Rui Falcão on September 29th, 2014

Não é fácil olhar para a Hungria como modelo de inspiração social, sobretudo desde a recente cedência a uma deriva populista e autocrata que a converteu numa espécie de pária da União Europeia. Mas se no capítulo social a Hungria não profetiza qualquer modelo atraente o mesmo não se passa no mundo do vinho onde as autoridades húngaras pressagiam mudanças legislativas e filosóficas que merecem uma reflexão profunda e que poderãoRui Falcao - Vinhos que conm historias ajudar a projectar o futuro do vinho mais emblemático de Portugal, o Vinho do Porto.

Comecemos por falar dos vinhos de Tokay, vinhos de tradição e nobreza antiga, vinhos brancos doces que fazem parte da lista muito curta da elite vínica mundial, vinhos que se encontram entre os mais cobiçados e comentados do mundo. O orgulho húngaro pelos vinhos de Tokaji é de tal forma exorbitante que as suas qualidades e predicados são louvados na letra do hino nacional. A região encaixa-se no nordeste do país, no sopé das montanhas Zemplén, junto à fronteira com a Eslováquia, e especializou-se na produção de vinhos brancos doces de colheita tardia desde 1730, vinhos de podridão nobre que são localmente qualificados como Aszú.

Para poderem ser proclamados como Aszú as uvas das duas castas principais, Furmint e Harslevelu, têm de estar infectadas com o famoso fungo Botrytis Cinerea, o mesmo que afecta os vinhos da região francesa de Sauternes e os famosos Beerenauslese e Trockenbeerenauslese alemães, apresentando um teor de mínimo açúcar de vinte gramas por litro. Estas uvas vindimadas tardiamente são maceradas e esmagadas em pequenos “baldes” com capacidade para 25 quilos de uvas denominados localmente como puttonyos. Ao vinho base, estagiado em velhas barricas ou depósitos de 136 litros de mosto que dão pelo nome de Gonc, são adicionados posteriormente três, quatro, cinco ou seis puttonyos ou, de forma mais despretensiosa, são adicionados três, quatro, cinco ou seis baldes de 25 quilos de mosto de uvas afectadas pela podridão nobre.

Necessariamente quanto mais puttonyos forem adicionados ao mosto maior será a doçura final do vinho, com maturações totais que em função da doçura do vinho costumam tardar entre cinco e oito anos. Existe ainda um designativo especial e relativamente raro de 7 puttonyos, vinhos extremamente doces que correspondem comercialmente ao designativo Tokaji Aszú Esszencia que não deve ser confundido com o muito mais raro e muito mais caro Tokaji Esszencia. Os Tokaji Esszencia são vinhos raros e excêntricos, voluptuosos e opulentos, densos e quase decadentes que de tão poderosos e ricos raramente conseguimos beber mais que um pequeno trago de cada vez.

São vinhos absolutamente indestrutíveis, um pouco na senda dos grandes vinhos da Madeira, embora nos Tokaji a conservação natural provenha do açúcar em lugar da acidez viperina que caracteriza os vinhos da Madeira. São vinhos tão doces e opulentos que enquanto os Tokaji Aszú Esszencia alternam entre as 180 e as 230 gramas de açúcar residual… os Tokaji Esszencia podem ascender ao valor quase irreal de 800 gramas de açúcar residual muito embora existam registos de alguns vinhos com concentrações superiores a 900 gramas de açúcar residual.

Enquanto os vinhos mais simples, de três e quatro puttonyos, são baratos e de acesso fácil graças à massificação da produção, os vinhos das categorias superiores são raros, caros e de produção muito limitada. Enquanto os vinhos Tokaji mais simples podem ser comprados a partir de valores próximos a 5€ as categorias especiais podem começar nos três dígitos chegando mesmo a aproximar-se dos quatro dígitos nos vinhos mais exclusivos e considerados, num paralelismo fácil de exercer com o Vinho do Porto.

A grande reviravolta desta denominação de origem, uma das mais antigas do mundo a par do Vinho do Porto, sucedeu há cerca de seis meses quando o conselho regulador da denominação alterou profundamente as regras Rui Falcao - Vinhos que contam historiasdo jogo. Com efeito, e para além de um número considerável de pequenas alterações de menor alcance mas de afirmação inequívoca, como uma inflexão na lista de castas permitidas que passou a valorizar de forma mais explícita as variedades mais antigas de Tokaji, a região quebrou o grande tabu de séculos suprimindo formalmente as duas categorias inferiores, as famílias três e quatro puttonyos. Uma mudança radical na filosofia e uma revolução no modelo de produção, viticultores incluídos, que a par da onda natural de protestos levantou uma vaga de aprovação.

A denominação pretendeu com esta medida extrema fugir à banalização do nome Tokaji, escapar da guerra de preços que desvalorizou o nome de uma região inteira quando os vinhos começaram a chegar às prateleiras a menos de dez euros, salvar-se da depreciação do prestígio de um nome apostando na revitalização do encanto do passado. Uma transformação arriscada e com um potencial de agitação social elevado, uma mudança difícil mas que os responsáveis da região consideraram indispensável para o futuro da região.

E é aqui que o paralelismo com o Vinho do Porto se torna ainda mais dramático numa região que vive problemas e desafios semelhantes e onde os pontos de contacto entre as duas regiões são demasiado próximos para nos querermos escusar a analisar a solução húngara. Talvez esta não seja a solução ideal e talvez não seja aplicável ao Douro. Mas a região vive momentos difíceis e precisa seguramente de alterar o seu modelo de produção. Como é possível conciliar que o mesmo vinho de prestígio que propõe alguns vinhos a mais de 4.000€ possa ver aeroportos do mundo inteiro a propor vinhos do Porto a 2,99€? Como é possível conciliar as categorias especiais de Vinho do Porto, vinhos com indicação de idade, Colheitas, LBV ou Vintage com os vulgares Tawny e Ruby de entrada que podemos encontrar em qualquer supermercado a valores que raramente ultrapassam os 4€?

A solução não é fácil, os problemas da região são extremamente complexos, as implicações sociais e económicas de cada mudança são problemáticas e dolorosas para Gaia e para o Douro. Mas é inegável que a região e o Vinho do Porto precisam de mudanças urgentes e que esta reviravolta húngara pode servir de modelo de reflexão para aquela que é a denominação mais antiga do mundo.

