De burocratas todos temos um pouco. A queda para a legislação, para a normalização, para a definição de regras minuciosas sobre comportamentos e costumes, a tendência para a regulamentação de todos os detalhes da vida, faz parte da condição humana. Mas em nenhuma parte do mundo essa fúria legisladora é tão marcante como na velha Europa onde tradições e costumes amiúde se confundem com obrigações e regulamentos. Da tradição até à imposição o passo é curto e o mundo do vinho está particularmente sujeito ao peso do passado, onde as palavras tradição e imposição são interpretações que no panorama vinícola europeu rimam em sintonia.
As denominações de origem, com todos os constrangimentos associados, caracterizam a criação francesa do início da década de 30 do século passado, criação que esteve na base da maioria das legislações europeias.
As denominações de origem fundamentam-se supostamente na experiência, na observação empírica de velhos conhecimentos passados de geração em geração. Uma experiência alimentada por séculos de rotinas que identificaram castas aptas para um terroir específico e uma série quase infinita de parâmetros que forçaram a criação de regras rígidas que, em casos extremos, podem acabar por representar uma imposição aos agricultores da região. A instituição de regras determinou os conceitos de legalidade e ilegalidade, o correcto e o incorrecto, o admissível e o proscrito, partindo da experiência acumulada de séculos, alimentada pelo velho método pragmático de tentativa e erro.
Este é o modelo francês essencial, o protótipo que justificou a criação das principais denominações históricas. Quando exportado para as diferentes denominações europeias o conceito perdeu alguma da sua validade ao não cumprir os princípios base de pretender retratar experiências de séculos. Demasiadas regiões portuguesas e europeias foram criadas por simples burocratas sem experiência que de forma artificial legislaram sobre temas que desconheciam. Outras nasceram para servir interesses instalados, por vezes desenhadas em redor de adegas cooperativas, justificadas por causas económicas e políticas em detrimento da racionalidade da vinha e dos solos. É essa realidade que explica a escolha despropositada de tantas castas obrigatórias e aconselhadas ou o impedimento de castas válidas em outras denominações.
Regras europeias que, apesar das virtudes implícitas, fomentam o imobilismo e uma forte limitação comercial face a países com legislações mais liberais. No novo mundo, em países como a Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile, Argentina, Estados Unidos da América ou Canadá, os impeditivos legais e as imposições legislativas são quase inexistentes seguindo uma doutrina avessa a leis que criem demasiados limites e barreiras. Acima de tudo, no novo mundo não são aceites desculpas para maus vinhos. Como tal não existem limitações ou orientações oficiais na escolha de castas, solos, tempos de estágio, rendimentos por hectare e demais parâmetros. As regras são definidas pelo mercado, pela vontade e consciência de cada produtor. Promove-se a confiança no produtor em detrimento da confiança na região. As uvas podem chegar de qualquer ponto do país, sem limites geográficos, permitindo assim diluir o peso das condicionantes climáticas que impõem o carácter de cada colheita. Pretendem-se criar vinhos mais ou menos uniformes, consistentes, imutáveis, vinhos que permitam alimentar uma ligação de confiança e previsibilidade no consumidor.
A ousadia do livre arbítrio, a liberdade de escolha, é o conceito mais atraente do novo mundo. E é também a sua melhor arma, por permitir uma adaptação rápida à evolução dos mercados, por ser flexível, por diminuir o tempo de reacção face a qualquer ameaça. Mas também ajuda a despir os vinhos de temperamento e carácter, convertendo-os em meros produtos, sem histórias para contar, sem momentos de paixão, sem desilusões, surpresas e momentos de glória. Encontrar um ponto de equilíbrio entre a proibição europeia e o liberalismo feroz do novo mundo permitiria a criação de vinhos portugueses que tivessem origem em diferentes regiões nacionais, ou, quem sabe, em vinhos com origem em distintas regiões europeias. Porque não?
