Rui Falcão on December 17th, 2009

Confesso, estou absolutamente rendido ao fascínio intelectual e prazenteiro do Vinho da Madeira, um dos vinhos que mais me entusiasma, emociona e transtorna. Na Madeira tudo é único, irracional, desmedido e paradoxal, tudo é aparentemente louco e despropositado… toleimas Madeira e Champagneque os próprios vinhos da Madeira se encarregam de refutar de forma categórica. Vinho da Madeira que é, acima de tudo, um vinho erudito, um vinho espiritual e imortal, desafiador dos sentidos e da racionalidade. Um vinho singular que obriga a inúmeras reflexões e ponderações intelectuais. Por ser tão diferente, tão alternativo e contraditório, o Madeira abala todas as certezas e teorias convencionais, forçando à construção de novas premissas e considerações, impondo interpretações e conjecturas alternativas.

No Vinho da Madeira, o elemento chave é a acidez pungente. Sem ela, sem essa acidez viperina, o Vinho da Madeira simplesmente… nunca teria existido. Por isso existe um concubinato tão íntimo entre o Vinho da Madeira e os vinhos de Champagne, entre dois dos vinhos mais extremados do planeta, entre dois vinhos simultaneamente tão coincidentes e tão discordantes como o Madeira e o Champagne. No início, nos fundamentos filosóficos da vida, tudo os aproxima, tudo os une. No final, nas consequências, tudo os separa e diferencia! Em comum usufruem de uma acidez veemente e impetuosa, indispensável para a existência dos dois vinhos, bem como de níveis de açúcar rasteiros que dão origem a vinhos de base irritantes e profundamente desagradáveis. No início de vida, antes da mediação humana, os dois vinhos não poderiam constituir maior desastre, apresentando-se imbebíveis por si só.

Porém, tal como em Champagne, também na Madeira o vinho sofre uma metamorfose extraordinária que o transforma para sempre. E é aqui que os caminhos traçados pelos dois grandes vinhos divergem no estilo e na aproximação. Enquanto que em Champagne a transfiguração fundamenta-se na segunda fermentação em garrafa, com a fermentação e maturação a ocorrerem em condições de temperatura muito baixas, no Madeira a transmutação firma-se na fortificação e posterior estágio e maturação em temperaturas muito elevadas, suficientes para condenar todos os vinhos a morte certa. Porém, nos dois casos, Champagne e Madeira, é precisamente a acidez mordaz e extravagante que os caracteriza que os ampara e agasalha, sustentando-os e protegendo-os durante a difícil metamorfose por que têm de passar. Sem o peso e o alicerce dessa acidez estruturante que tanto os maltrata nos primórdios da vida, os dois vinhos estariam condenados a uma irrevogável sentença de morte.

Não será esta uma suprema ironia da vida, a coincidência que permite que dois dos maiores vinhos do mundo floresçam assentes, precisamente… numa tremenda falha da natureza, nascidos e engrandecidos por um profundo desequilíbrio de compleição, uma equívoco que o homem soube contornar a seu proveito? Sim, os Madeira são mesmo vinhos grandiosos, vinhos intelectuais e iluministas, nascidos do génio do homem!

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Rui Falcão on December 3rd, 2009

A experiência ensina-nos a ser sóbrios e racionais. Ensina-nos a relativizar, a ter sensibilidade para os detalhes, a ter uOs melhores do anoma visão mais ampla e abrangente, a olhar para as pequenas singularidades que caracterizam os vinhos excepcionais. A experiência assiste-nos em distinguir entre um vinho com alma e um vinho tecnicamente irrepreensível. Faculta uma visão que se situa para além do intuitivo e do imediato.

A aprendizagem do vinho, como todas as grandes aventuras do conhecimento, é um percurso infindável feito de pequenos passos, de pequenas conquistas, de pequenas glórias, de grandes fracassos, de dúvidas e inquietações. Implica esforço, empenho sólido, labor árduo, estudo permanente, desideratos só possíveis por quem sinta verdadeira paixão pelo tema. Mas, acima de tudo, a experiência aconselha-nos humildade, discrição e pudor, talvez os qualificativos mais difíceis de abraçar no mundo do vinho, um mundo pejado de egos e presunções.