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Rui Falcão on June 9th, 2014

É muito provável que nós, portugueses, estejamos entre os povos menos chauvinistas da Europa, entre aqueles que menos sentem os beliscões de um bairrismo nacionalista que com frequência ultrapassa a racionalidade. Rui FalcaoPodemos mesmo afirmar que com frequência nos situamos precisamente nas antípodas deste comportamento louvando à exaustão tudo o que soa a estrangeiro, endeusando e admirando tudo o que vem de fora… independentemente de falarmos de bens, produtos, tendências ou meras teses de opinião.

Desdenhamos o que é nosso, subestimamos os juízos e pareceres prestados dentro de fronteiras para abraçarmos com fervor o mesmo ideal se este for proposto a partir do estrangeiro. Em consequência da enorme falta de auto-estima que nos caracteriza repudiamos o que se produz em Portugal, adoramos o que for forasteiro e surpreendemo-nos genuinamente quando alguém de fora aplaude e valoriza o que é nosso, quando alguém de fora aprova e louva o que temos ou produzimos em Portugal. Só depois desse elogio estrangeiro, só depois de uma validação vinda de fora, damos o devido valor ao que se produz, pensa ou cria em Portugal.

Se esta triste condição é mais ou menos transversal à sociedade como um todo quando chegamos ao vinho esta estranha realidade sofre uma reviravolta total numa estranha metamorfose que subverte a condição por inteiro. No vinho assumimos todos os brios de uma nação e acreditamos piamente que os vinhos portugueses se encontram entre os melhores do mundo, entre os mais cobiçados e valorizados internacionalmente, confiando que poucos ou nenhuns outros países terão vinhos comparáveis aos nossos. Se por tradição sofremos de uma enorme falta de auto-estima em tudo o que nos rodeia nos vinhos sofremos da maleita contrária, de uma crença quase infinita nas nossas capacidades e na qualidade e atractividade dos nossos produtos.

Não será fácil explicar os fundamentos para semelhante transformação, evidenciar os porquês deste comportamento tão extremado e tão bipolar, adivinhar as razões que levam a que a maioria dos portugueses esteja tão convicta da reputação dos vinhos nacionais. Uma relação de confiança quase cega nos vinhos portugueses que apesar de positiva para o sector e para o ego dos produtores tem, infelizmente, pouco a ver com a realidade. Por impossível que tal possa afigurar-se para a maioria dos portugueses os vinhos lusitanos continuam a ser eternos desconhecidos para a maioria dos enófilos ou consumidores ocasionais estrangeiros.

Por muito que isso nos doa, e dói, os vinhos portugueses como um todo ainda não ultrapassaram a fronteira do exotismo, a fronteira que nos prende aos vinhos étnicos consumidos por imigrantes e descendentes, a fronteira de respeito e credibilidade que leva anos a formar. Poderão parecer palavras duras ou exageradas, sobretudo quando tanto ouvimos falar do sucesso de exportação dos vinhos nacionais. Mas esquecemos que salvo rarasRui Falcao excepções o grosso desses vinhos é exportado para países que mantêm connosco uma proximidade geográfica, cultural e linguística muito forte, com Angola e Brasil à cabeça, para além do Canadá e de um conjunto de países europeus onde a diáspora portuguesa é especialmente forte. A grande excepção a este fenómeno são os países escandinavos onde a penetração dos vinhos nacionais é realmente original e sem contacto com estas premissas.

Para confirmar tal condição basta viajar um pouco pelo mundo, o que nos está mais próximo e o que queda mais distante, e visitar garrafeiras, supermercados, lojas de conveniência e demais pontos de venda para verificar que os vinhos portugueses raramente estão presentes. Basta visitar restaurantes, de todos os estilos e para todas as bolsas, e verificar que os vinhos portugueses raramente surgem na carta, raramente marcam presença mesmo nas propostas de cartas mais abrangentes e com uma vocação mais internacional.

Basta olhar para os Estados Unidos da América, o maior mercado de vinhos do mundo, um mercado onde a presença portuguesa é essencial, não só pela venda directa mas também pela pressão mediática que uma presença forte poderia ter junto daquela que é a crítica de vinhos mais influente do planeta, para descobrir a raridade da presença de vinhos nacionais nas cartas de vinho de qualquer restaurante. E se em Nova Iorque ainda conseguimos encontrar um ou outro caso de visibilidade, mesmo que muito esbatida, no resto do país podemos passar semanas a visitar restaurantes em grandes cidades sem encontrar uma única referência a qualquer vinho português O pior é que nesses mesmos restaurantes repetem-se sugestões de vinhos franceses, italianos, espanhóis, argentinos, chilenos, australianos, sul-africanos e neozelandeses, para além, claro, da presença esperada de vinhos locais.

O mesmo se passa em Hong-Kong, em quase todos os estados do Canadá (para além das excepções de Ontário e Quebec), na América Latina (com excepção do Brasil), em todo o continente asiático e em toda a Oceânia. Mesmo na Europa a presença portuguesa continua a ser minimalista e sempre episódica e subalterna. Basta entrar em qualquer uma das muitas garrafeiras espalhadas pela Alemanha, Inglaterra, Dinamarca, Áustria, Irlanda ou qualquer outro país europeu para descobrir que enquanto países como França, Alemanha, Austrália, Chile e tantos outros dispõem de um expositor próprio, ou um grupo de expositores, os vinhos portugueses continuam a estar arrumados na prateleira inferior do expositor espanhol… ou em alternativa no expositor intitulado “outros países” onde surgimos ao lado de Israel, Bulgária, Chipre, Geórgia ou Malta.

Perante tal realidade só nos resta concluir que apesar do esforço de promoção titânico que os vinhos portugueses têm realizado ao longo dos últimos anos ainda temos muito caminho pela frente.

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Rui Falcão on May 19th, 2014

Todas as grandes famílias têm um parente tímido, um familiar mais calado e comedido nas palavras, um primo afastado de que pouco se houve falar. A grandiosa família dos vinhos fortificados nacionais também tem um parente assim, um familiar pouco dado aos holofotes da fama, um primo afastado de que se conhece pouco e que raramente aparece ou se ouve falar. Esse primo envergonhado chama-se Carcavelos e é parente directo dos Rui Falcao - Carcavelosoutros três grandes vinhos generosos de Portugal, Vinho do Porto, Vinho da Madeira e Moscatel.