Tags: Vinho
Existem pequenas franjas marginais onde a excentricidade impera, pequenos espaços onde a criatividade e a originalidade prevalecem apimentando de forma teatral o mundo do vinho. De entre as muitas extravagâncias em que o vinho é fértil há um estilo que se destaca dos demais, singularizando-se pelo aparente absurdo da causa, pela loucura de quem conseguiu criar um vinho monumental em condições extremas e em condições de dificuldade quase impensáveis. O estilo, nascido por mero acidente no mais puro berço alemão, dá pelo nome de Eiswein, o que numa tradução livre pode ser apelidado de “vinho de gelo”.
De entre os múltiplos patamares qualitativos que segmentam o repertório qualitativo dos vinhos alemães, distribuídos nas categorias Kabinett, Spätlese, Auslese, Beerenauslese e Trockenbeerenauslese, a categoria Eiswein é aquela que suscita maiores encantos e emoções, maior curiosidade pelo insólito da operação. Chamam-se “vinhos de gelo” porque são realmente feitos com uvas congeladas e abandonadas na vinha, vindimadas muito tarde, algures entre o final de Dezembro e meados do mês de Janeiro. De um ponto de vista enológico, o conceito é simultaneamente espantoso e quase herético, enquanto do ponto de vista humano, o conceito é simultaneamente épico e árduo!
Vindimar um Eiswein implica, segundo as normativas alemãs, que as uvas cheguem à adega a uma temperatura mínima de -8ºC, obrigando que a temperatura ambiente oscile entre os -15ºC e os -20ºC, transformando as poucas vinhas que se prestam a tal fenómeno em palcos atapetados de branco, entremeados por coloridos homens Michelin que se entregam de forma dedicada à dolorosa coreografia de vindimar no gelo. Logo que dão entrada na adega as uvas são suavemente prensadas, separando a água congelada do sumo que escorre naturalmente da prensa, proporcionando mostos impressionantemente densos e concentrados.
Por a vindima poder ocorrer no mês de Janeiro, e por esta se reportar ao ano agrícola anterior, os vinhos Eiswein beneficiam de uma prerrogativa especial na lei que lhes permite que, quando vindimados no mês de Janeiro, possam estampar a data de colheita referente ao ano anterior.
O rendimento na vinha bem como os riscos associados à operação são pesadíssimos, fazendo com que os custos atinjam valores estratosféricos. Primeiro as vinhas terão de ser abandonadas à sua sorte, confiando que ocorra a infecção com o fungo botrytis cinerea, suplicando que a infecção não se converta em podridão cinzenta numa linha que por vezes é demasiado ténue. Nesta primeira etapa, se tudo correr pelo melhor, o produtor perde cerca de 40% da produção. Depois, é indispensável proteger cada linha da vinha com redes, evitando que a colheita seja perdida para o apetite voraz de estorninhos, melros e restante passarada. Finalmente, é preciso assegurar que as uvas se mantenham sadias e confiar que as condições naturais para que as uvas congelem se cumpram, com descidas de temperaturas súbitas e drásticas. Por década, raros são os produtores alemães que conseguem oferecer mais de três a quatro edições dos seus raros e prezados Eiswein!
Curiosamente, e apesar de atingirem os píncaros da crítica e da excelência e de serem obscenamente caros, os Eiswein provêm por regra de vinhas sitas nos piores terroirs de cada região, de vinhas incapazes de produzir vinhos de excelência em condições normais. Vinhas sombreadas, com maturações tardias, revelando enormes deficiências de açúcar, com níveis de acidez excessivamente elevados para poder proporcionar um vinho equilibrado em circunstâncias normais. Condições que por milagre num Eiswein transformam-se na receita perfeita para temperar os excessos da viscosidade do açúcar, refrescando e retemperando os Eiswein com níveis de tensão e frescura irrepreensíveis. Um exemplo de como o homem pode transformar uma adversidade da natureza numa obra sublime.