Esta escolha, a dos dez melhores vinhos nacionais, é uma escolha pessoal que transmite de forma clara o estilo de vinhos que mais me emocionam e desassossegam. É a minha confissão anual, a revelação e exposição dos meus gostos pessoais, a catarse que revela as minhas preferências íntimas. É aqui que assumo o meu gosto pessoal, que desapego o meu gosto individual da tentativa de crítica fria e analítica que qualifica este espaço. Este é o meu foro privado, e estes são os vinhos que mais me entusiasmaram ao longo deste ano.

O facto de este ano ser consagrado como declaração clássica de Vinho do Porto Vintage, determinou que a lista dos dez melhores tenha transbordado com três Vinhos do Porto absolutamente excepcionais. Não por acaso, três dos outros nomeados são vinhos brancos, de três regiões distintas, sinal inequívoco da crescente relevância quantitativa e qualitativa dos vinhos brancos nacionais. Os restantes indigitados, quatro vinhos tintos, provêm maioritariamente da colheita 2007, ano excepcional no Douro, ano muito bom no Dão. Por oposição, este ano não aclamei qualquer vinho do Alentejo, consequência natural de duas vindimas consecutivas pouco felizes na região, os anos de 2006 e 2007.

Os vinhos são apresentados pela ordem alfabética das regiões e, dentro de cada região, pela ordem alfabética dos nomes comerciais.

 

VINHOS NACIONAIS:

  • Luis Pato Vinha Formal 2008 (Beiras) – A história de um vinho branco que consegue ser simultaneamente brutal e delicado, carnudo e fresco, entroncado e polido. O triunfo de uma vinha, a exultação de uma casta! A confirmação de uma escolha. Instintivo!
  • Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador branco 2008 (Dão) – Um corpo pesado, austero, duro e denso que, como que por artes mágicas, termina elegante, enxuto e fresco, pujante mas galante. Intransigente!
  • Pape 2007 (Dão) – A austeridade e sobriedade entendidas como virtude. A serenidade dos grandes momentos. Potência contida e urbana, embrulhada num manto de rusticidade. Um punho de aço numa luva de veludo. Tensão!
  • CV 2007 (Douro) – O ritmo é endiabrado, o compasso acelerado, a métrica prestíssimo, mas a melodia é morna e suave, numa cadência elegante que alterna entre rimas e dissonâncias. Um tinto sentimental! Afectuoso!
  • Quinta do Vale Meão 2007 (Douro) – A precisão e rigor matemáticos levados ao extremo. A sedução da fruta e o triunfo da elegância. A natureza selvagem do Douro também pode ser domada pelo homem. Meticuloso!
  • Ex Aequo 2006 (Estremadura/Lisboa) – Harmonia, serenidade, paz, simetria e ordem. A hipérbole da tranquilidade Zen num vinho melódico, rítmico, lírico, arrumado e retemperador. Graciosidade!
  • Soalheiro Reserva 2007 (Vinho Verde) – A perfeição ao alcance do homem. Frescura, ritmo, mineralidade, tensão e amplitude. A maturidade de um produtor e de uma casta. O triunfo da razão e do coração. Excelência!
  • Dow’s Vintage 2007 (Porto) – A intemporalidade e riqueza do génio humano. Cavalheirismo exacerbado. Músculo e sensibilidade convivendo em suave harmonia. A graça da natureza trabalhada pelo homem. Sumptuoso!
  • Graham’s Vintage 2007 (Porto) – Sedução pura. Luxúria e lascívia num vinho namoradeiro. Beleza e elegância de mãos dadas com racionalidade e erudição. Pura poesia romântica. Deslumbrante!
  • Fonseca Vintage 2007 (Porto) – Pontos e contrapontos, dramatismo e reviravoltas, harmonia e sobressalto. Dureza e tenacidade entremeados com suavidade e doçura. Estrutura, frescura e textura arrebatadoras. Descomunal!
Rui Falcão on October 28th, 2009

Demorou… mas chegou! A partir de hoje, dia 28 de Outubro, poderá encontrar o Guia de Vinhos Rui Falcão 2010 numa livraria perto de si, num livro que surge com um grafismo renovado que irá permitir, espero, uma leitura mais desafogada.