Apesar de fazer parte do grupo de vinhos históricos portugueses, apesar de ser uma das denominações de origem mais antigas de Portugal, criada em 1907 e demarcada em 1908, apesar de ser o vinho de Lisboa e de ter sido apadrinhado pelo mesmo Marquês de Pombal que elevou o Vinho do Porto à notoriedade mundial, hoje o Carcavelos é um vinho obscuro e quase ignorado em Portugal, um vinho de produção quase virtual, um vinho de que poucos terão ouvido falar e de que ainda menos terão alguma tido ocasião ou vontade de provar.

Não é seguramente por falta de peso histórico, por falta de tradição ou de qualidade que o Carcavelos chegou a este estado de entorpecimento. As vinhas estão plantadas na região desde o século XIV e os vinhos ganharam fama nos séculos XVIII e XIX, vendidos como vinhos nobres e aristocráticos. Um dos principais impulsionadores do vinho de Carcavelos foi o célebre Marquês de Pombal, quem sabe se motivado pela coincidência de possuir uma propriedade na região, a Quinta de Oeiras, e de ser um dos maiores produtores do vinho de Carcavelos. O vinho chegou a ser tão famoso e a influência do Marquês de Pombal tão grande que a Quinta de Oeiras chegou a “exportar” um terço da produção anual para a Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro, mais tarde conhecida como Real Companhia Velha, a fim de misturar os vinhos de Carcavelos com os vinhos do Porto da Real Companhia… para corrigir e melhorar os vinhos do Porto.

A verdadeira fama chegou mais tarde, a propósito das invasões napoleónicas e da presença dos homens de Wellington empenhados na defesa de Lisboa. O isolamento de Lisboa e a ocupação de parte do território pelas tropas francesas privou o exército inglês do abastecimento regular de Vinho do Porto, circunstância que favoreceu o surgimento da alternativa do Carcavelos, o vinho local igualmente fortificado que muito cedo ganhou os favores da armada britânica. Baptizado coloquialmente como Lisbon Wine no regresso a casa os soldados e oficiais ingleses mantiveram a preferência pelo Carcavelos abrindo um mercado para o Carcavelos.

O caminho do sucesso foi quebrado pelos primeiros surtos de Oídio, a meio do século XIX, uma doença fúngica desconhecida na Europa que foi importada do continente americano e que dizimou grande parte das vinhas de Carcavelos. A produção teve quebras tão grandes, com valores que chegaram a atingir os 95%, que a exportação passou a ser impraticável obrigando à perda do decisivo mercado inglês. Se o futuro já parecia incerto a conjuntura ficou verdadeiramente lastimosa com a erupção da Filoxera no terço final do século XIX, o parasita importado do continente americano que quase aniquilou as vinhas europeias.

Duas calamidades consecutivas que quebraram o espírito dos produtores dos vinhos de Carcavelos e que levaram a que poucos reformassem as vinhas, replantassem o que tinha sido destruído em pouco mais de três décadas de doenças sucessivas e incontroláveis. Um abandono da actividade agrícola que foi intensificado a meio do século XX quando a região começou a ser invadida por prédios e urbanizações infinitas acabando por se transformar num dos principais subúrbios de Lisboa, transfigurando-se de região vinhateira em região urbana. Ainda hoje algumas das urbanizações mais famosas dos concelhos de Oeiras e Cascais carregam o nome de antigas quintas produtoras de vinho de Carcavelos.

A rápida urbanização dos dois concelhos desmoronou quase por completo a produção do Carcavelos. Por mais de um instante tudo pareceu perdido e por mais de uma vez a região esteve a ponto de se auto destruir, de se apagar voluntariamente do mapa. Só mesmo o esforço de uns poucos e a presença da Estação Agronómica de Oeiras permitiram a salvação daquela que é uma das mais pequenas denominações de origem do mundo. A produção é irrisória e hoje quase se resume a um produtor, a Estação Agronómica de Oeiras, organismo estatal, com o apoio material e moral da Câmara Municipal de Oeiras que aceitou a responsabilidade de se transformar Rui Falcao - Carcavelosem guardião do Carcavelos.

Apesar de os vinhos poderem ser elaborados legalmente com uvas tintas a tradição da denominação determina que o Carcavelos seja elaborado com um conjunto de castas brancas, algumas delas particulares da região. A mais importante, e também a mais característica da região, é o Galego Dourado, casta branca em desuso e quase extinta no resto do país. A acompanhar o Galego Dourado surgem as castas Arinto e Ratinho, a última das quais é mais uma das muitas castas obscuras de Portugal, um cruzamento das castas Malvasia Fina e Síria. Nas tintas estão aprovados o Castelão e Amostrinha, nome local para a variedade Preto Martinho.

Não será fácil encontrar Carcavelos à venda porque as produções são mínimas, a distribuição é quase inexistente e a maioria dos vinhos deixou de ser produzida há muitos anos. Mas vale a pena procurar em garrafeiras e lojas ou mercearias com stocks de vinhos velhos. Procure por garrafas da Quinta do Barão, um dos nomes mais seguros de Carcavelos. Procure igualmente por vinhos mais jovens mas especialmente interessantes como o Quinta dos Pesos 1991, um grande vinho generoso que o tempo ajudou a tornar ainda mais complexo e subtil. Ou procure por aquele que será o Carcavelos mais fácil de encontrar, o Conde de Oeiras, o vinho que continua a ser produzido na Estação Agronómica de Oeiras e que beneficiou de um grande investimento na adega e nas vinhas da Estação. A recompensa é garantida.

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Rui Falcão on May 14th, 2014

Os mais fluentes em mandarim serão seguramente capazes de ler a minha entrevista publicado na primeira edição da revista “Riquezas de Portugal”, publicação editada pela “Associação de Jovens Empresário Portugal-China”, que para além da feira INTERWINE, em Guangzhou, será distribuída em Shangai, Pekin, Macau e Zhuhai.

Rui Falcao

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Rui Falcão on May 8th, 2014

Apesar de como povo raramente exibirmos as virtudes do brio e auto-estima, apesar de com frequência valorizarmos em demasia o que é forasteiro só por ser estrangeiro, apesar de desconfiarmos de nós próprios e de desdenharmos os produtos nacionais, quando chegamos ao universo do vinho costumamos colocar esses pruridos de parte convertendo-nos subitamente nos maiores e mais eloquentes Rui Falcao - Vinhos que contam historiasdefensores do mérito dos vinhos nacionais. Apesar de raramente defendermos e promovermos o que é genuinamente português, assumimos um comportamento diferente e quase inverso no vinho, sustentando a superioridade nacional de uma forma descomplexada e inesperadamente afirmativa.