A categoria Vinhos de Mesa foi encarada desde o início como um simples entreposto de vinhos menores, espaço destinado para albergar sobras e vinhos desenquadrados das regras mais austeras dos vinhos DO e Regionais, prevista para arrumar o mundo dos vinhos a granel, do vinho em garrafão, dos vinhos indistintos.
De repente, e por iniciativa europeia, os vinhos de mesa que durante décadas foram atropelados e repudiados ganharam de vez a possibilidade de manter uma existência digna. Segundo as regras comunitárias, de
transposição obrigatória mas adaptável à realidade nacional, os vinhos de mesa passaram a poder ostentar data de colheita e indicação de castas, propriedades até hoje recusadas a esta classe. Ganham os consumidores, ao poderem datar o vinho e distinguir e identificar as castas do lote, tal como ganham os produtores dos novos vinhos ao abolir algumas das restrições que limitavam o vinho europeu face à concorrência dos países do novo mundo.
Aparentemente, o futuro apresenta-se esperançoso e sorridente. Porém, não consigo esconder algumas interrogações, sem por isso duvidar da bondade e necessidade da lei. As dúvidas podem resumir-se a uma simples questão – quem certifica os vinhos de mesa? Quem certifica que o ano de colheita impresso no rótulo é verdadeiro e quem assegura que as castas indicadas no contra-rótulo são autênticas, estão presentes… e nas proporções indicadas?
O IVV (Instituto do Vinho e da Vinha), entidade certificadora do Vinho de Mesa, não tem capacidade nem vocação para o fazer. Não dispõe do pessoal suficiente nem de um cadastro da vinha nacional suficientemente exaustivo que lhe permita realizar tal tarefa.
Quem então deverá então assumir tal competência? Como poderão as Comissões Vitícolas Regionais implementar uma fiscalização eficaz quando os vinhos a aprovar poderão resultar de um lote de diversas regiões? Um Vinho de Mesa elaborado com uvas provenientes da Bairrada, Douro, Alentejo, Ribatejo e Algarve será certificado por quem? Quantas regiões possuem cadastros das vinhas suficientemente actualizados para poder permitir certificar a origem e autenticidade das castas?
Poderá até parecer uma questão menor mas a situação levanta a possibilidade real de virmos a ser assaltados pelo drama da invasão e proliferação de vinhos baratos, muito baratos, de datação, origem e autenticidade duvidosa. Sem regulação e fiscalização séria podemos vir a ser inundados por vinhos Alvarinho e Touriga Nacional vendidos a pouco mais de cinquenta cêntimos por litro. Um drama latente que poderá destruir de forma instantânea o trabalho de décadas, num abastardamento e apropriação das melhores castas nacionais por parte de produtores menos escrupulosos.
No passado conseguimos destruir mercados e arruinar a reputação de regiões inteiras exportando vinhos “Reserva” e “Garrafeira” imbebíveis… a pouco mais de cinquenta cêntimos. Estaremos agora na disposição de evitar os erros do passado?
Tags: Vinho
Os produtores hospital e os produtores instituições de solidariedade social continuam a ser uma das grandes originalidades alemãs. São produtores antigos, muitos deles de prestígio, instituições de solidariedade social fundadas por notáveis, velhos produtores beneficiários de doações testamentárias que ainda hoje continuam a viver das receitas proporcionadas pelo vinho para financiar e manter a sua acção social. Por estranho que tal possa parecer em pleno século XXI alguns destes produtores de origem medieval continuam a sobreviver nos nossos dias, ainda hoje dependentes do negócio do vinho para o financiamento das suas obras sociais.