Guia Vinhos Rui Falcao 2010

Assumi, pelo sétimo ano consecutivo, o imenso desafio de escrever um guia de vinhos. Ainda não será muito como curriculum, mas será certamente um princípio de lastro. Escrever e produzir um guia de vinhos não é tarefa fácil. O esforço físico de provar milhares de vinhos num curto espaço de tempo representa um cometimento simplesmente brutal. A atenção, rigor e concentração exigidas, bem como o esforço intelectual de escrever tantas notas de prova, é absolutamente esgotante. As horas intermináveis de prova, os cuidados com a alimentação, os milhares de notas de prova escritas e transcritas, a concentração escrupulosa e a responsabilidade de proceder a uma avaliação rigorosa, obrigam a um rigor e disciplina quase militares. Infelizmente, e apesar de me obrigar a essa enorme disciplina, sei que a imparcialidade absoluta é assunto que está para além da condição humana. Resta-me apenas lutar por assegurar uma integridade irrepreensível.

Não é fácil assegurar que um Guia de Vinhos se apresente simultaneamente oportuno, bem escrito, prático, útil e imparcial. Para ser proveitoso, terá de ser escrito por alguém que possua um conhecimento profundo e exaustivo do tema. Um outsider, alguém que viva apartado do dia a dia do vinho, poderá, alegadamente, possuir e assegurar uma postura mais descomprometida e independente. Terá, porém, dificuldade em compreender e apreender os pequenos detalhes, os porquês, as razões para as angústias do passado e do presente, as perspectivas de futuro e as nuances de cada região. Porque avaliar um vinho não deve ser uma tarefa momentânea, um retrato instantâneo, uma percepção estática de um momento único no tempo. Ajuizar e julgar um vinho num guia de vinhos deve ser um processo dinâmico que requer acompanhamento constante e continuado no tempo.

Como na minha vida profissional tenho a ventura de poder ultimar diferentes provas verticais, e por acreditar que esta informação é particularmente relevante e interessante para os leitores por abonar uma imagem clara e conclusiva sobre a qualidade e consistência de cada produtor, decidi publicar os resultados de 26 provas verticais efectuadas ao longo do ano.

São cerca de 4.000 notas de prova que, para além de vinhos nacionais de todas as regiões, congregam ainda apreciações sobre vinhos alemães, argentinos, australianos, austríacos, chilenos, espanhóis, franceses, húngaros, italianos e neozelandeses.

Boa leitura!

Guia Vinhos Rui Falcao 2010

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Rui Falcão on July 25th, 2009

O conceito teórico é claro e intuitivo, e a provocação, essa… é quase irresistível! Quem tem uma marca sonante, um nome prestigiado, reconhecido e com bom valor de mercado, sofre periodicamente com a tentação de rentabilizar esse capital, com a comicMuralhas de Monçãohão de rentabilizar um nome.

No mundo do vinho, tal como em todas as áreas da economia real, essa tentação é palpável e verificável no dia a dia das empresas. Afinal, com os custos, perigos e incertezas de estabelecer uma nova marca, porque não socorrer-se do prestígio de um nome feito para lançar uma marca nova, um rótulo novo, um vinho novo? A estratégia parece infalível e tem ganho novos adeptos ao longo dos últimos anos.

Porém, e há sempre um “mas” em todas as premissas, para que a estratégia possa funcionar, tal como qualquer aluno de marketing o pode afiançar, é compulsivo que os produtos a vender, tenham qualidade similar. Quem decidir utilizar tal estratégia para lançar um vinho de qualidade inferior, sob a sombra protectora do vinho prestigiado, arrisca-se a banalizar e destruir o nome dos dois vinhos.

Por isso me faz tanta confusão ver uma referência nacional como o Muralhas de Monção ser agora banalizado por um vinho rosado que ostenta o mesmo nome, acompanhado por um vinho espumante que também dá pelo título de Muralhas de Monção. Seria um golpe de génio da Adega Cooperativa de Monção se as duas novas referências estivessem no mesmo patamar qualitativo do Muralhas de Monção… mas, infelizmente, não estão!