Acreditamos intimamente e visceralmente que os vinhos portugueses estão entre os melhores, os mais conhecidos e mais cobiçados do mundo, que os nossos vinhos são respeitados e valorizados um pouco por todo o planeta e que poucos outros países ou regiões conseguem fazer vinhos tão bons e interessantes como aqueles que se produzem em Portugal. Numa sociedade que manifesta tantas dúvidas sobre si mesma e tanta falta de confiança nos seus valores é extraordinário que sejam os vinhos a proporcionar tamanha crença e sensação de segurança.

Sabemos intuitivamente que os nossos vinhos são virtuosos e nutrimos um sentimento de respeito muito especial por um grupo de vinhos em que somos especialmente competentes, os vinhos generosos. Sabemos que o Vinho do Porto é um dos grandes vinhos do mundo, uma criação portuguesa ainda que apimentada pela nossa relação íntima com a Inglaterra, e sabemos perfeitamente que este é um estilo único que nenhum outro país do mundo consegue imitar na sua plenitude.

Sim, os mais informados saberão que alguns países tentaram copiar o estilo e que o utilizam de forma mais ou menos descarada, com frequência recorrendo ao nome original, Porto ou Vinho do Porto, para estimular as vendas. Os plágios, que hoje alguns identificam de forma prosaica como vinhos do “estilo Porto” ou “Port style”, podem assumir, consoante os autores e diferentes países, uma forma mais caricata ou mais séria, mais ignorante e desajeitada ou mais elegante e sofisticada.

As imitações variam entre os vinhos elaborados no antigo território indiano de Goa, vinhos vendidos em garrafão e que muito eventualmente poderão até ser feitos com uvas, até aos exemplos mais bem-nascidos elaborados na África do Sul e sobretudo na Austrália, vinhos “estilo Porto” que ganharam algum reconhecimento internacional e uma vida autónoma. Se as imitações baratas, tanto no preço como na qualidade, são pouco relevantes e apenas moderadamente ameaçadoras para o Vinho do Porto porque facilmente reconhecíveis como produtos de segunda linha, as segundas representam uma ameaça mais séria e são potencialmente provocantes.

Não acreditem nem por um segundo que estes vinhos são inevitavelmente simples, desinteressantes e de qualidade manifestamente inferior, sobretudo quando a ameaça procede da Austrália. Sim, é verdade que a família Vintage, o estilo mais valorizado e mais decisivo para o prestígio internacional do Vinho do Porto, está bem segura em mãos portuguesas. Não consegui encontrar nenhum Vintage australiano do “estilo Porto” que em qualidade se conseguisse assemelhar sequer à qualidade média dos Vintage autênticos. Quando falamos dos melhores exemplares, aqueles que saem das casas costumeiras que representam a excelência do estilo, nomes como Dow’s, Fonseca, Graham’s, Niepoort, Quinta do Noval ou Taylor’s, a distância é maior que um oceano e não se entrevêem melhorias significativas nesta família dos vinhos “estilo Porto” australianos.

O mesmo não se passa na família dos vinhos Tawnies envelhecidos, estilo que alguns produtores australianos conseguiram elevar a um estatuto e qualidade improváveis. Não será fácil de aceitar para muitos de nós mas alguns produtores australianos conseguiram imiscuir-se entre os nomes grados do estilo Tawny muito velho… e vemos que há hoje quem eleja a Austrália como um dos picos do estilo, sobretudo entre a imprensa especializada norte-americana, chinesa… e mesmo inglesa. Poderá doer e perturbar mas são já vários os exemplos de vinhos “estilo Porto” australianos que alcançaram pontuações de 100 valores nas principais referências da crítica internacional, classificações que simbolizam a perfeição absoluta.

Face aos elogios copiosos a confiança de alguns desses produtores tem aumentado de forma quase exponencial chegando mesmo à aparente ousadia presente de aproveitar a boleia que ultimamente tem feito escola em Portugal de lançar vinhos muito velhos e de edição profundamente limitada que são comercializados em garrafas desenhadas propositadamente para a ocasião. E no momento de cobrar esses mesmos produtores não se coíbem de estabelecer preços pesados ou mesmo muito pesados, superiores aos preços que as casas tradicionais do Douro determinaram para os seus vinhos mais extraordinários.

O último exemplo deste feito foi dado pela Penfolds, um dos gigantes australianos, casa que acabou de lançar o Penfolds 50 Years Old Rare Tawny, edição rara e limitada de 330 garrafas. O vinho, um lote deRui Falcao - Vinhos que contam historias diferentes anos com assumidamente uma ou outra pinguinha de um vinho de 1915 a que se juntaram vinhos dos anos 1940, 1945, 1959, 1960, 1961, 1965, 1969, 1971 e 1994, é proposto ao preço de 3.550 dólares australianos que equivalem aproximadamente a 2.350€.

Nada mau para um vinho que assume uma idade média de 50 anos e que nasce longe do vale do Douro, o berço do estilo. O que é menos compreensível é que as grandes, prestigiadas e históricas casas portuguesas sintam uma enorme dificuldade em vender vinhos bem mais velhos, de enormíssima qualidade, a metade do preço a que este Old Rare Tawny é proposto. O que é ainda menos compreensível é que alguns em Portugal critiquem esta política de elitizar as categorias especiais do Vinho do Porto, que censurem as casas por vender caro os grandes vinhos da região, vinhos que em muitos casos estiveram parados durante século e meio.

Por isso é tão importante que o sector aposte também nestes vinhos excepcionais e que os venda a preços condignos com a sua raridade e qualidade ímpar, vinhos como o Andresen 1900, Niepoort VV, Pintas 5G, Taylor’s Scion, Vallado Tributa ou Wiese & Krohn 1863, estandartes daquilo que o Douro faz de melhor.

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Rui Falcão on March 27th, 2014

Gosto de restaurantes que proporcionam cartas de vinho robustas e exaustivas, cartas dilatadas que permitam escolhas originais, cartas que permitam liberdade para escolher vinhos de todas as proveniências e colheitas, de todos os estilos e feitios, dos mais simples aos mais rebuscados, dos mais consensuais aos mais excêntricos, dos mais extrovertidos aos mais reservados.Rui Falcao - vinho na restauracao

Admiro e valorizo restaurantes cujas cartas de vinho demonstrem diversidade e originalidade na oferta, que permitam uma selecção alargada e cosmopolita. Gosto de cartas de vinho que sejam o resultado de uma escolha atenta e onde se possam encontrar raridades, onde se sinta a excitação da caçada a vinhos pouco comuns ou a colheitas antigas de vinhos inesperados. Fico feliz quando descubro cartas de vinho coerentes e personalizadas pelo sommelier, selecções adequadas que proporcionem harmonizações perfeitas com a cozinha do restaurante, cartas de vinhos que demonstrem respeito pelo vinho permitindo um par de escolhas racionais a par com escolhas de matriz mais passional.