Os quatro produtores mais famosos repartem-se de forma equitativa pelas regiões de Mosel e Franken. E é precisamente na região de Mosel que reside o produtor Stiftung St. Nikolaus Hospital, fundado em 1458 pelo Cardeal Nikolaus Cusanus von Kues, instituição que funciona como hospital homónimo, casa de apoio a doentes, pobres e idosos. Ao longo dos séculos, graças às doações de muitos beneméritos, foram sendo acrescentas ao espólio do produtor pequenas parcelas dispersas de vinha que hoje já perfazem cerca de quinze hectares, afirmando-se como a única e rica fonte de receita do hospital privado. O envolvimento da comunidade é tão grande que até o engarrafamento continua a ser feito pelos pacientes em reabilitação, aproveitado como ferramenta complementar de terapia.
Ainda mais famoso é o Friedrich-Wilhelm-Gymnasium, também em Mosel, produtor que administra cerca de oitenta hectares de vinha e que sempre funcionou como escola elementar e secundária para crianças de ambientes sociais desfavorecidos. Fundada em 1563, continua hoje a ser exclusivamente financiada através das receitas do vinho.
O produtor e hospital Juliusspital, fundado em 1576, segue o mesmo modelo económico e social produzindo hoje quase um milhão de garrafas… exactamente na mesma adega original… que foi inaugurada em 1576! Talvez ainda mais espantoso é o Bürgerspital zum Heiligen Geist, hospital fundado em 1319 e dono de 120 hectares de vinha, o que o converte no maior produtor da região de Franken, naquele que é um dos hospitais privados mais modernos da região.
Orgulhamo-nos de possuir uma ligação profunda com o vinho, de Portugal ser um país de tradições vínicas arreigadas e memórias vastíssimas onde o vinho é parte integrante da cultura popular e erudita. Conceber Portugal sem vinho é algo tão improvável como imaginar a República Checa sem cerveja ou a Escócia sem Whisky. Ao longo de séculos moldámos a nossa civilização em redor do vinho, da agricultura à gastronomia, da arte à religião, numa aliança íntima e indissociável entre natureza e vinho, entre o homem e a terra, entre o mundano e o filosófico.
Durante séculos o vinho foi encarado como alimento do corpo e da alma, encarado com naturalidade, sem teorizações excessivas ou visões transcendentais. Habituámo-nos a beber o vinho às refeições com a alegria e a simplicidade de quem aceita uma ligação natural, com a espontaneidade de quem aceita que o vinho é um desinibidor social. Convivemos durante séculos de forma desafectada, bebendo vinho diariamente, tirando prazer da sua companhia, sem exacerbarmos a sua relevância. Em tabernas, em tascas ou à mesa, conseguimos manter uma convivência saudável com o vinho, numa fraternidade e cumplicidade quotidianas.
E depois… quase sem explicação, em menos de uma geração perdemos muitas das ligações afectivas do passado com o vinho! Deixámos de o beber no dia-a-dia e passámos a querer dissecar o vinho com demasiada intelectualidade, a sacramentalizar e complicar o que deveria ser simples e prazenteiro. Enquanto muitos outros países começaram o seu processo de aprendizagem e democratização do vinho, Portugal deu início ao sentimento de confusão e pudor! Um sentimento de vergonha assente num falso sentimento de progresso que começou a questionar a legitimidade de anos de cultura popular, afastando-nos do vinho e dos seus pretensos problemas.
Enquanto grande parte do mundo ocidental se rendia ao vinho, ao consumo do vinho dentro e fora das refeições, acostumando-se a pedir um copo de vinho na esplanada, em bares e cafés, servido em bons copos, os portugueses abandonaram por completo tal hábito. Acanhados pela suposta má fama das tascas do passado, passámos a fugir do vinho a copo como o diabo foge da cruz como que criando um constrangimento colectivo num modelo onde as tradições do passado, boas ou más, são abandonadas e apagados da memória colectiva.
Beber vinho a copo fora das refeições passou a ser razão para uma condena social, sinal exterior de ignorância e de falta de modernidade. Os poucos que perduraram na tradição refugiaram-se na intelectualidade, discutindo à exaustão castas, podas, tipos de madeira de estágio, leveduras, enriquecendo o vinho com centenas de descritores aromáticos, refugiando-se num mundo aparte e sem a simplicidade do prazer. Perdemos o respeito pelo vinho, ora troçando sobre o seu consumo, ora teorizando em demasia sobre as suas características e qualidades.