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Rui Falcão on July 1st, 2009

Os ideais clássicos e arrebatados do romantismo permanecem intimamente associados à lírica do vinho, à magia do vinho, à ligação telúrica e quase divina entre homem, natureza e vinho. Associação especialmente palpável no vínculo religioso cristão entre vinho e sangue de Manipulações e provocaçõesCristo, valores indeléveis impregnados na tradição cultural europeia. Para nós, europeus, sobretudo mediterrânicos, o vinho é uma bebida quase sagrada, parte indissociável da nossa cultura…

Falar de vinho em concordância com termos como manipulação ou intervenção humana continuam a ser temas tabu, temas proscritos na intelectualidade e vox populi europeias. Qualquer sugestão de manipulação na adega, mais ou menos clássica, mais ou menos agressiva, mais ou menos tecnológica, mais ou menos corriqueira, continua envolta em mistério, em recato, na mais profunda discrição, escondida de jornalistas e público, encoberta por décadas de preconceitos e desconfianças. Como se o vinho não fosse um produto do homem, do iluminismo e da racionalidade humana, fruto da astúcia e da intervenção humana, da interposição e mediação humana em todos os passos, em todos os pequenos detalhes.

Porém, por desconfiança irracional e instintiva, continuamos a encarar a intervenção humana na adega com assumida desconfiança, com um eterno franzir de sobrolho, com o temor ancestral que a palavra manipulação continua a provocar. Curiosamente, e também convenientemente, esquecemo-nos das múltiplas intervenções e manipulações que o homem impõe à vinha. Diferentes conduções, a utilização de rega, a poda, os enxertos, a utilização de sistémicos, de produtos biológicos ou tisanas, as vinhas híbridas, os cruzamentos artificiais, a monda em verde, a gestão foliar da copa, as desfolhas, são alguns dos muitos processos de intervenção na vinha que aceitamos com naturalidade…

Pergunta filosófica – porquê esta disparidade de critérios? Porque é que aceitamos sem sobressaltos a manipulação na vinha, a maximização da expressão do terroir, enquanto tememos e rejeitamos a manipulação na adega? Porque abraçamos com entusiasmo a casta Alicante Bouschet, fruto de um trabalho forçado de laboratório, uma criação artificialmente inventada pelo homem… enquanto nos aterrorizamos com a adição de água para diminuir o grau alcoólico?

Não, ao contrário das artes e da filosofia, o romantismo no vinho não morreu no final do século XIX…

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Rui Falcão on June 15th, 2009

É impossível não notar uma permanente ponta de sobranceria no discurso vinícola comum europeu, tiques recorrentes de altivez, pequenos sinais de desdém para com os novos países produtores, para com o novo mundo, para com os países que nasceram seBarca Velham a graça das castas autóctones. Ainda que de forma mais ou menos sorrateira, os pequenos indícios de jactância e presunção estão presentes em todos os discursos, em todos os comentários, nos mais pequenos gestos de vaidade.

No nosso intimo, de forma mais ou menos declarada, sentimos um leve assomo de superioridade, assente nos princípios da grande tradição europeia, na história milenar, na cultura popular e erudita do vinho, na vivência de milhares de anos, na epopeia da demarcação das denominações de origem europeias. Por muito politicamente correctos que sejamos, acabamos sempre por sentir que os países do novo mundo ainda são pirralhos, países imberbes e sem historial, nações jovens e ainda sem pergaminhos. Infelizmente, tal premissa, além de perigosa pelo falso sentimento de superioridade, assenta num pressuposto terrivelmente errado, num erro grosseiro que urge desmistificar. O caso português, ou se preferirmos, os casos portugueses, são paradigmáticos deste erro de cálculo, fruto de uma autoavaliação demasiado condescendente.

Atentemos então no vinho mais emblemático de Portugal, o mais aclamado e valorizado, nacional e internacionalmente, um dos mais ricos no historial, o duriense Barca Velha. Universalmente, será o vinho mais prestigiado e considerado de Portugal, fruto de um passado e presente tão ricos, consagrado pela longa história de colheitas publicadas. Afinal, o primeiro Barca Velha foi editado em 1952, data notável para um vinho português. Por aqui se vê a superioridade dos vinhos nacionais quando comparados com a simples adolescência dos vinhos do novo mundo, todos jovens e sem passado.

Certo? Não, profundamente errado! Basta invocar o equivalente australiano do Barca Velha, o Grange (em tempos apelidado Grange Hermitage), nascido nos confins da jovem nação australiana, país sem história nem tradição, pátria do Yellow Tail e dos vinhos sem alma… Porém, e talvez para surpresa de muitos, a primeira edição do Grange despontou em 1951, curiosamente um ano antes do Barca Velha. E, enquanto o Barca Velha só foi editado em anos excepcionais, o Grange, esse sempre foi publicado, com uma ou outra eventual excepção, ao longo destes quase sessenta anos de vida!