Naturalmente também tenho consciência que o meu entusiasmo e a minha paixão pelo vinho não é, nem pode ser, partilhado por uma imensa maioria. Sei também que os restaurantes com capacidade para oferecer uma garrafeira aprimorada são escassos face aos investimentos necessários e ao retorno financeiro nem sempre mensurável. É a vida! Porém, e este é um erro comum, as cartas de vinhos não têm forçosamente de ser enciclopédicas para conseguirem ser eficazes e criativas.

A um restaurante exige-se simplesmente que a sua carta de vinhos seja legível e suficientemente diversificada na oferta e apropriada à cozinha proposta. Exige-se a indicação de datas de colheita, exige-se que a marcação de preços seja sensata, que a arrumação seja sensata (por regiões, estilos ou outro critério) e que a leitura seja clara. Condições simples e de fácil entendimento mas, infelizmente, ainda tão mal compreendidas pela restauração. Mas é igualmente essencial que a carta de vinhos ofereça um conjunto alargado de vinhos acessíveis democratizando o acesso ao vinho.

Ora é precisamente nesse rol de vinhos acessíveis que a maioria das cartas de vinho peca… por omissão. Quase sempre por falta de imaginação misturado com ignorância, algum laxismo e falta de vontade. Muitos restaurantes chegam mesmo a abdicar desta responsabilidade entregando a responsabilidade da elaboração da carta a terceiros ou, ainda pior, delegando a responsabilidade em distribuidores. Uma fatalidade que implica que a maioria das cartas de vinho sejam pouco imaginativas, repetitivas e sensaboronas.

Acabamos por descobrir os mesmos vinhos espalhados por centenas de restaurantes distribuídos por todo o país, acabamos por encontrar as mesmas propostas no litoral e interior, em restaurantes populares, regionais ou eruditos. Por vezes valorizamos demasiado as cartas de vinhos pela dimensão, pela oferta de vinhos troféu, pela presença de uma ou outra colheita antiga mas esquecemo-nos com frequência que estes vinhos raramente são pedidos. São os vinhos mais acessíveis, a sequência de vinhos mais baratos que melhor definem o apreço pelo vinho por parte do restaurante, que melhor Rui Falcao - vinho na restauracaoevidenciam o respeito para com o cliente.

A crise financeira encarregou-se de agravar o distanciamento entre as sugestões das cartas de vinho e a apetência e disponibilidade dos clientes. Raros são aqueles que se decidem pelos vinhos mais caros, frequentemente cobrados a preços indecorosos. Poucos são aqueles que se deixam seduzir pelos vinhos da gama média/alta, por regra tabelados a preços imorais. E no entanto é possível, e até relativamente simples, apresentar cartas de vinhos económicos com referências originais a vinhos menos badalados, com frequência de regiões alternativas.

Ao contrário daquilo que é aceite de forma mais ou menos universal os bons vinhos, por vezes mesmo os vinhos fascinantes, não são incompatíveis com preços sensatos. Para apresentar uma carta de vinhos inteligente basta imaginação e empenho, fazer os trabalhos de casa, escolher com critério, procurar por entre a multidão de vinhos acessíveis e encantadores que enriquecem o mercado.

Se mesmo a restauração erudita sentiu urgência na adaptação aos tempos económicos modernos oferecendo menus alternativos, arejados, claros, irreverentes e acessíveis… também as cartas de vinho necessitam de terapia idêntica. Reclamam a procura de excelência assente em preços comedidos, a oferta de emoções amparadas na qualidade e irreverência. Uma lista que prometa originalidade, inovação e racionalidade.

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Rui Falcão on March 24th, 2014

A tradução ou adaptação do termo Premier Cru, ou First Growth, para a terminologia portuguesa não é fácil nem axiomática, assentando na ideia de um vinho clássico e de historial largo, cujo valor e qualidade se vaticinem absolutamente inquestionáveis, de reconhecimento garantido e universal, sem máculas, de consistência irrepreensível, com um percurso histórico facilmente fundamentado e Rui Falcao - Bussacoamplamente documentado.

Por outras palavras, um conceito de difícil aplicação à realidade portuguesa, onde não transbordam os exemplos de vinhos com um passado histórico longo e habilitado, que ultrapasse decentemente metade de um século, com uma consistência qualitativa impecável e sem brechas, e onde subsistam um número de garrafas suficiente que autorize provas regulares que permitam aquilatar sobre os predicados do vinho em causa. Condições exigentes que impedem a atribuição do almejado título de Premier Cru à quase plenitude dos vinhos nacionais.

Porém, um vinho português assoma por entre a plebe, reclamando para si, com toda a propriedade, tão cobiçado brasão de nobreza. Que vinho é esse que poderá aspirar a tamanho estatuto de fidalguia? Um vinho discreto mas erudito, um clássico entre os clássicos, um vinho invulgar e desconforme com tudo o que possa representar a rotina e os padrões estabelecidos, o Vinho do Bussaco, o verdadeiro, e eventualmente único, Premier Cru português. Um vinho, infelizmente, pouco conhecido entre os lusitanos, sistematicamente esquecido e ignorado, sem o relevo institucional que o longo historial, e, sobretudo, a incrível qualidade, lhe deveriam proporcionar.

E no entanto, apesar de tão longos pergaminhos e de tão excelsa qualidade, o celeste Vinho do Bussaco não passa de um mero vinho de mesa, o degrau mais humilde da hierarquia vínica portuguesa, fruto da sua posição fronteiriça entre duas das grandes denominações portuguesas, a Bairrada e o Dão, desfrutando da sua localização física para agregar uvas das duas denominações, procurando justapor o melhor de cada uma das regiões vizinhas. Que o Premier Cru português seja um “vulgar” vinho de mesa é um dos maiores paradoxos e imprevistos em que o mundo do vinho pátrio é fértil…

Para o enorme desconhecimento sobre os vinhos do Bussaco, mas também para a sua inegável magia, concorre a circunstância de os vinhos serem exclusivamente vendidos nos hotéis do grupo Alexandre Almeida, integrados na carta dos restaurantes, com destaque mais que evidente para o belíssimo Palace Hotel do Bussaco, a sua casa, um dos hotéis históricos mais emblemáticos e encantadores da Europa, gizado em estilo neomanuelino como pavilhão de caça para o oceanógrafo rei D. Carlos, vítima do regicídio que viria a marcar o desfecho da monarquia em Portugal.