Só isso explica que nenhum português se lembre de pedir um copo de vinho numa esplanada, bar ou café. Os poucos wine bar nacionais encontram-se regularmente às moscas, ocupados maioritariamente por estrangeiros de visita a Portugal. E, no entanto, sempre que viajamos a qualquer outro país europeu apercebemo-nos da trivialidade do gesto, da banalidade e costume de beber vinho fora das refeições. Sem discursos presunçosos ou elitistas, sem demasiadas sofisticações, apenas pelo prazer do momento, pelo gozo de acompanhar uma conversa reconfortado na companhia de um bom vinho.
Durante quantos anos mais teremos de assumir as supostas vergonhas do passado, refugiando-nos em pretensas sapiências para desfrutar de algo tão simples e prazenteiro como o vinho?
Tags: Vinho
Colares é um caso exemplar e consumado de romantismo puro, um equívoco mais que perfeito, um monumento à perseverança do homem mas também um hino à loucura e à irracionalidade. Aparentemente, nada faz sentido em Colares e o desafio à lógica é uma constante da denominação. O que poderia ter levado alguém a plantar vinhas em chão de areia solta, com o chão firme a tamanha profundidade? O que poderia ter levado alguém a plantar vinhas num clima de influência atlântica tão extremada? O que poderia ter levado alguém a apostar nas castas tintas num clima tão fresco e húmido, surpreendido por neblinas permanentes, com tão poucas horas de sol diário? O que poderia ter levado alguém a eleger uma casta tão caprichosa como o Ramisco, de maturação tardia, numa região de clima fresco? O que poderia ter levado alguém a plantar vinhas num dos locais mais
ventosos e agrestes da costa, a meia dúzia de metros do temível embate do Atlântico?
Racionalmente, Colares é um perfeito contra-senso. Os resultados, de acordo com a lei das probabilidades só poderiam ser calamitosos, desastrosos nos vinhos ali produzidos. No entanto, num desafio a toda a lógica e coerência racionais, os vinhos de Colares encontram-se entre os vinhos mais interessantes e temperamentais do mundo. Afirmo-o não como uma simples declaração de paixoneta mas por convicção, assente na enorme complexidade e personalidade dos vinhos de Colares, na magia de descobrir vinhos intemporais, francos e complexos, de recorte fino e expressão dura, vinhos clássicos que conseguem ser simultaneamente rudes e elegantes.
Uma visita a Colares é suficiente para explicar as incoerências da denominação… e as dificuldades da localização. Vinhas velhas, quase sempre centenárias, plantadas em solos arenosos de areia fina e solta, com solos que por vezes se encontram a mais de seis metros de profundidade. Por se situar junto ao mar, presa fácil dos fortes ventos marítimos, a vinha tem de adoptar uma condução quase rastejante, condição necessária para conseguir sobreviver à severidade marítima. Apesar da condução rasa, para a sobrevivência da videira são necessárias pequenas paliçadas de canas dispostas de forma intervalada pelas vinhas, expedientes que funcionam como barreiras naturais à fúria dos vendavais.
Mas, por assumirem uma condução rasteira, os cachos ficam em contacto com o chão de areia quente, o que obriga que cada cacho tenha de ser suavemente alçado com uma cana, cacho a cacho, numa operação cara e demorada. Se a tudo isto somarmos uma casta tão difícil como a Ramisco, com uma produtividade ridícula, uma acidez pungente e uma maturação tão tardia, uma casta que tem de desenvolver um esforço notável para conseguir amadurecer, percebe-se que Colares tem tudo contra si! Até mesmo a sua localização junto a Lisboa, à praia e à Serra de Sintra, num dos pedaços de costa mais apetecíveis para a construção de casas e hotéis.