Afinal, onde estão o novo e o velho mundo?

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Rui Falcão on June 2nd, 2009

Desfraldei mMesa Marcadaais um novo capítulo na minha vida profissional, um novo projecto, desta vez a três, uma proposta de cavaqueira… que se espera entusiasta e animada. Um novo blog, o Mesa Marcada, na companhia dos meus amigos Duarte Calvão e Miguel Pires, um espaço de tertúlia e partilha onde queremos falar sobre as coisas boas da vida. Três amigos que se juntam, acima de tudo pelo prazer da partilha, pelo gozo de falar sobre os vinhos, sobre a gastronomia, sobre os pequenos e grandes prazeres da mesa, sobre os grandes temas e as pequenas considerações do dia-a-dia, sobre o humano e o divino.

O que irá acontecer a este espaço? Estará ele condenado a uma morte lenta e gradual, a um abandono pautado e inevitável? Espero que não, e essa não é seguramente a minha intenção. Gostaria de poder manter este meu reduto, um local mais íntimo e intimista, para onde transponho algumas das minhas opiniões e ponderações pessoais, algumas das minhas experiências e devaneios. O futuro se encarregará de confirmar sobre a validade do meu propósito.

Por ora, podem-me ler aqui, neste meu espaço, e no Mesa Marcada.

Rui Falcão on May 28th, 2009

Confesso, tenho uma relação dúbia com os apostolados da biodinâmica, com os preceitos e as práticas, com a filosofia subjacente. Se a minha formação académica, científica e racional, me afasta por inteiro dos conceitos fundamentais, a prática, Nikolaihofapesar da ausência de explicações razoáveis, tem-me mostrado resultados notáveis. Se a lógica e o raciocínio me afastam do conceito, a perspectiva de uma agricultura mais saudável, respeitadora do ambiente e do homem, são conceitos que me seduzem. Se o evangelismo e o proselitismo dos fundamentalistas da causa me aborrecem, os resultados práticos, esses são excitantes.

Apesar de não adivinhar os porquês, apesar da estreiteza de respostas da ciência, a prática evidencia que a agricultura biodinâmica produz resultados inexplicáveis, com uma vitalidade e qualidade ímpar na vinha. Efeitos confirmáveis, ainda que empiricamente, por todos os visitantes de vinhas em prática biodinâmica, na qualidade da fruta, na ausência de doenças, na abundância de vida na vinha.

Serve o intróito para discorrer sobre os vinhos de Nikolaihof, sito na região de Wachau, Áustria. Durante anos, mantive uma opinião ambígua sobre o produtor, apreciando os vinhos mas sem realmente perceber a filosofia, a coerência e lógica da criação. Hoje, apresento-me como convertido, como um devoto da causa, como um apreciador atento dos poucos vinhos que Nikolaihof vai regularmente lançando.

A racionalidade tradicional é aqui substituída por um discurso e costumes muito próprios, por uma ligação profunda com a terra, por práticas aparentemente suicidas, por uma saudável dose de loucura, misticismo e romantismo. A adega é uma das mais antigas da Áustria, assente sobre fundações romanas, edificada há mais de mil anos, no ano de 985, no mesmo local onde há quase dois mil anos se faz vinho. Nikolaihof foi o primeiro produtor no mundo a converter-se às práticas e princípios biodinâmicos, ainda em 1971, numa era onde, aos olhos dos seus atónitos vizinhos, a biodinâmica não andaria muito longe dos princípios da macumba ou feitiçaria.