Os vinhos do Bussaco foram criados por Alexandre de Almeida no início do século passado. Com notável pioneirismo realizou inúmeras viagens de estudo aos hotéis mais emblemáticos da Europa e Estados Unidos, e, fruto da experiência de hotelaria entretanto conquistada, introduziu em Portugal alguns dos conceitos e práticas hoteleiras mais avançadas da época. Entre as suas múltiplas reformas insistiu que o Palace Hotel do Bussaco, enquanto grande hotel de luxo, deveria poder oferecer os seus próprios vinhos, a exemplo do que sucedia em casos idênticos pela Riviera Italiana e pela Côte d’Azur, ter a sua própria adega, constituída por vinhos locais com marca exclusiva da casa como factor de qualificação e distinção.

Numa quadra em que os vinhos de mesa engarrafados continuavam a ser a excepção, mantendo-se o vinho a granel como referência, Alexandre de Almeida projectou e materializou os vinhos do Bussaco, patrocinando o consórcio entre as vinhas da família, plantadas no sopé da Serra do Bussaco, e as uvas compradas a terceiros, escolhidas na Bairrada e Dão, transformando a cave do Palace Hotel do Bussaco na lendária adega da casa onde, continuam a repousar em sereno descanso os grandes vinhos do Bussaco.

Presentemente, apesar de persistir um eremítico exemplar de 1917, as garrafas mais antigas à disposição datam de 1923, embora não estejam acessíveis ao público. Saiba porém que na carta poderá desfrutar ainda hoje de colheitas tão antigas como 1944 nos vinhos brancos e 1945, o ano do final da segunda guerra mundial, nos vinhos tintos, bem como de muitos outros vinhos, brancos e tintos, das décadas de 50,Rui Falcao - Bussaco 60, 70, 80 e 90, até às colheitas mais recentes de 2009, nos brancos, e 2008 nos vinhos tintos.

Será fácil e quase inevitável desconfiar sobre o estado de saúde dos vinhos mais antigos, sobre a qualidade e viabilidade das colheitas mais clássicas, desconfiar sobre o potencial e patamar de envelhecimento de vinhos tão pouco conhecidos e divulgados… mormente dos vinhos brancos, aqueles que, por tradição, levantam maiores incertezas sobre a guarda. Curiosamente, e depois de uma prova vertical nas caves do Palace Hotel do Bussaco, foram precisamente os vinhos brancos que mais me emocionaram e sobressaltaram. Sem qualquer desprimor para os tintos do Bussaco, simplesmente maravilhosos, verdadeiramente assombrosos em colheitas como 1960 ou 1958, os vinhos brancos foram aqueles que me abalaram de forma irreparável.

Raramente se tem ocasião de poder provar, em qualquer parte do mundo, vinhos tão jovens e vibrantes, tão austeros e dignos, tão precisos e rigorosos como os brancos do Bussaco. Entre dois belíssimos vinhos jovens das colheitas de 2001 e 2000, diferentes no estilo mas profundamente fenólicos, minerais e densos, gigantes na estrutura, e as colheitas muito mais anciãs, de 1956 e 1955, os vinhos impressionantes pela frescura e dimensão. O final explosivo e incisivo impressiona em vinhos que se mostram ainda jovens, duros e secos, numa constância, regularidade e continuidade no estilo que raramente os vinhos portugueses conseguem alcançar.

Um ícone dos vinhos portugueses que poderia, e deveria, ser mais utilizado na promoção dos vinhos portugueses.

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Rui Falcão on March 17th, 2014

A certeza há muito que está instalada. Não deverão existir hoje dúvidas existenciais sobre a validade e superioridade da variedade Alvarinho, muito provavelmente a melhor das castas brancas nacionais e, certamente, uma das melhores castas brancas internacionais. O nome Alvarinho ganhou tamanha notoriedade junto dos consumidores nacionais que mesmo num passado recente, numa época onde pouco ou nada se sabia sobre as castas portuguesas, quando poucos ou nenhuns sabiam identificar as castas de cada região, o Alvarinho já era chamado pelo nome. Quando nomes de castas hoje famosas como a Rui Falcao - AlvarinhoTouriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz/Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet, Antão Vaz ou Arinto ainda eram alegres desconhecidas já a maioria tinha ouvido falar do Alvarinho e pedia-o pelo nome.

Num país que sempre privilegiou e continua a privilegiar os vinhos de lote, a mistura de muitas castas na mesma garrafa, o Alvarinho cedo se habitou a reinar sozinho. Num país que se acostumou a nem conhecer as suas castas e se habituou a pedir os vinhos pelo nome da região, o Alvarinho cedo se afirmou como uma excepção. Num país que se esforça por comunicar as suas excentricidades, esta ideia peregrina de fazer vinhos de lote em lugar de vinhos estremes, vinhos de várias castas em lugar de uma só casta como é habitual na maioria dos países produtores, o Alvarinho cedo se destacou pela diferença e originalidade de ser um vinho de uma só casta.

Num país que há muito se habituou a menorizar os vinhos brancos amordaçando-os sob a condição de vinhos de segunda, num país que continua a recusar pagar mais de três a cinco euros por vinhos brancos ao mesmo tempo que não se importa de pagar o dobro por um vinho tinto, o Alvarinho desde cedo se apresentou como a excepção, a cedência à evidência de qualidade e exclusividade. De forma mais ou menos segura e consistente o nome Alvarinho foi sendo paulatinamente consagrado como a referência de facto nos vinhos brancos nacionais logrando uma respeitabilidade e honorabilidade sem paralelo com as demais castas brancas portuguesas.

Tamanha projecção mediática e financeira só poderia ter como consequência natural a propagação da casta por todo o território nacional, alargando o seu raio de acção do seu Minho natural para a pluralidade do espaço territorial luso. Apesar de relativamente recente no tempo o movimento aparece como imparável e tem recrudescido em intensidade ao longo dos últimos anos, período durante o qual a área plantada tem aumentado de forma sistemática. São poucas as regiões de Portugal onde não se encontra pelo menos uma parcela experimental plantada com a casta Alvarinho e são cada vez menos os produtores e viticultores que conseguem manter-se alheados à atracção fatal do Alvarinho.