No entanto Colares oferece vinhos encantadores, vinhos autênticos que combinam uma certa dose de ingenuidade com um carácter peculiar. São jóias vivas do nosso património, vinhos originais e de uma autenticidade e identidade espantosas. Claro que, por serem tão diferentes, costumam ser incompreendidos, por vezes injustiçados. Têm pouca ou nenhuma fruta e costumam apresentar-se terrosos, salinos, com pouco álcool, secos e duros, ao revés das tendências contemporâneas. Mas podem ser brilhantes, infinitamente superiores ao que poderíamos esperar face a tamanha adversidades.
Paixão, paixão e mais paixão, esta é a palavra indispensável no léxico do vinho e da gastronomia, o substantivo mais reiterado, mencionado em cada intervenção, repetido até à exaustão cada vez que se conversa sobre o vinho
e os seus protagonistas, sejam eles o produtor, o enólogo, o viticultor ou o próprio autor da crónica, quando se refere ao seu amor pelo vinho.
A paixão é óptima e mais que desejável. A paixão move mundos e incendeia a alma, solta a imaginação, é poderosa e arrebatadora. Num mundo perfeito a paixão deveria estar patente em todas as actividades a que nos dedicamos, intelectuais ou práticas, pessoais ou académicas, na actividade profissional ou nos interesses que abraçamos nos tempos livres. Mais que um chavão gasto que mencionamos a todo o instante a paixão deveria ser uma convicção.
A paixão, porém, apesar de obrigatória, como em todos os cometimentos da vida, não é suficiente para sustentar um negócio. Os dois únicos mundos que se alimentam da paixão, por si só, e que em muitos casos não é mais que um subterfúgio para a palavra ego, são o vinho e a restauração, onde é raro encontrar uma postura séria na procura de conhecimento e onde palavras pesadas como trabalho, investigação ou suor costumam ficar esquecidas em prol da poesia da paixão platónica. Até porque a paixão costuma ser passageira, entendida como um sentimento doloroso e patológico, capaz de nos fazer perder a identidade e o poder de raciocício.
Paixão, sim, é um sentimento indispensável e, felizmente, costuma estar presente de forma eloquente no vinho… mas não é, de todo, suficiente. Desengane-se quem pensa que a paixão é tudo e que o trabalho e o conhecimento são simples acessórios a acrescentar à contínua evocação da palavra paixão.
Tags: Vinho
A crise que nos assola não chegou do vazio. Há muito que os sinais económicos anteviam a aproximação de tempos difíceis, tempos de incerteza e apreensão. Com maior ou menor dramatismo pessoal, a verdade é que a crise assomou de vez, despontando para uma nova realidade cujas consequências ainda não podemos prever na sua plenitude.
No entanto, e apesar da crise financeira dramática a que poucos conseguem escapar, quando contemplamos o preço de muitos dos vinhos expostos nas prateleiras de garrafeiras e supermercados os exemplos de vinhos oferecidos a preços insensatos abundam. Num simples passear de olhos percebe-se que a barreira mágica dos 40 euros passou a ser encarada como um referencial mínimo “qualitativo” para deze
nas de produtores. A escolha de palavras, referencial mínimo “qualitativo”, não é fortuita, reflectindo de forma rude mas objectiva a lógica viciada do mercado. Infelizmente, a propensão para estabelecer uma associação directa entre preço exorbitante e qualidade elevada é uma tendência humana que nós, europeus do sul, gostamos de valorar. Como se um vinho, só por ser caro, ganhasse de imediato, e por inerência, um estatuto de qualidade e originalidade.
O que, evidentemente, não traduz que alguns vinhos tenham de ser caros… ou, numa afirmação politicamente incorrecta, que alguns mereçam ser caros. Por vezes, e em casos pontuais, os preços elevados são justificáveis e inevitáveis. Estão nesta condição os vinhos de produção difícil e muito limitada, vinhos de uma vinha verdadeiramente excepcional e singular, vinhos de qualidade inexcedível e universalmente reconhecível, vinhos de qualidade marcante e constância histórica palpável, vinhos com um elevado potencial de guarda, previsto ou documentado, vinhos que provaram o seu valor e consistência ao longo de muitos anos e muitas colheitas.
