar vinhos portugueses nos nossos mercados mais relevantes, nos mercados onde concentramos os nossos recursos físicos e financeiros, e terminar sem a presença reconfortante e prestigiante de um destes dois vinhos fortificados seria perder a oportunidade de imprimir uma marca perene na memória de quem quisemos influenciar, de quem quisemos doutrinar e converter para a causa do vinho português.
Desbaratar aquele que é um dos maiores trunfos de Portugal, a sua colecção única de vinhos generosos, é algo que não podemos arriscar. Afinal, quantos dos países produtores de vinho no mundo dispõem de armas tão valiosas quanto os nossos Vinho do Porto e Vinho da Madeira?
Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 8 de Dezembro de 2012
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