Poderíamos seguramente ponderar sobre os locais onde algumas das vinhas foram plantadas, questionar sobre se a escolha do local para a casta será a mais correcta, reflectir sobre uma eventual cedência a modas e a experimentalismos inconsequentes. Mas a realidade material é que a casta actualmente está plantada por todo o território nacional, mas também na Galiza e em outras partes do mundo, e está presente de forma ostensiva e clara em cada vez mais rótulos e contra-rótulos. Sobre isto não há nada a fazer ou sequer a lamentar.

Como não poderia deixar de ser, alguns dos Alvarinhos das novas regiões são bons, outros medianos, outros francamente desinteressantes. Como não podia deixar de ser alguns dos Alvarinhos recentes são vendidos a preços consentâneos com o prestígio da casta, enquanto outros são propostos a preços escandalosamente baratos com o risco latente de vir a deflacionar o valor da casta. Um eventual problema porque o nome Alvarinho tem tendência para sair menorizado e potencialmente desvalorizado, mas também porque os pequenos produtores da região original, os produtores da sub-região de Monção e Melgaço, incapazes de competir pelo preço, ficam com um problema entre mãos de difícil resolução.

Chegados a este ponto, e salvo prova futura que contrarie a tese, não é difícil afirmar que os melhores vinhos Alvarinho nasceram e continuam a nascer na sub-região de Monção e Melgaço. Parece-me Rui Falcão - Alvarinhofrancamente claro que a região reúne uma série de condições naturais que consagram qualidades excepcionais à casta proporcionando vinhos extraordinários que não conseguem ser replicados em nenhuma outra parte do território. O que é ao mesmo tempo uma benesse e uma espécie de maldição. Se o prestígio do nome Alvarinho foi construído à custa da qualidade ímpar dos vinhos Alvarinho de Monção e Melgaço, a verdade é que esses mesmos produtores podem sair agora directamente prejudicados pelos riscos da banalização do nome Alvarinho.

Que fazer então? Pretender proibir a utilização do nome da casta fora da região ou fora de Portugal é uma aspiração impossível e de realização impraticável por força das leis nacionais e internacionais. Restringir o uso de uma casta a uma região é algo que está fora do alcance de qualquer país ou região. Na verdade a dificuldade actual assenta precisamente no apego à utilização do nome da casta em detrimento da utilização e promoção do nome da região ou da sub-região. Se os produtores locais tivessem começado por insistir no nome da sub-região, Monção e Melgaço, em lugar do nome da casta os problemas actuais não existiriam.

Se é possível, e desejável, proteger o nome de uma região, tal como o fizeram o Vinho do Porto, Vinho Verde, Alentejo e demais regiões, não é legalmente possível proteger o nome de uma casta e restringir o seu uso, como tantas regiões internacionais o sabem por experiência própria. Mais que trabalhar na quimera de monopólio da casta a sub-região de Monção e Melgaço deveria esforçar-se no reforço do nome da sub-região mostrando aquilo que a diferencia, mostrando a Portugal e ao mundo que é capaz de produzir alguns dos melhores vinhos brancos do mundo. Porque a realidade é esta, tal como a região da Borgonha é maior que a casta Chardonnay também a região de Monção e Melgaço é maior que a casta Alvarinho.

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Rui Falcão on March 11th, 2014

Sejamos directos nas considerações. Por que razão alguém em Inglaterra, Alemanha ou Brasil se daria ao trabalho de comprar um Syrah do Douro, um Merlot da Bairrada, um Chardonnay do Tejo ou um Cabernet Sauvignon do Algarve? Por que razão um canadiano, suíço ou norueguês escolheria um vinho português de uma casta internacional quando os vinhos portugueses brilham precisamente pela Rui Falcãooriginalidade e carácter das variedades portuguesas… e os consumidores desses países têm acesso a vinhos de todo o mundo, a maioria dos quais é elaborada com alguma destas variedades internacionais?

Quando uma garrafeira ou supermercado belga exibe prateleiras repletas de vinhos de todos os países do mundo, a quase totalidade dos quais elaborados com uma das cinco grandes castas internacionais, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Syrah, Merlot ou Cabernet Sauvignon, o que poderá conduzir alguém à prateleira onde estão expostos os vinhos portugueses? Quando um consumidor irlandês entra num supermercado e vê centenas de vinhos de países do novo mundo, filas a perder de vista recheadas de vinhos da Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile, Argentina ou Califórnia produzidos com uma destas cinco castas internacionais o que o levará a escolher um vinho português?

Quando um dinamarquês olha para a brochura de um supermercado e descobre dezenas de rótulos de vinhos de países clássicos e emergentes, vinhos de países como a Roménia, Bulgária, Croácia, Brasil ou China, onde mais uma vez constam as mesmas cinco ou seis castas internacionais, o que o poderá levar a experimentar um vinho português… para além do eventual factor preço que nunca foi uma boa forma de promoção de um país?

A resposta mais provável é a lista de castas única dos vinhos portugueses, um perfil e estilo diferenciados da mediania internacional, a originalidade que caracteriza a maioria dos vinhos portugueses face à concorrência internacional. Só mesmo a singularidade, a diferença e a autenticidade poderão levar os consumidores europeus e americanos a escolher um vinho português em detrimento de um vinho de outro país. Só por milagre ou por engano, como quando os produtores portugueses baptizam os seus vinhos com nomes estrangeiros para lhes mascarar a origem, alguém em Londres, Sidney ou Tóquio irá comprar um Cabernet Sauvignon luso quando dispõe de tantas alternativas apelativas e fiáveis.

Por muito custe ouvir a temível realidade perante vinhos que se assemelhem, perante vinhos equivalente na escolha de castas e preço, a maioria optará por comprar vinhos do novo mundo, entendidos pela maioria como sendo mais seguros, consistentes, gulosos e fáceis de entender. Existem razões históricas para esta percepção entendidas pelo pragmatismo e maior liberdade que existe nos países do novo mundo em oposição ao espartilho legislativo que bloqueia a maioria dos países produtores do velho continente.