O que é certamente incompreensível é que vinhos sem história, sem passado, sem um registo mínimo de consistência e qualidade, sejam de imediato posicionados perto ou acima da fasquia dos 40 euros. O que é certamente incompreensível é que vinhos de vinhas jovens e imberbes possam ser propostos a preços proibitivos e indecorosos. O que é certamente incompreensível é que vinhos de tiragem limitada por opção própria, de produções diminutas por simples definição estratégia de mercado, sejam propostos a preços elevados! O que é certamente incompreensível é que, num esforço para justificar preços tão elevados, se cometam tantos excessos e atropelos de enologia, tanta extracção, tanto peso, tanto volume, tanto álcool, tanto… de tanto! O que é certamente incompreensível é que vinhos de fogo-fátuo, vinhos sem capacidade de guarda, vinhos efémeros e postiços, possam ser vendidos a preços tão desregrados e artificiais.
Infelizmente, os vinhos troféu, megalómanos no preço e na ambição, ainda ocupam uma fatia relativamente dilatada da oferta nacional, numa atracção simultaneamente suicida e autista do mercado. Fazem-se por expectativas de mercado delineadas sob o mais puro amadorismo, por estratégias de mercado definidas em distantes gabinetes de marketing e, sobretudo, por vaidade e satisfação de um ego, por arrastamento e réplica directa ao que o vizinho propõe… mesmo quando as realidades entre projectos e propriedades confinantes são em tudo divergentes.
Fazem-se, porque num mundo tão aguerrido e competitivo, muitos produtores acreditam genuinamente que só serão levados a sério, pelo público e pela crítica, se exibirem no catálogo um vinho no limiar ou acima dos 40 euros, preferencialmente engarrafado numa garrafa imponente e ultra pesada. Pura ilusão! Esta é a seguramente a melhor estratégia para destruir uma marca, maltratando os consumidores e entrando em descrédito perante a crítica especializada. E o mercado raramente perdoa deslizes destes.
Tags: Vinho
Santorini ergue-se áspera das águas azuis e cristalinas do mar Egeu num dramatismo estonteante. Na ilha sobrevivem os testemunhos vivos de um passado geológico tumultuoso que reverteu, há cerca de 3.500 anos, na explosão trágica de metade da ilha. Os ecos da distante erupção vulcânica mantêm-se ainda hoje perceptíveis nas fumarolas que se erguem das pequenas ilhas adjacentes, na enorme caldeira central inundada, na crónica falta de água doce, nos solos vulcânicos paupérrimos, despidos de vegetação e matéria orgânica, assolados pelos temíveis e recorrentes ventos do mar Egeu.
E no entanto é aqui, na paradisíaca e simultaneamente inóspita ilha de Santorini, que nascem alguns dos vinhos brancos mais excitantes do mundo. Dispersas pelo interior de Santorini subsistem hoje mil hectares de
vinhas muito velhas, a maioria centenárias, isoladas no pequeno mundo rural que ainda não foi tomado pela sofreguidão de hotéis e agentes turísticos que enchem a ilha. É aqui, neste ambiente adverso e quase estéril onde nem as ervas daninhas conseguem sobreviver, que perdura uma das mais interessantes castas brancas do planeta, a Assyrtiko, variedade indígena da ilha. Uma casta impulsiva e com temperamento de Diva, difícil… mas irresistível! É reconhecida pela acidez eléctrica, pelo corpo cheio e pela enorme frescura, pela mineralidade e pela quase ausência de aromas primários de fruta.
Poderá até não impressionar muito. Mas é precisamente essa acidez felina, o volume, o álcool e o extracto seco que lhe proporcionam condições naturais para crescer em garrafa durante décadas, condição pouco habitual nos vinhos brancos mediterrânicos. Subtileza e veemência, dois conceitos que raramente viajam em parceria, são os dois grandes predicados do Assyrtiko, proporcionando vinhos excitantes que renovam a fé humana no conceito de terroir.