Na vinha, tNikolaihofal como na adega, acreditam nas virtudes da intervenção minimalista, ou melhor, da não intervenção quase absoluta. Os vinhos são distintos, puros e cristalinos, estupidamente minerais, muito ligeiramente oxidativos, numa lógica em tudo contrária à lógica. Nada deveria funcionar, a desgraça deveria ser inevitável, a calamidade recorrente, a tragédia uma certeza… mas o resultado é simplesmente espantoso. Os vinhos envelhecem bem, muito, muito bem, incrivelmente bem! Ainda me recordo quando Christine Saahs, a guardiã da casa, apareceu um destes dias com uma garrafa de Riesling para provar… de rótulo tapado. Encontrei um vinho maravilhoso, repleto de carácter, intenso mas educado, incrivelmente mineral, frutado, muito floral, repleto de cera, limão, alperce e acácia, límpido e crocante, tenso e fresquíssimo como poucos o conseguem ser. Quando me perguntou se adivinhava a data de colheita fiquei sem saber o que dizer. Todos os indícios apontavam para um vinho ainda mancebo embora as entrelinhas insinuassem uma idade já mais adolescente. Arrisquei o início do milénio, assumindo algum exagero na idade, algum excesso de zelo, refugiando-me numa margem de erro confortável. Fiquei embasbacado, sem voz, quando Christine Saahs me mostrou o rótulo, 1990! Sim, tinha acabado de errar simplesmente por uma década e o Riesling límpido e transparente que estava no copo… tinha dezanove anos de idade. Esmagador, sobretudo quando me contou que este Riesling Vinothek 1990 tinha passado 166 meses em madeira, catorze anos em cascos antigos de madeira avinhada, madeira com quase dois séculos de vida! Candidamente Christine Saahs acrescentou que não adicionaram qualquer sulfuroso, qualquer conservante, por mais natural que fosse… e que a único terapia nestes catorze anos de vida em casco, antes do engarrafamento, consistia numa limpeza trimestral dos cascos, simples limpeza externa acariciando os cascos com um pano seco. Isto numa adega que assenta a escassos metros do rio Danúbio, quase quatro metros abaixo da linha de água do rio, num local muito húmido e tendencialmente bolorento!

Enfim, imagino que o trivial para quem ainda usa o tronco de uma árvore como prensa, uma prensa de madeira, a mesma prensa que foi usada na adega durante os últimos trezentos anos! Que distância para tantas fábricas de fazer vinho que já visitei, que diferença para os princípios da enologia moderna…

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Rui Falcão on May 25th, 2009

Estabelecida por um tio de D. Antónia Ferreira, Bernardo António Ferreira, a Quinta do Vesúvio, é, certamente, uma das quintas durienses mais espantosas e distintas do Douro, a jóia da coroa da família Symington. A paisagem é deslumbrante, com a austeridade das arribas do Douro a marcar o compasso, a sensação de isolamento total, o terroir único. Por entre sete colinas e sete vales as exposições são muitas, as altitudes variadas, Quinta do Vesuvio Capelaos solos relativamente homogéneos, repletos de xisto, muito xisto, muita pedra, muito pó de xisto. Andar pela Quinta do Vesúvio não é tarefa fácil, sempre a descer, sempre a subir, embrulhados numa poeira permanente, num calor sufocante, num clima seco e extremado. Plantar uma vinha no Vesúvio é uma tarefa ciclópica, dura, só ao alcance das escavadoras modernas, da dinamite, das máquinas pesadas. Como terão sido duros os primeiros anos, anos de trabalho braçal, de trabalho bruto, com mais de 500 trabalhadores a retalhar diariamente os socalcos do Douro, a edificar muros nas encostas escarpadas do Douro, num esforço de descrição e compreensão impossíveis.

Muitos anos antes do conceito ser traçado já a Quinta do Vesúvio exportava os vinhos do Porto engarrafados, rotulados com o nome da quinta, na primeira aproximação de que há memória aos Vintage Single Quinta. No Vesúvio tudo foi, e tudo é, diferente, organizado num padrão único, num esquema diferente, numa forma de pensar distinta. E depois temos o terroir, esse termo tão gasto e desbaratado que aqui ganha verdadeira dimensão. Quando os Symington adquiriram a Quinta do Vesúvio, em 1989, sabiam bem o valor da quinta do Vesúvio. Tiveram a ousadia de transformar a quinta numa versão lusitana dos Chateaux de Bordéus, um símbolo de excelência, um rótulo mágico capaz de produzir um Porto Vintage em cada colheita, uma declaração por vindima. Desde 1989, data da edição do primeiro Quinta do Vesúvio Vintage, só em 1993 a quinta não foi capaz de gerar matéria-prima com qualidade suficiente para justificar um Porto Vintage. É estranho e admirável perceber que, anualmente, apenas 4% da produção total da quinta é aproveitada para Porto Vintage, para engalanar os Quinta do Vesúvio Vintage!