Enquanto a Europa vive sob o primado das regiões, sob uma divisão em denominações de origem, os países do novo mundo estão livres desta noção e de quase todos os constrangimentos o conceito acarreta. A consequência prática é que cada produtor pode ir comprar uvas onde bem lhe apetecer, estejam estas na vinha ao lado da adega ou a mais de setecentos quilómetros de distância, esbatendo o conceito de maus anos agrícolas e assegurando uma consistência de qualidade muito apreciados pela maioria dos consumidores. Uma consistência que se aproxima o vinho da artificialidade mas que também lhe acrescenta previsibilidade e segurança, conceitos que a maioria dos consumidores valoriza.Rui Falcão

Ora se as atenções dos consumidores estão focadas tendencialmente nos vinhos do novo mundo como poderão os vinhos portugueses competir com eles usando as mesmas armas sem disporem dos mesmos argumentos legislativos e da mesma capacidade de sedução? O que levaria um alemão a preferir um Merlot português a um Merlot chileno quando tem a certeza que o segundo será sempre bom e sem flutuações de qualidade de uma colheita para a outra? O que levaria o mesmo alemão a escolher um Syrah português em detrimento de um Syrah australiano quando ele não associa a casta a Portugal?

Por que razão então alguns produtores nacionais insistem em produzir vinhos de castas internacionais quando sabem que o seu potencial de comercialização estará restringido, na melhor das hipóteses, ao mercado interno português? Por que razão alguns produtores perdem tempo a produzir vinhos varietais de castas internacionais quando sabem à partida que os países do novo mundo conseguirão sempre produzir mais barato que na Europa, partindo derrotados ainda antes de entrar em jogo? Pior, por que razão sendo Portugal um dos países mais ricos em variedades autóctones, a maioria das quais conhecemos mal e ainda não estudámos em profundidade, privilegiamos as variedades de terceiros, as castas internacionais que todos utilizam, desbaratando assim uma das maiores vantagens competitivas dos vinhos portugueses?

Não há nada de errado em querer aproveitar algumas das castas estrangeiras que se adaptaram bem em Portugal, usando-as sobretudo em lotes. Não há nada de errado em tirar partido das mais-valias que estas possam acrescentar aos vinhos. Mas será um absurdo acreditar que a salvação poderá chegar na forma de mais um Chardonnay ou Syrah atirado ao mundo.

Estaremos mesmo à espera de conquistar o mundo com vinhos portugueses iguais a tantos outros do mundo?

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Rui Falcão on March 5th, 2014

Crise é uma palavra que não sai do léxico do dia-a-dia, uma palavra que teima em não abandonar as conversas. Por ora ainda não encontrámos forma de a conseguir contornar, de fintar os receios, compromissos e reveses que anuncia, de esconder o medo que a palavra inspira. A vida económica não atravessa o melhor momento e o mundo do vinho reflecte esta triste realidade patente na quebra deRui Falcão vendas, na obrigação da diminuição de preços, na dificuldade em escoar stocks que alguns dos produtores acumulam de forma descontrolada.

Muitos produtores continuam sem saber onde encontrar espaço por entre as cubas ainda cheias de vinhos das vindimas anteriores, oferecendo sinais claros de uma realidade adversa que muitos teimam em desvalorizar. A vida não está fácil e para combater ou adiar o fado alinham-se diferentes estratégias, das mais originais às mais previsíveis, das mais ingénuas às mais sofisticadas, das mais dispendiosas às mais frugais. Independentemente da estratégia adoptada o percurso não será fácil e alguns ficarão pelo caminho.

Porém, e se quisermos ser intelectualmente honestos, a crise pouco veio acrescentar a um sector que já apresentava sintomas de alienação da realidade ainda antes do descalabro financeiro que assolou a Europa. Em pouco mais de uma década passámos “do oito para o oitenta”. Fomos inundados por marcas novas, por novos rostos, novos produtores e novas regiões, com dezenas de nomes de castas anteriormente desconhecidas. Quisemos prosperar e assimilar numa só década o que outros países fomentaram e planearam durante meio século.

De uma só assentada as prateleiras de grandes superfícies, supermercados e garrafeiras encheram-se com centenas de novas referências ao mesmo tempo que as cartas dos restaurantes engordavam com as centenas de rótulos originais que chegavam de todos os cantos do país. Deixámos de pedir um Bairrada ou um Dão genérico para passar a pedir um vinho pelo nome do produtor ou do rótulo, querendo saber mais sobre a data de colheita, sobre o nome do enólogo, sobre as castas presentes e sobre as possíveis harmonizações com a refeição.

Um excesso de informação vivido num intervalo de tempo muito curto de assimilação quase impossível. Fomos inundados por centenas de novos produtores, dezenas de novidades mensais, prateleiras repletas por milhares de rótulos, numa fuga para a frente caótica onde o factor novidade se converteu numa necessidade incondicional, no santo graal que fazia mover enófilos, produtores, distribuição, restauração e garrafeiras.

Durante um pequeno período de tempo chegava-se ao restaurante ou garrafeira e só se perguntava pelas novidades, pelos vinhos e projectos novos esquecendo as marcas clássicas e os produtores de referência, sujeitando os rótulos clássicos a uma sorte ingrata. O que poderá ajudar a explicar a necessidade sentida por tantos produtores de diversificar a sua oferta ao máximo decompondo a produção em dezenas de rótulos e referências, embaraçando os consumidores com a exibição de milhares e milhares de rótulos nas prateleiras.

Rui FalcãoPara além das dificuldades acrescidas pela presença de incontáveis rótulos nas prateleiras a inspiração para escolher nomes de vinhos raramente transbordou. Por isso num panorama já saturado a maioria dos vinhos portugueses continuou a ser rotulado como “Quinta”, “Herdade” ou “Monte” de qualquer coisa, dificultando ainda mais a memorização de marcas. Pior, num ápice observámos que ano após ano muitos produtores descontinuavam alguns rótulos para logo erguerem novas marcas, muitas vezes com um perfil quase idêntico ao anterior. Outros preferiram subdividir os vinhos em dezenas de referências distintas… com casos pontuais de alguns produtores a achegar ao extremo absoluto de oferecer 25 rótulos distintos numa desarrumação impossível de acompanhar mesmo pelos profissionais.

Para complicar a vida ao consumidor surgiram dezenas de segmentações qualitativas, tornando impossível a arrumação qualitativa dentro do mesmo produtor. Chega-se ao cúmulo de consagrar sob o mesmo rótulo genérico vinhos distintos divididos sob os qualificativos Reserva, Grande Reserva, Reserva Especial, Premium, Top Premium e Grande Escolha. Entre tantos predicados de qualidade mais ou menos equiparáveis e de hierarquização difícil de apurar quais as melhores referências do produtor? E como será possível memorizar tantas referências qualitativas… quando as prateleiras já transbordam com rótulos de tantos outros produtores?

Será possível continuar neste caminho da multiplicação de rótulos por produtor durante muito mais tempo?

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