Como é que as vinhas de Assyrtiko conseguem sobreviver na aspereza de Santorini, sem água, persiste um mistério insondável. O solo vulcânico despido de vegetação, sem matéria orgânica, numa paisagem ventosa e quase lunar, não aceita outras colheitas que não a vinha. De tão pobre, seca e estéril, Santorini nunca foi acometida por qualquer doença da vinha, mantendo-se imune aos efeitos do míldio, oídio, podridão e filoxera! Por isso as vinhas centenárias da ilha mantêm-se plantadas em pé-franco, sem porta enxertos, numa ilha onde o uso de pesticidas nunca foi necessário! Cultura orgânica no estado mais puro e exacerbado! Que uns quantos produtores meio loucos perdurem nesta aventura de fazer vinho em Santorini, sob condições tão difíceis, é uma ventura.
Três produtores destacam-se claramente na legião de pequenos produtores da ilha, Sigalas, Gaia e Boutari, aqui e ali acompanhados pelos ditosos vinhos da Adega Cooperativa de Santorini. E no final do dia pode sentar-se a beber um dos vinhos mais assombrosos do mediterrâneo, o Vinsanto de Santorini (sem parentesco com o Vin Santo italiano), um vinho licoroso e estruturado, criado com as preciosas uvas da casta Assyrtiko, vinhos evocativos dos velhos Moscatel de Setúbal… com uma acidez e frescura desconcertantes.
Caso raro no mundo, no Douro convivem lado a lado duas denominações de origem, Vinho do Porto e Douro, partilhando as mesmas vinhas e o mesmo espaço físico. Dois estilos radicalmente distintos que convivem nas mesmas adegas, nas mesmas casas, unindo dois universos que concorrentes e potencialmente discordantes entre si. Dois mundos distintos que, apesar de manterem alguns pontos óbvios de comunhão, nem sempre são fáceis de conciliar ou harmonizar, nem sempre são facilmente compatíveis, nem sempre são conciliáveis.
Os riscos são relevantes, particularmente evidentes na carência de uvas de qualidade em quantidade suficiente para alimentar dois vinhos únicos, exigentes na excelência da matéria-prima. Mas o maior risco para a região, o mais pernicioso para o futuro do Vinho do Porto, é a falta de novas vocações para a causa do Vinho do Porto, a falta de interesse, a apatia generalizada dos novos produtores pelo Vinho do Porto, a falta de vocação de enólogos, consagrados e emergentes, para se dedicarem ao Vinho do Porto.
As razões são facilmente compreensíveis e até expectáveis. Afinal, têm sido os vinhos do Douro a agitar as marés, a trazer emoção e novos caminhos ao Douro. Têm sido os vinhos o Douro a fazer-se falar, a aparecer nas revistas, a apresentar-se como a nova coqueluche da imprensa nacional e internacional. E o Vinho do Porto, acompanhando a tendência global para uma sociedade light que penalizam o consumo de vinhos fortificados, vive um momento de dormência, de latência, pouco propício aos holofotes mediáticos.
A tendência é compreensível… mas é profundamente errada! Porque a vida não se vive num só dia, porque as modas são efémeras, porque o Douro não pode sobreviver sem o Vinho do Porto. Mas também porque o Vinho do Porto, a par do Vinho da Madeira, é o único vinho português verdadeiramente internacional, a grande porta de entrada nos mercados externos, a chave que serviu para a internacionalização do Douro. Desbaratar três séculos de uma história brilhante é um pecado que simplesmente não podemos cometer. Desprezar um património ímpar, esquecer práticas, conhecimentos e tradições, desperdiçar uma geração inteira, é um erro que não podemos cometer. O futuro não se constrói ignorando o passado.