Porém, aparentemente, tal fortuna não era suficiente. Por isso nasceu agora o Quinta do Vesúvio Capela Vintage 2007, uma edição inaudita de um novo vinho, uma curta edição de apenas 3.000 garrafas, um Vintage diferente, sustentado num lote radicalmente diferente. Radicalmente diferente pela simplicidade, apenas três castas, Sousão (30%), Touriga Franca (30%) e Touriga Nacional (40%), pela escolha das castas, pela altitude das vinhas, pela cor ainda mais impenetrável que o costumeiro e pela preciosidade da casta Touriga Nacional ter sido vindimada quase um mês antes das castas Sousão e Touriga Franca.

Provado lado a lado com o Quinta do Vesúvio Vintage 2007, o Capela impressiona pela cor, pelos aromas químicos, pela rusticidade e vigor, pelo final poderoso e vigoroso. Não sendo um modelo de elegância, impressiona pela dimensão e brutalidade, pelos taninos vivos e pelo final muito doce. Sinceramente, apesar de nesta fase não conseguir descortinar facilmente de qual gostei mais, inclino-me para o Quinta do Vesúvio, mais suave e delicado, mais redondo e educado, num perfil energético e cheio que termina razoavelmente amável para tamanha juventude.

Sim, para quem está agora a pensar no preço, saiba que o Quinta do Vesúvio Capela 2007 vai ser caro, muito caro… provavelmente excessivamente caro!

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Rui Falcão on February 28th, 2009

Se vivêssemos num mundo racional, num mundo lógico e ordenado, um mundo razoável e coerente, muito cambiaria nos nossos hábitos do quotidiano. Quantas decisões seriam alteradas, quantas mudanças seriam abraçadas, quantas resoluções seriam adoptadas? Um mundo assim aparece fantasioso, utópico e irrealizável, presos que estamos a decisões irracionais em nome de um papão cTampa de caricahamado tradição.

Tradição, essa vaca sagrada que desculpa e justifica tanto laxismo, tanta condescendência e vulgaridade. Tradição, palavra arreigada aos costumes do vinho, aos muitos dogmas e doutrinas que povoam o nosso imaginário comum. Tradição, essa sentença autocrata que anula qualquer veleidade de mudança, de aperfeiçoamento, de progresso natural. Sim, o mundo do vinho está cheio de tradições, de embaraços e escolhas irracionais, invariavelmente apoiados no peso da tradição.

Só mesmo a tradição, e a incapacidade social de encarar de frente uma escolha pouco coroada, poderiam impedir que a simples tampa de carica, a mesma tampa que aprisiona garrafas de cervejas e refrigerantes, se possa apresentar como alternativa legítima aos vedantes tradicionais. Tecnicamente, tem tudo a seu favor. É barata, tremendamente eficaz, fiável, duradoura, sólida, de fácil extracção, de aplicação cómoda e resultados garantidos por mais de um século de experiências e utilização. Embora muitos o desconheçam, ela é usada regularmente há décadas, em alguns dos melhores e mais caros vinhos do mundo, na segunda fermentação de todos os champanhes e vinhos espumantes fermentados segundo o método tradicional. Nenhum outro vedante é tão eficaz. Por serem tão evidentes, poucos se atreverão a contestar as qualidades inequívocas da tampa de carica.

Infelizmente, por desdém e sobranceria, por falta de apuro estético, por simples preconceito, poucos se atreveriam a comprar um vinho aferrolhado por tampa de carica. Desventuradamente, mas compreensivelmente, poucos produtores se atreveriam a comercializar os seus vinhos em garrafas vedadas com tampas de carica. Os poucos que se lançaram na temerosa aventura, produtores alemães sobretudo, com Peter Kühn e Querbach em evidência, rapidamente desistiram face ao perturbante desastre comercial.

Mas, quando já se sepultava a tampa de carica no ocaso da história, eis que novos produtores surgem para abonar e vangloriar a opção. Primeiro os produtores italianos de Prosecco, logo seguidos de um ou outro produtor de vinhos espumantes, Moët & Chandon, nas sucursais do novo mundo, incluída! E recebi, há pouco mais de uma semana, o primeiro rosado austríaco vedado com carica, numa apresentação deliberadamente irreverente, estimulante e provocante, desenhada para escandalizar e agravar. Um rosado que longe de querer esconder o vedante, o anuncia de forma desbragada.

Afinal, será que a tradição já não é o que era?

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